Esquálidos insetos efêmeros
Destruam o muro acústico que impede as ideias de chegar a ouvidos alheios. Admitam que ninguém está totalmente errado e ninguém está totalmente

A Revolução Francesa, no final do século XVIII, acendeu o rastilho de pólvora que desencadeou uma série de explosões e transformações sociais cujos impactos ainda ressoam no mundo atual.
Naqueles dias, as sociedades do velho continente, inebriadas por um espírito reformista, passaram a rejeitar todo tipo de supostas amarras que os regimes anteriores à queda da Bastilha teriam consagrado, enquanto ansiavam por uma incontrolada liberdade.
Na Inglaterra, tomando-a como referência da atmosfera eletrizante, associações culturais e religiosas se reuniam com frequência para debater o processo revolucionário francês, divulgá-lo e reverenciá-lo.
É relevante observar que essa mesma Inglaterra passou pela Revolução Gloriosa de 1688, ocasião em que foram confirmados os princípios hereditários para a sucessão ao trono, imposto o protestantismo aos monarcas e fortalecido o parlamento como órgão de controle do rei, ideias, a princípio, antagônicas às defendidas em terras francesas.
A Ilha viu-se inundada de manifestos, divulgados aos borbotões, enquanto oradores se multiplicavam nos púlpitos em busca de justificativas para a ferocidade com a qual a população francesa menos abastada se predispusera a derrubar o rei, humilhar a sua família, depreciar o clero e a nobreza, e alterar os pilares do Estado francês.
Qualquer dissidente que não se solidarizasse com a presumida voz da razão ou direito natural daqueles revolucionários era visto como inimigo do gênero humano. A única sentença cabível a esse monstro deveria ser a morte.
Foi quando Edmund Burke, um político e intelectual anglo-irlandês de histórico liberal se levantou firmemente contra o "oba oba" que se apossou particularmente dos pensadores seus conterrâneos e elaborou um "manifesto contrarrevolucionário" que obteve um sucesso estrondoso.
REFLEXÕES SOBRE A REVOLUÇÃO FRANCESA - como o libelo foi denominado - consolidou-se em uma referência ao conservadorismo, sendo ainda hoje alvo de estudos apaixonados que recebem tanto aplausos como apupos.
Escrito em forma de uma carta que foi endereçada a um político francês, o texto traz a essência daquela ideologia ao refletir argumentos que sustentam teses como a de que "qualquer coisa que um homem individualmente possa fazer, sem lesar os demais, tem o direito de fazê-lo para si mesmo, assim como tem o direito a uma justa parcela de tudo que a sociedade, mediante a combinação de suas habilidades e forças, possa fazer em seu favor".
Ao mesmo tempo, para Burke, o homem livre deveria enquadrar-se e aceitar que uma das primeiras razões de ser da sociedade, e que se tornaria uma das regras fundamentais de convivência entre pares, é a de que nenhum homem poderia ser juiz de sua própria causa.
O tal "oba oba" como apologia aos princípios da Liberté, Égalité, Fraternité mereceu-lhe ainda uma observação que bem nos veste agora na estridência das mídias sociais:
"Porque meia dúzia de gafanhotos sob uma samambaia faz o campo vibrar com seu inoportuno zumbido, enquanto milhares de cabeças de gado, repousando sobre a sombra do carvalho inglês, ruminam em silêncio, não imaginem que os que fazem barulho são os únicos habitantes do campo ou que, logicamente, estejam em grande número ou, ainda, que sejam outra coisa além de minúsculos, esquálidos, saltitantes - embora ruidosos e problemáticos - insetos efêmeros."
É fato aceito pelos mais atentos estudiosos da política do mundo no pós-1789, que, com a evolução dos ideais revolucionários franceses, consolidou-se a narrativa de que a proposta dos sans-culottes (artesãos, lojistas e pequenos proprietários integrantes do Terceiro Estado) representava a essência de liberdade, igualdade e fraternidade.
Na prática, outras posturas ideológicas e culturas políticas são parceiras das mesmas ideias, embora as busquem por caminhos e métodos diferentes.
Recentemente, em entrevista ao jornalista Pedro Bial, Gabriel, O Pensador, revelou sua ansiedade por interlocução e citou trecho da nova música com título PROFECIA: se todos têm voz eu tenho ouvidos.
Fica uma lição na postura do famoso rapper. Progressistas e conservadores podem sim trabalhar juntos para o bem da sociedade.
Diminuam a algaravia das opiniões incontestes. Destruam o muro acústico que impede as ideias de chegar a ouvidos alheios. Admitam que ninguém está totalmente errado e ninguém está totalmente.
Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva