Festas e frustrações
A felicidade me parece ser um estado de espírito que não se abala pelas circunstâncias e até na tristeza somos felizes pois sabemos que vai passar
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REVERENDO MIGUEL COX
“Alegra-te, jovem, na tua juventude, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade; anda pelos caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam aos teus olhos; sabe, porém, que de todas estas coisas Deus te pedirá contas.” Eclesiastes 11:9
A busca pela felicidade é legítima. Como é bom fazer o que nos é agradável! Ter as condições físicas, emocionais e financeiras para realizar os nossos projetos de vida é algo que não tem preço. Afinal, a vida é curta, o tempo não espera e a saúde é uma caixinha de surpresas. A felicidade me parece ser um estado de espírito que não se abala pelas circunstâncias, por mais tenebrosas que sejam. Mesmo na tristeza continuamos felizes, pois sabemos que isso vai passar. Já a alegria tem os seus momentos, posto que se manifesta na euforia de situações passageiras. A expectativa de um acontecimento, como uma formatura ou matrimônio ou uma merecida homenagem, etc., antecipa esta alegria no nosso ser. Como é bom ser feliz e estar alegre!
Há, porém, uma falha quando precisamos da festa para nos trazer a felicidade. A festa deve ser o auge e não o motivo dela. Creio que o cantor Roberto Carlos foi muito preciso ao descrever essa situação na música Maria, Carnaval e Cinzas: “Nasceu Maria quando a folia perdia a noite, ganhava o dia, foi fantasia seu enxoval nasceu Maria no Carnaval.” Maria representa os foliões vestidos de fantasias imaginárias nas suas mentes que já curtem a festa antecipadamente. E durante os dias de festa buscam materializar esta alegria em meio a uma multidão de pessoas que parecem ter o mesmo propósito. Para estas “Marias” estes são momentos sonhados e aguardados com ansiedade. Ali vale tudo para se concretizar aqueles sonhos.
Contudo, esses momentos de glamour e glória são apenas momentos. A quarta-feira chega e “Maria” morre: “Morreu Maria quando a folia na quarta-feira também morria e foi de cinzas seu enxoval viveu apenas um Carnaval”. As “Marias” morreram com a morte da festa. Agora as cinzas e as frustrações voltaram e preencher os seus corações, na expectativa de que no próximo ano será diferente. Mas, a realidade é bem outra. Não foi culpa do Carnaval ou das festas. O erro não está aí. A questão é bem mais profunda e mais séria. Cada um de nós tem um vazio tão grande e assustador que não se preenche de fora para dentro. Mascaramos uma dor que continua a doer mesmo quando usamos todas as festas para ocultá-la. Como bem disse outro cantor, Moacyr Franco, na música Turbilhão: “A gente brinca escondendo a dor”.
Esta é a dor da distância, da separação de quem jamais deveríamos ter nos afastados. “Tu nos fizeste para Ti, e o nosso coração não descansa até que descanse em Ti”, escreveu Sto. Agostinho. A realidade é que fomos criados por Deus e para Deus. E isto é fantástico! Veja que planeta maravilhoso, lindo e repleto de riquezas que ele nos presenteou! Temos aqui todas as condições necessárias para viver em abundância e plenitude. Quem estragou isso, não foi ele, mas nós mesmos, posto que o que foi feito por ele está muito bem-feito e preservado. Deus nos presenteou com o melhor, inclusive nos fazendo à sua imagem e semelhança. É certo que nos perdemos. Mas ele veio nos resgatar e nos levar de volta ao seu aconchego, onde encontraremos o significado das nossas vidas na sua presença.
Não são somente as festas que funcionam como um placebo enganoso. Até encontrarmos o caminho de volta, estaremos tateando no escuro buscando acender uma luz que não existe mesmo em vários lugares. Jesus afirmou: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (João 8:12). Quem já achou a paz, a alegria e a felicidade, não mais precisa buscar em lugar nenhum. Jesus Cristo é a nossa certeza fundamental de que nele estamos ligados ao Pai. Nos alegramos e festejamos, sem frustrações, a verdadeira festa do reencontro e da vida plena na Casa do Pai.
Onde não existe maldade, não existe cobranças. Alegremo-nos verdadeiramente nas Festas de Deus, na presença dele, onde a satisfação é plena e a maldade não comparece. Quando o filho pródigo retornou, o Pai disse: “Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se”. (Lucas 15:23,24)
Rev. Miguel Cox é mestre em teologia e membro da Academia Evangélica de Letras (APEL)