Move Brasil: No País que mata 15 mil ocupantes de motocicletas por ano, governo libera regras para transporte por moto. Onde vamos parar?
Ao flexibilizar exigências para transporte por motos, governo Lula coloca em risco a segurança viária e estimula o transporte individual mais uma vez
Clique aqui e escute a matéria
Desesperança. Esse é o sentimento que muitos gestores públicos, operadores, especialistas e estudiosos da segurança viária e do transporte urbano sustentável devem estar sentindo diante de mais um ‘pacote de bondades’ para o transporte individual que o governo do presidente Lula lançou nesta terça-feira (19/5), de olho no quarto mandato à frente da Presidência da República.
O pacote não só estimula o transporte individual - com linha de financiamento de até R$ 30 bilhões para compra de carros pelos motoristas de aplicativo, sem nenhum ônus para as gigantes da m9bilidade Uber e 99 -, mas, o que é pior: coloca no lixo as pouquíssimas regras que ainda existem no País para o transporte remunerado de passageiros com motocicletas - que são a nova praga da saúde pública brasileira.
Lula e sua equipe, mais uma vez - como tem sido comum nessa terceira gestão do petista, infelizmente - ignoram a carnificina que está acontecendo nas ruas, avenidas e estradas do País com os sinistros de trânsito (não é mais acidente de trânsito que se define, segundo o CTB e a ABNT) envolvendo ocupantes de motocicletas e que está sendo puxada pelo transporte com motos, pontualmente o Uber e 99 Moto. Inclusive com impactos bilionários no SUS.
Dizemos ocupantes de motocicletas porque, desde 2022, quando o mototáxi digital ganhou força no País com os aplicativos, o problema duplicou com a entrada dos passageiros (garupas) nos serviços de moto.
São quase 40 mil mortos por ano no trânsito brasileiro e entre 60% e 70% estavam em motos. Sem falar dos 500 mil mutilados, num País que acabou com o DPVAT, o seguro que ainda ajudava de certa forma as vítimas pobres do trânsito. O governo Lula, inclusive, ajudou a eliminar o seguro, processo iniciado na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Veja os pontos mais graves da flexibilização:
Fim da idade mínima: A exigência de 21 anos para o exercício da profissão foi revogada.
Ausência de experiência: Não é mais necessário possuir no mínimo dois anos de habilitação na categoria A para atuar na área.
Isenção de capacitação: A obrigatoriedade de aprovação em curso especializado para condutores foi extinta.
Uso de ciclomotores: Agora, veículos de até 50 cc (as chamadas "cinquentinhas") podem ser usados para o transporte de cargas e passageiros.
Além do risco para a segurança viária, a demagogia eleitoreira do governo Lula provoca outros danos diretamente no transporte público coletivo do Brasil. Ao estimular o transporte individual - sim, os carros de aplicativo seguem sendo transporte individual -, mais uma vez o governo brasileira manda o recado de que o transporte público coletivo segue não sendo prioridade do País.
Esse pacote de R$ 30 bilhões deveria estar sendo destinado para implantação e expansão de redes de metrô e VLTs nas capitais e grandes cidades brasileiras, ao lado de corredores exclusivos para ônibus. Mas não. Mais uma vez o transporte público coletivo é deixado de lado. O setor ganhou um marco, é fato - O Marco Legal do Transporte Público Coletivo foi aprovado recentemente pelo Congresso após seis anos de discussão -, mas é ‘apenas’ uma legislação. Importante, sem dúvida, mas ainda assim uma legislação - ou seja, sob risco de ficar apenas no papel.
Lamentável e desestimulante ver um governo federal flexibilizar a idade de 21 anos como idade mínima para condução de motocicletas, ainda mais com a possibilidade de um passageiro na garupa, em motos que sequer foram projetadas para suportar o peso de dois adultos - sob o argumento de que está desburocratizando o processo. Ou abrindo mão da qualificação e experiência mínima do condutor de motocicletas ao desobrigar o uso de placas vermelhas.
Não à toa, entidades do setor de transporte público e de segurança viária já se posicionaram em alerta contra as flexibilizações para o uso das motocicletas como transporte. Confira. A Medida Provisória nº 1.360 foi lançada nesta terça-feira (19/5).
ANTP ALERTA QUE MUDANÇAS COLOCAM SEGURANÇA VIÁRIA EM RISCO
Para a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), as novas regras que flexibilizam as exigências para os serviços de motofrete e mototáxi - o Uber e 99 Moto atual - representam um retrocesso sobre duas rodas, caminhando no sentido oposto ao que se espera de uma mobilidade urbana segura e sustentável.
O fim do rigor técnico e profissional é a principal crítica. Na visão da ANTP, a MP altera profundamente o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e a Lei nº 12.009/2009, removendo pilares fundamentais da segurança do transporte por motocicletas. “É o caso do fim da idade mínima de 21 anos para o exercício da profissão; a ausência de experiência, já que não será mais necessário possuir no mínimo dois anos de habilitação na Categoria A para atuar na área; o fim da obrigatoriedade de aprovação em curso especializado para condutores; e a permissão para que veículos de até 50 cc (as chamadas "cinquentinhas") possam ser usados para o transporte de cargas e passageiros”, alerta Luiz Carlos Néspoli (Branco), superintendente da ANTP.
Na visão de Branco, essas medidas permitem que jovens de 18 anos, recém-habilitados e sem maturidade no trânsito, transportem passageiros imediatamente, utilizando veículos de baixa potência que não oferecem a segurança necessária para a atividade.
IMPACTOS NA SAÚDE PÚBLICA E NA MOBILIDADE
A desregulamentação ocorre em um cenário de alta nas mortes em sinistros envolvendo motocicletas. A ANTP alerta que a facilitação do serviço sob regras "frouxas" deve gerar uma pressão ainda maior sobre os prontos-socorros, sobrecarregando o sistema público de saúde e os cofres do País.
Além disso, a entidade vê na MP uma ameaça ao transporte coletivo. Enquanto o Congresso Nacional avançou recentemente com o PL nº 3.278 para fortalecer o transporte público como direito social, a nova MP incentiva o uso do mototáxi de forma desordenada, criando o que a ANTP classifica como concorrência desleal com o sistema de transporte coletivo.
FISCALIZAÇÃO FRAGILIZADA
A ANTP ainda alerta que a segurança operacional também foi atingida pela medida, que dispensou o registro obrigatório das motocicletas na categoria de aluguel (placa comercial) e revogou a inspeção semestral de segurança e dos equipamentos obrigatórios.
Diante deste cenário, a ANTP defende que cabe agora ao Congresso Nacional intervir para barrar a Medida Provisória e garantir que a segurança viária não seja sacrificada em prol da facilitação dos serviços de aplicativos.