Caramelo - nós amamos você
De todas as cenas de desespero e sofrimento da enchente do Rio Grande do Sul, a que mais me emocionou foi a do cavalo Caramelo aguardando, impotente, imóvel e cauteloso, por socorro sobre o telhado de uma casa.

Foram quatro dias de tormento, porque seu apurado instinto de sobrevivência o aconselhava a aguardar socorro, pois, apesar da sede que sentia, não devia beber aquela água poluída que passava à sua frente. Somente a esperada ajuda humana poderia salvá-lo - não iria enfrentar correnteza tão forte. O cavalo é um animal inteligente e sensível, e quanto mais inteligente, mais doloroso o padecimento. Ele estava tão mal de saúde que mereceu cuidado médico especial quando atendido pelos veterinários.
Para que não achem perda de espaço falar em cavalo na nobre folha de opiniões deste JC, vejam esse trecho de Sérgio Barcellos in Cavalos de Corrida - uma Alegria Eterna: "Desde o início dos tempos, o cavalo tem sido o único animal capaz de provocar emoção estética no homem." E acrescenta: "De Pégaso, o corcel alado mitológico, 'aquele que porta o trovão e o raio', filho de Posídon e Medusa - símbolo da impetuosidade dos sentidos e da imaginação criadora - aos 'imortais' Xanto e Bálio, que conduzem a briga do herói Aquiles na Guerra de Tróia, a cultura greco-romana sempre esteve impregnada de um misto de curiosidade e fascinação por eles."
Eu tinha um tordilho, de nome Velhinho, que os invejosos chamavam de pangaré, quando morei em Natal, pelos anos 40. E nele montado, passeava pelos bairros ainda descalçados da cidade, pelas dunas brancas e morros de Ponta Negra, praias de Pirangi do Norte e do Sul, lugar dos cajus mais doces do mundo. Era um cavalo manso, e sinto muitas saudades dele. Cavalo é o meu animal preferido. Não esqueço do campeão Mossoró, primeiro vencedor do Grande Prêmio Brasil, do lendário Haras Maranguape, dos Lundgrens, envergando a tradicional e respeitada jaqueta amarela e azul de listras horizontais. De Itajara, Quiproquó e Escorial, que vi correrem no Jóquei do Rio. Baronius, Falcon Jet e Ramiro não me saem da memória. Até hoje, quando ouço falar no campeoníssimo argentino Forli, me emociono. Ao ser acudido, Caramelo pesava apenas 300 quilos, e os ossos das costelas já estavam à mostra. Eu nunca vou esquecer sua aflição e seu estoicismo. Fique bom, Caramelo, e volte logo pra casa. Pra sua casa. Pra nossa casa.
Arthur Carvalho, da Academia de Artes e Letras de Pernambuco - AALP