Chanuká: Festa das Luzes
De forma alarmante, setores da política e da mídia que denunciam o racismo contra outras minorias, permanecem em silêncio diante do antissemitismo
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JADER TACHLITSKY
Chanuká é uma das festividades mais emblemáticas da tradição judaica. Celebra acontecimentos ocorridos há cerca de 2.200 anos, quando os judeus resistiram à imposição da cultura helenística na antiga Judeia, então sob domínio do Império Selêucida, herdeiro do Império Macedônico. A festa rememora não apenas uma vitória militar improvável, mas, sobretudo, a afirmação da identidade, da fé e da liberdade diante da opressão.
Após a vitória dos rebeldes judeus — liderados pelos cinco irmãos conhecidos como os Macabeus — sobre um exército muito mais poderoso, Jerusalém foi reconquistada e o Templo Sagrado, profanado por símbolos de deuses gregos, precisou ser purificado. Ao reacender a Menorá, o candelabro sagrado, encontrou-se apenas uma pequena porção de azeite consagrado, suficiente para manter a chama acesa por apenas um dia. A preparação de novo azeite levaria oito dias.
Segundo a tradição, aquele pouco azeite manteve a Menorá acesa durante todo esse período. O episódio ficou conhecido como o milagre de Chanuká e passou a simbolizar não apenas a intervenção divina, mas também a resistência de um povo que se recusou a desaparecer. Desde então, a festividade é marcada pelo acendimento da chanukiá, um candelabro especial no qual, durante oito noites, uma nova vela é acesa, evocando luz, esperança e renovação.
Foi justamente para celebrar Chanuká que, no último domingo, milhares de pessoas da comunidade judaica da Austrália se reuniram em uma praia, em um evento aberto e compartilhado com a população não judaica. O que deveria ser um momento de espiritualidade, convivência e celebração da vida transformou-se em tragédia.
Dois terroristas, pai e filho, abriram fogo contra os presentes, atingindo homens, mulheres, crianças e idosos — judeus e não judeus. O ataque remete, de forma inevitável, à carnificina promovida pelo Hamas durante um festival de música em Israel, no fatídico 7 de outubro, também ocorrido em um feriado sagrado. Mais uma vez, a violência escolheu como alvo pessoas desarmadas, reunidas para celebrar.
Nos últimos anos, o antissemitismo — um fenômeno que jamais deixou de existir — voltou a emergir com força em diversas partes do mundo. Críticas aceitáveis às ações do governo israelense foram extrapoladas e passaram a questionar o próprio direito à existência do Estado judeu. Esse deslocamento do debate político para o ódio identitário tem se traduzido em discursos incendiários, agressões físicas e ataques a comunidades judaicas.
De forma alarmante, setores da política, da academia e da mídia, frequentemente vigilantes na denúncia do racismo contra outras minorias, têm permanecido em silêncio diante do recrudescimento do antissemitismo — quando não atuam como seus amplificadores. Esse ambiente acaba por estimular grupos extremistas e anestesiar a opinião pública, reduzindo a capacidade de indignação diante de crimes que ferem valores civilizatórios fundamentais.
A história ensina que aquilo que começa contra os judeus nunca termina apenas contra os judeus. A maneira como uma sociedade trata suas minorias é um indicador claro de sua saúde moral e democrática. O ódio tolerado hoje, amanhã se volta contra todo o tecido social.
Em tempos de crescente polarização e intolerância, Chanuká reafirma uma mensagem que ultrapassa fronteiras religiosas: a luz, mesmo pequena, é capaz de resistir à escuridão. Cabe às lideranças políticas, intelectuais e sociais assumir o compromisso com a dignidade humana, o respeito às diferenças e a defesa incondicional da vida, independentemente de crença, origem étnica ou convicção.
Que as luzes de Chanuká possam, mais uma vez, iluminar caminhos de consciência, justiça e humanidade.
JADER TACHLITSKY é economista , professor de Cultura Judaica e História Judaica e coordenador de comunicação da Federação Israelita de Pernambuco