Trump reacende negociações e tenta costurar acordo de paz entre Rússia e Ucrânia
Após meses de idas e vindas, Trump envolve russos, ucranianos e União Europeia em novas negociações, mas propostas seguem distantes e impasse persiste
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Antes mesmo de retornar à Casa Branca, Donald Trump prometeu que encerraria a guerra na Ucrânia em apenas 24 horas após assumir o cargo.
Dez meses depois, o conflito continua, mas o presidente americano conseguiu algo que seus antecessores não obtiveram: sentar russos, ucranianos e a União Europeia à mesa para discutir um possível acordo de paz, ainda distante, mas em curso.
O esforço diplomático ocorre em meio a mudanças de estratégia, encontros tensos e propostas controversas. Diferente de Joe Biden, que evitou negociações diretas com Moscou, Trump sempre cultivou proximidade com Vladimir Putin.
Logo no início do mandato, organizou um encontro de alto impacto com o líder russo em Anchorage, no Alasca, cercado de simbolismo e atenção global. A reunião não rendeu acordo, assim como oito conversas telefônicas posteriores e cinco viagens do enviado especial americano Steve Witkoff a Moscou.
O avanço mais recente veio após Trump intermediar uma trégua entre Israel e o Hamas e decidir aplicar a mesma lógica ao conflito europeu.
Ele autorizou Witkoff e seu genro Jared Kushner a elaborar uma nova proposta de paz, construída após conversas com Kirill Dmitriev, enviado de Putin, e Rustem Umerov, conselheiro de segurança do presidente ucraniano Volodmir Zelenski.
Um plano que favorece Moscou
O documento inicial, com 28 pontos, foi visto por Kiev como uma “capitulação total”. A proposta limitava o Exército ucraniano, impedia a entrada do país na Otan, congelava qualquer expansão da aliança militar em direção à Rússia e exigia concessões territoriais em Donetsk e Luhansk – regiões que Moscou sequer controla completamente.
Para o professor Angelo Segrillo, especialista em Rússia pela USP, Trump utiliza sua tática clássica de negociação: pedir demais para depois ceder.
“Ele pressiona a Ucrânia para aceitar um acordo e isso pode funcionar, mas abre margem para problemas futuros”, afirma.
A União Europeia também reagiu negativamente. O bloco teme ser visto como fraco diante de Washington e Moscou e atuou para barrar o avanço de um plano que contrariava seus interesses.
Europa entra na jogada
Diplomatas europeus se reuniram com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, em Genebra e conseguiram influenciar uma revisão significativa das propostas.
O plano foi reduzido de 28 para 19 pontos e ficou mais alinhado aos interesses de Kiev e Bruxelas. A exigência de Trump de que a Ucrânia assinasse um acordo até o fim de novembro também foi abandonada.
Entretanto, temas centrais – exigências territoriais da Rússia, mudanças constitucionais que afastariam a Ucrânia da Otan e garantias de segurança americanas – seguem indefinidos.
Enquanto isso, Moscou rejeita integralmente a versão modificada pelo Ocidente. Novas rodadas de negociações devem ocorrer.
Steve Witkoff se reunirá com Putin em Moscou na segunda-feira, 1º, enquanto Daniel Driscoll, secretário do Exército dos EUA, discutirá o novo plano com autoridades ucranianas.
Putin quer sair como vencedor
Apesar de acenar para o diálogo, Putin segue preparado para continuar a guerra. Mesmo enfrentando perdas no front e dificuldades econômicas, o líder russo acredita que pode ganhar mais território e, assim, aumentar seu poder de barganha.
Para o presidente russo, é essencial anexar completamente Luhansk, Donetsk, Zaporizhia e Kherson, regiões cuja conquista total é tratada internamente como sinônimo de vitória. Além disso, Putin considera inegociável impedir a entrada da Ucrânia na Otan.
“Assim como os EUA não aceitariam o México numa aliança militar hostil, a Rússia quer preservar sua zona de influência”, explica Segrillo.
Fraqueza militar e crise política em Kiev
A condição interna da Ucrânia também enfraquece suas posições de negociação. O país perde território em ritmo acelerado, enfrenta escassez de soldados e tem dificuldade para manter o financiamento de guerra.
Além disso, denúncias de corrupção atingem figuras próximas de Zelenski, incluindo Andrii Yermak, seu ex-chefe de gabinete, que renunciou após operações anticorrupção em sua residência.
Sem força militar suficiente, Kiev dificilmente recuperará posições estratégicas para negociar em melhores termos. A intenção de Zelenski era congelar as linhas atuais do front, mas Moscou exige retiradas.
Antes de renunciar, Yermak afirmou à revista “The Atlantic” que a Ucrânia não abriria mão de territórios em qualquer acordo.
Para alguns analistas, apenas uma mudança de governo em Kiev poderia levar à aceitação de um acordo amplamente favorável à Rússia.
Divergências dentro do governo Trump
Mesmo entre os americanos envolvidos nas negociações há divisões. De um lado, Witkoff e o vice-presidente JD Vance defendem um acordo mais alinhado aos interesses comerciais dos EUA e às demandas de Putin.
De outro, Marco Rubio defende uma linha diplomática tradicional, mais próxima dos aliados europeus.
A situação ficou ainda mais delicada após o vazamento de gravações divulgado pela Bloomberg, em que Witkoff parece orientar Yuri Ushakov, assessor de política externa do Kremlin, sobre como Putin deveria abordar Trump. O presidente americano minimizou o episódio.
Segundo Charles Kupchan, do Council on Foreign Relations, Trump acerta ao buscar uma negociação, mas peca na forma como conduz o processo.
“A Ucrânia não consegue vencer essa guerra militarmente. Mas a condução foi problemática”, avalia.
Com divergências internas, pressões internacionais e demandas contraditórias de Moscou e Kiev, o caminho até a paz permanece longo – talvez mais longo que a própria promessa de Trump de resolvê-lo em um dia.
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