Compromisso selado no "Fio do Bigode"
Que cada um de nós - civis e militares - ofereça simbolicamente um fio de nosso bigode, um ao outro, como prova de confiança recíproca.

Em meu último artigo aqui no Jornal do Commercio - Civis e Militares: Fortalecendo Laços para o Futuro (02.11.2024) - apresentei brevemente a teoria do controle civil objetivo, formulada pelo professor Samuel P. Huntington no final dos anos 1950.
Esse estudo defende a supremacia do Estado, representado pelo Poder Político, sobre o Poder Militar, encarnado pelo Soldado, e explora como essa relação impacta a segurança e a estabilidade de uma nação.
Em essência, Huntington propõe que as decisões sobre o uso da força em nome do Estado devem ser tomadas pelo estadista, enquanto a execução dessas decisões cabe aos generais.
À primeira vista, essa divisão de papéis parece simples e intuitiva. Na prática, no entanto, revela uma realidade muito mais complexa.
A obra de Huntington foi influenciada pelo contexto da Segunda Guerra Mundial, em uma época em que os Estados Unidos consolidavam sua hegemonia em múltiplos domínios: político, militar, científico-tecnológico, psicossocial e econômico.
Hoje, as condições que regem as relações entre civis e militares mudaram substancialmente. A hegemonia dos Estados Unidos fragmentou-se com o surgimento de novos polos de poder, e tanto as interações humanas quanto as interações entre Estados enfrentam um constante desgaste.
No encerramento do artigo mencionado, observei que um dos pilares para a consolidação da teoria de Huntington é a premissa de que a subordinação do poder militar ao poder civil depende, em grande medida, dos valores éticos e morais cultivados nas Forças Armadas.
Aproveito a oportunidade para aprofundar essa reflexão, convidando o leitor - especialmente aquele que não pertence às Forças Armadas ou que se interessa pouco por temas de defesa - a refletir sobre algumas questões essenciais.
Qual é o instrumento de poder do estamento político? Seria a fala como ferramenta de persuasão? A credibilidade configurada pelo apoio popular?
E quanto ao estamento militar? Seu poder estaria no fuzil como instrumento de dissuasão? Na competência de seus quadros certificada nas operações?
Vivemos em um mundo marcado por antagonismos, onde as opiniões formadas e expressadas no ambiente social são cada vez mais fragmentadas ideologicamente, flertando, muitas vezes, com o irracional.
Ao mesmo tempo, decisões cruciais para a sociedade são tomadas por lideranças que, por vezes, carecem dos atributos necessários para liderar e nem sempre estão comprometidas com o espírito público.
Nesse cenário, o que faria o "fuzil" submeter-se à "fala"? Afinal, na "realpolitik do dia a dia", na qual a percepção do cidadão é mais pragmática que filosófica, um fuzil é mais incisivo que uma fala.
A despeito disso, como resposta, reafirmo que a subordinação do fuzil à fala é acatada e se dá com base nos valores éticos e morais cultivados pelos militares profissionais.
Valores forjados na tradição, cultivados ao longo de anos de estudo e prática, tanto nas escolas militares quanto nos quartéis, e herdados dos princípios maiores da sociedade que os acolhe.
Essa relação de confiança mútua entre civis e militares é simbolicamente selada pela troca do "fio de bigode" - expressão que evoca o compromisso de crença mútua e respeito entre as partes.
Desde cedo, o militar é estimulado a adquirir padrões psicomotores que o distinguem do cidadão comum. Essa distinção, contudo, não o isola nem o torna superior. Pelo contrário, reforça seu papel de integração e complementaridade na sociedade.
Consciente desse papel, o militar compreende que, embora a ética militar possua características próprias, ela jamais deve se sobrepor à ética aceita e compartilhada por toda a sociedade.
Na construção de uma democracia sólida, não devem existir castas nas relações civis militares. Todos são, ao mesmo tempo, legionários e centuriões, marchando lado a lado, para assegurar uma vivência harmônica entre o Soldado e o Estado.
Desarmados de preconceitos e com um compromisso de respeito genuíno, que cada um de nós - civis e militares - ofereça simbolicamente um fio de nosso bigode, um ao outro, como prova de confiança recíproca.
Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva