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Fazer com Deus

Com Jesus, uma das maiores revoluções espirituais da humanidade se manifesta, eis porque é possível caminhar na vida sem cometer grandes violências

Por JC Publicado em 07/06/2026 às 0:00

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GUSTAVO MACHADO


Durante muito tempo, a humanidade precisou aprender a não destruir. E talvez ainda necessite.
Em um mundo ainda marcado pela força, pela vingança e pelo instinto, os mandamentos revelados a Moisés representaram um significativo avanço moral da civilização humana. “Não matarás.” “Não furtarás.” “Não levantarás falso testemunho.” “Não desejarás as coisas alheias.” “Não adulterarás.” A pedagogia espiritual daquele tempo se concentrava essencialmente na contenção do mal. Antes de ensinar o homem a amar, era necessário ensiná-lo a não ferir.


Isso demonstra algo sobre a própria evolução da consciência humana. Há espíritos que, em determinados estágios, ainda necessitam aprender os limites fundamentais da convivência, compreendendo que não lhes é permitido destruir, violentar, humilhar ou tomar para si aquilo que pertence ao outro. A Lei, naquele momento, surgia como freio necessário aos impulsos mais primitivos da alma.


Jesus, porém, desloca o eixo dessa experiência moral. O Cristo não revoga a Lei. Ele a transcende. Já não basta apenas não praticar o mal. Surge um ingrediente muito mais profundo: a convocação para o bem ativo. Não basta não odiar. É preciso amar. Não basta não perseguir. É necessário perdoar. Não basta não causar sofrimento. É preciso aliviar a dor que encontramos pelo caminho.


Com Jesus, uma das maiores revoluções espirituais da humanidade se manifesta. Eis porque é possível caminhar na vida sem cometer grandes violências e, ainda assim, permanecer indiferente às dores do mundo. É possível não ferir diretamente ninguém e, mesmo assim, jamais interromper o próprio caminho para cuidar de alguém caído à margem da estrada. Exatamente por isso, para nós, a parábola do Bom Samaritano permanece tão atual e profundamente reflexiva.


Quando Jesus é perguntado sobre quem seria o “próximo”, a expectativa talvez fosse uma resposta limitada aos vínculos afetivos, familiares ou religiosos. Imaginava-se, provavelmente, que o próximo fosse aquele que pertence ao nosso círculo de convivência, aos nossos afetos mais imediatos, às pessoas com quem espontaneamente nos identificamos. Mas Jesus vai além. Rompe essa lógica.
Na parábola, o homem ferido é ignorado justamente por aqueles que conheciam a Lei. Eles não o agridem. Não o ferem. Não lhe fazem diretamente o mal. Apenas passam adiante. Permanecem moralmente neutros diante da dor alheia.


O samaritano, ao contrário, interrompe a própria jornada. Aproxima-se. Toca as feridas. Oferece cuidado. Auxilia e atenua o peso do sofrimento de alguém que sequer conhecia.
E o detalhe nos ensina de forma bela: o próximo não é apenas aquele que amamos naturalmente. O próximo é aquele cuja dor decidimos não ignorar.


O samaritano torna-se próximo porque decide se aproximar. Há uma diferença, portanto, sutil, mas profunda, entre simplesmente não fazer o mal e escolher fazer o bem. Entre a neutralidade moral e a compaixão verdadeira. Entre caminhar no mundo sem destruir e caminhar deixando pequenos gestos de amparo pela trajetória.


Em determinado momento aprendemos a conter nossos impulsos destrutivos. Em outro, começamos lentamente a descobrir a fraternidade. A evolução do espírito não consiste apenas em deixar de ser nocivo. Consiste em tornar-se presença de cuidado no mundo.
A essência, para nós, do Evangelho não é apenas quantos males evitamos praticar ao longo da vida, mas quantas dores decidimos acolher.


Há espíritos que já aprenderam a não ferir. O Cristo, porém, nos convida a algo maior: aprender a cuidar, a amar agindo. Esse é o nosso chamado para hoje e agora.


Gustavo Machado – trabalhador da Fraternidade Espírita Franscisco Peixoto Lins (Peixotinho).

 

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