OPINIÃO | Notícia

Fernando Monteiro

Fernando Monteiro Chegava ao nosso escritório, calado e sorrateiramente, no final do expediente, levando empadas de camarão da Padaria Santa Cruz

Por ARTHUR CARVALHO Publicado em 05/03/2025 às 7:00

Manuel Bandeira dizia que começamos a morrer quando nossos amigos começam a morrer. Esse ano que passou, foi pesado – perdi muitos amigos, pensei até em deixar a televisão desligada, para evitar os noticiários com o doloroso e “interminável” rosário e lista dos que partiram sem aviso prévio, deixando dolorosas cicatrizes em nosso coração, algumas, para sempre (gostou, Mário Hélio?).

O querido Fernando Monteiro, chegava ao nosso escritório, calado e sorrateiramente, ao cair da tarde, no final do expediente, levando empadas de camarão da Padaria Santa Cruz “as melhores do Recife”, pedia a nossa competente e doce Secretária Natália para “esquentar um pouquinho” e preparar um chá inglês que tínhamos sempre guardado para ele. E adentrava nossa sala para papos deliciosos que varavam a noite, momentos em que eu aprendia muita coisa. Houve época em que levava filmes clássicos do cinema italiano, em que era doutor, inglês, francês, americano (Shane) e brasileiro para assistirmos na Avenida Beira Rio, nas Graças, onde eu morava. Um dia ele levou Limite, de Mário Peixoto e eu adorei.

O taciturno, circunspecto, culto, temido, discreto e fechado Fernando Monteiro, dizia ter receio de topar com certos figurões. Foi um dos intelectuais mais sérios e honrados que conheci. Partiu sem pertencer a “igrejinhas”, sem bajular alpinistas sociais e poderosos de plantão. Talvez por isso fosse iconoclasta. De vez em quando, escrevia artigos criticando as Academias Brasileira e Pernambucana de Letras. Nasceu no Recife em 1949. Poeta e cineasta, estreou com o livro Memória do Mar Sublevado (Ed. Universitária, 1973), poema longo como os que seguiu publicando em 1981 e Leilão sem Pena (Ed. Pirata) – e em 1993, quando lançou pelo selo do lendário editor paulista Masso Ohno, o premiado Ecométrica. Após o que voltou-se para o romance e publicou em Portugal, pela editora Campo das Letras o premiadíssimo Aspades, Ets Etc. Escritor fecundo e cidadão recluso, arredio e solitário, Fernando Monteiro foi o autor homenageado da Bienal Internacional de Literatura de Pernambuco e prosseguiu na poesia, com Museu da Noite (Ed. Confraria do Vento 2018). Por toda a vida casado com sua querida Cristina a quem muito amava e chamava carinhosamente de minha menina.

Arthur Carvalho – Associação Brasileira de Imprensa - ABI

 

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