E se Weber fosse vivo?
O sociólogo Marx Weber (1864 - 1920) fez-se conhecer, notadamente no mundo Ocidental, como um dos maiores estudiosos da sociologia...

Nascido em família de intelectuais, razão de sua precocidade acadêmica, seu pai era um advogado com atuação na área política e sua mãe uma liberal que professava arraigada fé protestante.
Em 1919, portanto logo após a primeira guerra mundial, quando o mundo era encurralado por novas visões políticas de caráter totalitário, o sociólogo foi convidado a ministrar palestras na universidade de Munique, ocasião em que tratou das vocações que impulsionavam aqueles que atuavam na ciência e na política.
No ensaio A POLÍTICA COMO VOCAÇÃO, ele explicou seu entendimento sobre Estado, política, violência estatal, partido, poder, sociedade, ética, entrelaçando-os como bilros de uma rendeira para oferecer àquele público um desenho mais consistente do ambiente político na infância do século 20.
Quando destrinchou os políticos, os quais dividia em os que vivem para a política e os que vivem da política, afirmou: "Desde que existem os Estados constitucionais e mesmo desde que existem as democracias, o demagogo tem sido o chefe político típico do Ocidente".
Quando abordou a atividade partidária, alegou que ela se assemelhava à ação de dirigir um empreendimento, porquanto a organização política sobrevive dos lucros obtidos nas feiras onde se vendem e compram interesses.
Hoje, se fosse convidado a falar sobre o mundo de agora, certamente Weber reafirmaria que suas convicções permanecem atuais.
As disputas eleitorais contemporâneas, ou devo chamá-las de disputas pelo poder, mostram estruturas comercializando promessas irrealizáveis, enquanto seus quitandeiros discursam entusiasmados para convencer compradores, já velhos fregueses.
São demagogos de todos os naipes. Demagogos de esquerda, demagogos de direita, espalhados do Velho ao Novo Mundo, acima e abaixo da linha do Equador, que buscam desfrutar as benesses oferecidas pela cadeira do poder.
Assisti ao demagógico discurso de Trump na convenção republicana. Provocativo, às vezes sereno, no início emocional (compreensível, afinal cruzara com o anjo da morte dias antes), como de costume, ele acarinhou seus seguidores e horripilou seus antagonistas.
Qual a possibilidade de eleitores americanos não republicanos, após 1h e 30 min de um discurso escrito para santificar o candidato, comprar aquela figura e mudar de opinião?
Nenhuma! As bolhas estão impermeáveis e não serão perfuradas e oxigenadas salvo se um apocalipse se abater sobre a terra.
Logo após a convenção republicana, uma notícia bombástica inundou as telas americanas de televisão: Biden desistiu, Kamala tem seu apoio.
A possível nova candidata democrata traz energia à campanha do partido até então nas cordas e desesperançado com o desempenho e com a saúde de Joe.
Traz a novidade que faltava para enfrentar a avalanche Trump dos últimos dias. Mas, para o mundo, nada muda na disputa pelo cetro da mais poderosa nação do globo.
As pesquisas indicam uma diminuição do favoritismo de Trump. E, no momento, é só isso!
Kamala não foge do perfil demagogo. Igualmente oferece a preços módicos terrenos na Lua e até em Marte.
Lá na "América", aqui no Brasil, vivemos em um mundo de antípodas que não se enxergam por habitarem os lados opostos de uma caverna carente da luz do Sol (uma referência à alegoria O MITO DA CAVERNA).
Nesse contexto, mesmo sabendo que toda pessoa que se entrega à política aspira de algum modo ao poder, Weber observaria confiante que ainda há "homens e mulheres de bem".
Homens e mulheres de bem, conservadores ou progressistas, capazes de viver apenas para a política, cuja estratégia para liderar neste momento as sociedades deverá começar por conquistar a parcela da população que vive fora da caverna e ainda não está infectada pelo extremismo.
Homens e mulheres de bem que saberão lançar cordas de resgate para salvar outros homens e mulheres de bem, presos do fundo da caverna, que se encontram fragilizados, famintos e hipotérmicos, mas que ainda acreditam na chance de viver em liberdade, desde que segundo suas próprias decisões, e até, ordeiramente, coexistir com o dissenso.
Homens e mulheres de bem que não se abaterão nem mesmo que o mundo se revele demasiado estúpido ou demasiado mesquinho para merecer o seu empenho.
Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva