Inteligência artificial desafia escolas a repensar ensino e formação de estudantes
Especialistas defendem uso pedagógico da IA, formação docente e desenvolvimento de pensamento crítico, criatividade e competências humanas nas escolas
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O crescimento da inteligência artificial para atividades do cotidiano tem levado escolas e educadores a discutir não apenas quais ferramentas utilizar, mas que tipo de formação deve ser oferecida aos estudantes diante de um cenário de rápidas transformações tecnológicas. O debate envolve desde o uso de plataformas e recursos digitais em sala de aula até questões como pensamento crítico, criatividade, relações humanas, inclusão e preparação para um mercado de trabalho em mudança.
Para especialistas que estarão na programação da Jornada Bett Nordeste 2026, que acontece nos dias 19 e 20 de agosto, no Recife Expo Center, em parceria com o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de Pernambuco (Sinepe-PE), o desafio não está em simplesmente incorporar novas tecnologias às escolas. A questão central é rever práticas de ensino e aprendizagem para que a inteligência artificial seja utilizada como recurso, sem ocupar o lugar da mediação humana e das competências que a educação precisa desenvolver.
Professor da Proz Educação e um dos participantes da Jornada, Luciano Meira afirma que o debate sobre inteligência artificial não pode ficar restrito às ferramentas disponíveis no mercado. Para ele, a tecnologia deve ser compreendida também como uma infraestrutura que passa a integrar diferentes dimensões da atividade humana. "Inteligência artificial é mais do que ferramentas de IA, é uma infraestrutura, é como energia elétrica", destaca o profissional.
Meira compara a presença da inteligência artificial a uma estrutura que atravessa diferentes ambientes e atividades. Na avaliação dele, a tecnologia também introduz uma dimensão cognitiva, já que os sistemas são capazes de realizar formas de raciocínio e produzir sínteses e interpretações a partir de grandes volumes de informação.
"Na conversação com a inteligência artificial, você está diante de uma forma de raciocínio, de uma existência cognitiva, que é capaz de síntese, de interpretação, de algumas características muito fundamentais de formas humanas de raciocínio. Portanto, isso muda tudo", avalia Meira.
Tecnologia não substitui mudança pedagógica
A incorporação da inteligência artificial, ainda na avaliação do especialista, coloca em discussão a própria forma como as escolas ensinam. Para Meira, adotar ferramentas sem rever as práticas pedagógicas pode apenas ampliar métodos que já apresentam limitações. "Se a gente pensar só do ponto de vista de ferramenta e não mudar nada das formas de ensinar e aprender, provavelmente vamos ter muitos problemas", disse.
O professor defende a criação de ambientes de aprendizagem que já sejam concebidos considerando a presença da inteligência artificial. Isso exigiria alterações nas práticas didáticas, nos currículos e na maneira de trabalhar competências relacionadas à construção de conhecimento e à produção de sentido.
Entre essas habilidades, cita a capacidade de argumentação e o pensamento crítico. A preocupação é evitar que tarefas que exigem interpretação, análise e construção de sentido sejam simplesmente transferidas para sistemas de inteligência artificial. "A gente vai ter que exercer de forma muito mais acentuada nossa capacidade crítica de argumentação", conta Meira.
A mesma preocupação aparece na avaliação de Adriana Martinelli, diretora de conteúdo da Bett Brasil. Para ela, a discussão sobre IA precisa começar pelo objetivo pedagógico, e não pela escolha de uma ferramenta. "Muitas escolas ainda perguntam 'qual ferramenta devemos usar?', quando a pergunta deveria ser: 'que tipo de aprendizagem queremos promover?'. A inteligência artificial só faz sentido quando está a serviço de um projeto pedagógico claro", afirma Adriana.
A diretora de conteúdo da Bett Brasil aponta a formação dos professores, a revisão das práticas pedagógicas e o fortalecimento da liderança escolar como partes desse processo. "Não basta disponibilizar plataformas. É preciso criar uma cultura em que professores se sintam seguros para experimentar, refletir sobre o uso da IA e compreender seus limites e possibilidades", avalia Adriana.
Pensamento crítico ganha espaço na formação
A presença de ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos e respostas em poucos segundos também altera a relação dos estudantes com a informação. Nesse ambiente, a capacidade de verificar conteúdos e avaliar fontes passa a ser parte da formação escolar.
Débora Garofalo, palestrante da Jornada e referência em políticas educacionais, afirma que a escola precisa preparar os estudantes para além da transmissão de conteúdos. A formação deve considerar competências que permaneçam relevantes mesmo diante da transformação de profissões e atividades profissionais.
"Precisamos desenvolver competências que permanecem essenciais independentemente das mudanças tecnológicas, como pensamento crítico, criatividade, colaboração, comunicação, ética, resolução de problemas complexos e capacidade de aprender continuamente", afirma Débora.
A especialista defende que os estudantes sejam estimulados a formular perguntas, analisar informações, tomar decisões fundamentadas, trabalhar coletivamente e utilizar recursos tecnológicos de maneira consciente. Para ela, a inteligência artificial pode executar determinadas tarefas, mas não elimina a necessidade de desenvolver atributos ligados à responsabilidade, à ética e à criatividade.
Débora também destaca que o combate à desinformação também passa a integrar esse processo. Em um ambiente no qual qualquer pessoa pode produzir e distribuir conteúdo e sistemas de IA conseguem gerar materiais com aparência de credibilidade. "Isso significa ensinar os alunos a identificar fontes confiáveis, compreender como funcionam os algoritmos das plataformas digitais, reconhecer vieses, diferenciar fatos de opiniões e verificar informações antes de compartilhá-las", explica.
A proposta, segundo ela, não é apenas ensinar os estudantes a operar ferramentas digitais, mas compreender os mecanismos e os impactos envolvidos em seu funcionamento. "Mais do que ensinar a usar ferramentas digitais, precisamos ensinar a pensar sobre elas", diz Débora.
Equidade é desafio para redes de ensino
A discussão sobre inteligência artificial também envolve as diferenças de infraestrutura e acesso entre escolas. A expansão de ferramentas digitais pode criar novas possibilidades de aprendizagem, mas também pode ampliar desigualdades se ocorrer sem investimentos em conectividade, equipamentos e formação profissional.
Débora Garofalo considera esse um dos principais desafios da educação brasileira. Para ela, a adoção da inteligência artificial precisa ser acompanhada por políticas públicas que considerem as diferentes condições das redes de ensino. "A inteligência artificial tem enorme potencial para personalizar aprendizagens, apoiar professores e ampliar oportunidades, mas, se sua implementação ocorrer sem políticas públicas estruturadas, poderá aprofundar desigualdades já existentes", declara.
A especialista defende investimentos simultâneos em infraestrutura, conectividade, dispositivos, formação continuada de professores e materiais pedagógicos. Ela também destaca que as soluções precisam levar em conta as diferentes realidades existentes no país. "A tecnologia deve reduzir distâncias, e não criar novas barreiras", avalia Débora.
A preocupação com as desigualdades se soma a outros temas que permanecem no centro da agenda educacional, mesmo com o avanço da inteligência artificial. Segundo Adriana Martinelli, a tecnologia não deve deslocar questões estruturais relacionadas à aprendizagem, ao currículo, à formação de professores, à gestão e ao ambiente escolar. "A inteligência artificial atravessa todos esses temas, mas não substitui nenhum deles", opina Adriana.
A diretora de conteúdo da Bett Brasil explica que essa perspectiva está relacionada à escolha do tema da edição deste ano da Jornada Bett Nordeste, "Inteligências em Ação: Experiências que Transformam a Educação". A proposta é colocar a inteligência artificial em diálogo com outras dimensões da formação. "São as pessoas que dão sentido às tecnologias, e não o contrário", conta Adriana.
Serviço
- Jornada Bett Nordeste 2026
- Data: 19 e 20 de agosto de 2026
- Local: Recife Expo Center
- Tema: "Inteligências em Ação: Experiências que Transformam a Educação"
- Visitação: gratuita, mediante inscrição prévia
- Inscrições: Clique aqui