Captura de Nicolás Maduro gera alerta internacional e pode redefinir relações globais, analisam especialistas
Presidente Donald Trump anunciou ter capturado Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, nas primeiras horas da manhã deste sábado
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O anúncio do presidente dos Estados Unidos Donald Trump de ter capturado o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, nas primeiras horas da manhã deste sábado (3), tem mobilizado a comunidade internacional. Cientistas políticos ouvidos pela Rádio Jornal analisaram como fica o cenário mundial após a intervenção.
De acordo com Trump, Maduro foi retirado do país por via aérea. A declaração, feita por suas redes sociais, foi dada após registros de bombardeios na capital venezuelana, Caracas.
“Os Estados Unidos da América realizaram com sucesso um ataque de grande escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, que foi capturado, juntamente com sua esposa, e retirado do país por via aérea. Essa operação foi realizada em conjunto com forças de aplicação da lei dos Estados Unidos”, disse.
Em entrevista à Rádio Jornal, a mestre em ciência política e jornalista Deijenane Santos analisou que, diante deste cenário, as relações internacionais podem ficar “ainda mais complicadas”.
Para ela, ainda que a ação tenha sido considerada “cirúrgica” e que o governo Maduro seja contestado e considerado uma ditadura, há uma quebra do direito internacional.
“A partir do momento em que os Estados Unidos fazem esse tipo de ação e invadem um território soberano, se quebra um dos pontos mais importantes da convivência e do direito internacional”, afirmou.
A cientista política destacou, ainda, que a intervenção pode significar que os Estados Unidos possam fazer outras ações semelhantes no futuro.
“Se os Estados Unidos forem por esse caminho, a gente vai ter com certeza um sistema internacional muito mais preocupante, porque se tem potências que se acham no direito de fazer operações nessa linha”, explicou.
Deijenane pontuou também que a Organização das Nações Unidas (ONU) deve condenar a ofensiva americana formalmente.
Cenário na América Latina
A relação dos Estados Unidos com a América Latina também deve ser afetada após a ofensiva do governo americano.
Para Thales Castro, cientista político e professor de relações internacionais, diante de interesses estratégicos, o país americano deve “exercer de maneira mais agressiva” seu poder.
O doutor em ciência política e professor Antonio Lucena complementou destacando que na nova administração de Trump, o nível de coerção foi aumentando contra o presidente Nicolás Maduro e que os EUA colocam a América Latina “como região prioritária”.
“O que a gente observa é que a Venezuela foi escolhida como principal alvo dentro desse contexto estratégico”, disse.
Apesar disso, Lucena acredita que a reação dos países latinos não deve evoluir para um cenário de guerra. “A América Latina é irrelevante em termos militares para os Estados Unidos. Então, dificilmente nós vamos ver alguma ação militar efetiva em apoio a Maduro dos países da América do Sul ou de outros, em relação aos Estados Unidos”, ressaltou.
Sucessão na Venezuela
O futuro da Venezuela é uma incógnita após a prisão do presidente Nicolás Maduro. Thales Castro explicou que o venezuelano e sua esposa deverão se apresentar ao Tribunal Federal Norte-Americano para responder às acusações de relação com o narcotráfico e que o país deve ter um governo emergencial em um primeiro momento.
“É muito provável que a Venezuela tenha um governo emergencial para reinstalar o processo eleitoral amplamente verificado de forma legítima. María Corina Machado [líder da oposição] deve ter um papel nessa transição. O que deve acontecer é uma restauração de uma mínima legitimidade democrática na Venezuela, um processo de transição emergencial e de retificação da economia venezuelana”, destacou.
Já Antonio Lucena pontua que devem haver disputas internas para o poder do país.
“A gente tem algumas figuras do regime que são extremamente importantes, como Delcy Rodríguez, que é a vice-presidente e, teoricamente, assume. Porém, a gente tem figuras que são muito poderosas, como o Vladimir Padrino López, ministro da Defesa, e também o Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Constituinte”.
Apoio interno
Os cientistas políticos analisaram, ainda, a entrada dos EUA na Venezuela. Para Antonio Lucena, as operações especiais foram deflagradas com ações militares de bombardeio de forma isolada com apoio interno.
“A ação foi direcionada à principal liderança do país, ou seja, eles entraram, capturaram Maduro e a sua esposa e saíram, que é o que a gente chama, em termos militares, de infiltração e extração dessa figura de alto nível”, explicou.
Lucena pontuou, ainda, que a prontidão militar venezuelana foi praticamente zero, sem reação à intervenção estadunidense: “As Forças Armadas venezuelanas foram muito politizadas ao longo do tempo e sem muito profissionalismo”.
Já Thales Castro, classificou a prisão de Maduro como um fato histórico e o “fim de um ciclo”. “É o fim de um ciclo autoritário que empobreceu a Venezuela, violou sistematicamente direitos humanos, teve presos políticos, houve defraudações evidentemente documentadas, abundantemente provadas de processos eleitorais, ou seja, é um autoritarismo sem medidas”, disse.
Segundo ele, as acusações do governo americano de que Maduro seria um dos líderes do Cartel de Los Soles, considerado uma organização terrorista, têm comprovações de outras fontes no cenário global.
“Há evidências que não são apenas da fonte americana de comprovar a relação da ditadura com cartéis que operam dentro da Venezuela e também na rota a partir da Colômbia, Venezuela para os Estados Unidos e outros grandes centros consumidores”, afirmou.