O poder da mentira

A mentira parece imbricada na própria essência humana. Se antes se propagava lentamente, hoje corre a galope, impulsionada sobretudo pelos celulares

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Verdade e mentira: faces da mesma moeda? - iStock

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O livro Fake News, O Poder da Mentira na Sociedade Contemporânea, de Edmundo Monteiro de Almeida e Raimundo Peres, é uma obra importante e bastante oportuna, pela atualidade e relevância do tema: a mentira como fenômeno humano, social, psicológico, político e cultural.

Logo na abertura, os autores recorrem a José Saramago, quando ele proclama: “O tempo das verdades plurais acabou. / Vivemos no tempo da mentira universal. / Nunca se mentiu tanto. / Vivemos todos os dias na mentira.”

No prefácio, Alfredo Passos, renomado professor universitário, observa: “Embora o vernáculo fake seja um rebento da modernidade, o ato de disseminar inverdades é um artefato tão antigo quanto o ato de se comunicar.”

A mentira tem raízes históricas e parece imbricada na própria essência humana. Se antes se propagava lentamente, hoje corre a galope, impulsionada pelas telas, sobretudo as dos celulares, numa velocidade semelhante à da luz.

O Cavalo de Troia, Introduzido na cidade como símbolo de rendição, tornou-se instrumento de traição e destruição. Uma mentira engenhosa que abriu as portas de Troia aos gregos, aos inimigos.

O poder da mentira está na capacidade de provocar desencontros e conflitos: guerras, barbárie, ambição, intrigas, farsas, corrupção, traições, exploração e violência.

Podemos dizer que a mentira é a argamassa da ilusão. Na infância, ela habitava, docemente, o reino do faz de conta, quando construíamos castelos imaginários e brincávamos de reis. Havia, ainda, a chamada mentira médica, hoje cada vez mais questionada diante da verdade como fundamento da confiança entre médico e paciente. Como lembra o poeta Mauro Mota: “Difícil é enganar o desenganado.”

Não há limites para a fabricação das fake news. Nas últimas eleições, por exemplo, assistimos a um verdadeiro desvario: campanhas alimentadas por ilações, acusações, ataques à honra e violência cibernética.

A mentira é poliédrica, tem muitas faces e várias máscaras.

A obra de Edmundo e Raimundo procura compreendê-la para além de sua condenação moral. Investiga por que as pessoas mentem, como as inverdades são construídas, por que encontram receptividade e de que maneira se transformam em instrumentos de influência e poder. É, portanto, um convite à reflexão sobre o comportamento humano diante da verdade.

Se caricaturarmos os desvarios humanos no reino animal, encontraremos no cão o símbolo da fidelidade, na raposa a astúcia e no escorpião a traição. Este último nos remete à conhecida fábula do escorpião e do sapo, quando, depois de ferroar aquele que o transportava, justifica-se: “Foi a minha índole”.

Há poucos dias, vinte voos na Europa sofreram sobressaltos após falsos alertas de bomba, que provocaram pousos de emergência. No dia seguinte, ameaças semelhantes chegaram às redações de jornais europeus. Eis as fake news em ação, potencializadas pelo alcance da inteligência artificial.

O episódio fez lembrar o “estouro” de Tapacurá, quando o falso alarme, ainda chamado simplesmente de trote, provocou pânico. O vocabulário era outro; a capacidade de assustar, a mesma.

Podemos, numa reflexão quase maquiavélica, concluir: o cão pode ser fiel sem conhecer a lealdade; o homem, embora a conheça, pode escolher traí-la.

Vivemos, assim, numa desvairada fantasia. Nem sempre sabemos em que terreno pisamos. Caminhamos às tontas, apalpando a própria sombra.

A vida parece esse jogo de cabra-cega. Todos perseguem a mesma panela: a do ouro. E tudo bem, como costumamos dizer, mesmo quando tudo vai mal. Grande povo, o brasileiro! Dança e samba à beira do abismo.

Qual abismo, qual nada! Não caímos nele porque, afinal, ele nem existe. Nossa fantasia dá para tudo. Alguém anuncia a convulsão social, com voz agourenta. E logo respondemos:

— Primeiro de abril!

Para que sabedoria maior? E tudo continua. Virá o carnaval, e o sambódromo terminará em apoteose. Talvez esteja aí o retrato perfeito do Brasil.

Roberto Pereira — Cadeira 35 da Academia Pernambucana de Letras

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