
Pensei até em ser hippie na luta contra o genocídio. Gustavo seria parceiro ideal nessa caminhada, mas, dono de uma inteligência emocional raríssima, possivelmente sugeriria, e eu acataria, não irmos pela metáfora hippie, e sim, adotarmos um caminho mais combativo e eficaz. Ele era assim, sempre apontava caminhos. Nos quase dez anos em que fomos sócios de escritório, fortaleceu-me, engrandeceu-me, e a todos nós, com sua combatividade, intransigência nos princípios, ética, dignidade, cultura, e raciocínios brilhantes. Exonerou-se do cargo de auditor fiscal da Secretaria da Fazenda do Estado, e ingressou no escritório por seleção. A essa altura, eu já tinha lido seu livro Federalismo & ICMS - Reflexos Tributários, e estava impressionado não apenas pela forma escorreita da escrita, pela cultura jurídica que demonstrava, estava impressionado pela brilhante exploração do tema do federalismo cooperativo feita por um advogado tão jovem. No escritório, organizou a área tributária, deu-lhe dimensão nacional, inovadoras experiências de gestão, entregou-se de corpo e alma. Era também um baixinho brabo danado, a gente tirava onda, sempre amistosamente. Uma vez, fui visitar o Professor Ives Gandra, que tinha prefaciado seu livro, e Gustavo pediu que eu lhe transmitisse um abraço. Na volta, de brincadeira, eu disse que, ao ouvir o nome dele, o Prof. Ives redarguira com expressão de total desconhecimento: quem?!! Ele ficou vermelho, brabíssimo, até que desfiz a brincadeira, e contei dos elogios feitos a ele. A brincadeira correu anos no escritório. Gostava das coisas feitas a seu modo, porém, acostumou-se à vida societária, convivia com os sócios construtivamente, tendo sempre como ideal o crescimento coletivo. Saiu do escritório por outro propósito, e brilhou outra vez na banca que construiu. Gosto de pensar, contudo, que foi no escritório que ele encontrou Fabiana, com quem veio a casar, e daí estruturou a família, os filhos Francisco e Isabella, que guardarão, para sempre, dentro deles, todos os princípios de Gustavo. Ele e Roberto, cuja amizade floresceu naquele espaço, criaram um vínculo indestrutível até na morte, ambos se foram em 14 de março, Roberto poucos anos antes. Isso para dizer que Gustavo também era um homem cheio de afetos. Sua morte prematura, aos 47 anos, é uma perda infinita. Gustavo era amante da obra e grande admirador de Joaquim Nabuco. Posso dizer, a propósito, que Gustavo, como ele, tinha o porte de um estadista. E, como escrevo em 21 de março, dia internacional da luta pela eliminação da discriminação racial, é inevitável, também por isso, pensar no grande abolicionista e nas certamente admiráveis conversas que ele e Gustavo estão travando no céu, cada um com seu charuto, tentando descobrir como o país que sonharam acabou nas mãos de um genocida. No vento, vêm sussurros das conversas, em que pontificam termos como nações felizes, fortes e respeitadas que abrem espaço à vida, à saúde e à dignidade das pessoas.
João Humberto Martorelli, advogado
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