Opinião | Notícia

Cooperação assimétrica: Quem cacareja e quem entra com a carne?

Há chefes que distribuem ordens e, depois, passam o dia cacarejando o suposto mérito da autoridade. Essas figuras não lideram coisa alguma

Por MARCELO SILVA Publicado em 07/07/2026 às 10:33 | Atualizado em 07/07/2026 às 10:34

Clique aqui e escute a matéria

Siga o JC no Google e acompanhe
tudo o que você precisa
Seguir no Google

No mundo do treinamento empresarial, há uma anedota de origem norte-americana que gosto de contar com um sanduíche na mão.

A frase que a define é esta: in a bacon-and-eggs breakfast, the chicken is involved, but the pig is committed. A tradução é: em um café da manhã de bacon com ovos, a galinha está envolvida, mas o porco está comprometido.

Para essa refeição matutina existir, a galinha contribuiu com os ovos. Cumprida sua tarefa, ela saiu cacarejando pelo terreiro, toda orgulhosa, anunciando sua contribuição. O porco também cooperou, entregando a carne. E, para isso, deu a própria vida.

Costumo fazer minha própria reflexão sobre essa parábola. Nas reuniões corporativas, frequentemente, há muitas galinhas. E agradeço a Deus por essa dádiva. São as pessoas das brilhantes ideias, das sugestões inteligentes, dos slides bem desenhados. Depois de apontarem um caminho, saem “cacarejando”, cheias de vaidade. Contam para os colegas, postam no grupo e, evidentemente, aguardam pelos elogios.

Para não ser injusto, repito: o ovo importa! Porque toda empresa precisa de gente que pense, sugira, discorde, provoque e inove.

O problema começa quando a organização passa a confundir cacarejo com entrega. O aplauso, o bônus e a promoção vão para quem fez barulho com a ideia, e não para quem virou a noite para transformar o projeto em realidade.

Na minha analogia, esses executores representam os porquinhos do breakfast. São os carregadores de piano, aqueles que, sacrificando o lazer, a saúde e a convivência familiar, fazem a mudança acontecer.
Sobram exemplos no mundo corporativo global. É o caso do sucesso da Apple. Steve Jobs era a “galinha” falante que tinha insights, estruturava conceitos e imaginava o design.

Tim Cook, que durante muito tempo foi o diretor de operações (COO) da empresa, era o “porco” executor que convertia essas ideias em produtos com grau de excelência. Era o sujeito que passava 16 horas por dia quebrando a cabeça para viabilizar um projeto de inovação.

Usei o conceito de sacrifício, palavra que vem do latim sacrum facere, que significa “fazer o sagrado” ou “tornar sagrado”. Quem entra com a “carne”, portanto, entrega algo de si e concede valor humano ao resultado.

Comete, portanto, grave pecado o gestor que trata esse esforço como banal.

Na hora da celebração, muitos executivos exaltam a galinha e mal se lembram do porco. É uma conduta injusta e que se converte em mau negócio. Desprezado, o pobre suíno aprende rapidamente a lição: quando do próximo desafio, ele vai cacarejar e preservar sua carne.

Nessas situações, a confiança no líder logo se desfaz. Silenciosamente, começam as disputas internas, as puxadas de tapete, o “meu pirão primeiro”. A empresa é acometida de uma doença degenerativa que não aparece no balanço patrimonial.

Faço, então, a pergunta pertinente: nessa granja disfuncional, o líder é galinha ou é porco?

Depois de seis décadas na estrada, tenho convicção de que a melhor liderança é aquela que entra também com a carne. Quanto mais alto seu cargo, mais o gestor deve servir ao coletivo de trabalho.
Há chefes que, pela manhã, distribuem ordens e estabelecem missões. Depois, passam o dia cacarejando o suposto mérito da autoridade. Na minha opinião, essas figuras não lideram coisa alguma. Elas apenas ocupam o palco do galinheiro.

Lidera mesmo quem está junto no empenho, quem arregaça as mangas e quem assume os riscos de forma compartilhada.

Uma empresa não se constrói sangrando sempre os mesmos porquinhos, enquanto as galinhas passeiam pela fazenda, cacarejando sem maiores responsabilidades. Compromisso de verdade tampouco se estabelece com a exaustão dos dedicados. Depende de distribuição justa de tarefas, de mérito reconhecido e de entrega recompensada.

No fim, todo bacon-and-eggs precisa de seus ingredientes fundamentais, e não faz sentido escolher entre a galinha e o porco. O grande desafio é alinhar talentos, competências e encargos.
Então, antes de cobrar a carne dos outros, faça a si mesmo esta indagação: ando apenas cacarejando ou tenho me sacrificado pelo bem de todos?

Marcelo Silva, consultor de empresas

Compartilhe

Tags