Surf nos ônibus: Quase mil coletivos vandalizados no Grande Recife em 2025
Pernambuco registrou 853 casos de vandalismo até agosto e Concessionária Conorte faz alerta contra a normalização dos casos pela sociedade
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Não é só São Paulo que tem sofrido com os ataques a ônibus em operação. Pernambuco e diversas regiões do Brasil também têm enfrentado um cenário preocupante, com centenas de casos de vandalismo, furtos, roubos e agressões registrados nos transportes coletivos. Entre janeiro e agosto deste ano, Pernambuco já contabilizou 853 ocorrências de vandalismo em ônibus, em sua grande maioria na Região Metropolitana do Recife.
Nacionalmente, o Brasil também registrou um número expressivo de ataques a ônibus até agosto deste ano, com destaque para a capital paulista. Na Região Metropolitana de São Paulo, dados da SPTrans indicam 506 veículos depredados até meados de julho. Já um levantamento do Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo aponta 855 depredações na capital paulista até o início do mesmo mês.
SOCIEDADE NÃO PODE NORMALIZAR VANDALISMO
Em meio a essa realidade tensa, o Consórcio Conorte, responsável por 20% das linhas do sistema de transporte público do Grande Recife, fez uma alerta para que a sociedade não normalize o problema e cobre reação do poder público. "A depredação de ônibus não é apenas um transtorno, mas um crime que paralisa o transporte público e prejudica os usuários de forma geral. O ônibus tem que ficar parado no dia seguinte para ser consertado e nunca sai à rua da mesma forma de antes", afirma Diego Benevides, diretor de operações do Conorte.
E, embora o Recife não venha registrando ataques sequenciais e que parecem ter conexão, como os de São Paulo, o número de ocorrências é visto como muito elevado. "Isso é uma coisa que acontece de forma descoordenada por várias pessoas em pontos distintos, mas isso é uma cultura que não pode ser normalizada", alerta Benevides.
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A visão dos operadores é que a situação do vandalismo em Pernambuco pode ser ainda mais complexa do que em outras localidades, como São Paulo, por ser algo mais cultural. "É mais difícil de lidar do que em São Paulo, por exemplo, porque não há sequer uma linha de investigação policial para isso. Precisamos que as autoridades policiais e públicas nos ajudem com campanhas para reduzir a frequência de registros", apelou.
ALÉM DO ‘SURF’ E DO ‘MORCEGAMENTO’, TRANSPORTE SOFRE COM INVASÕES QUE DESMORALIZAM SISTEMA
Além dos casos de ‘surf’ e ‘morcegamento’ nos ônibus, o transporte público da Região Metropolitana do Recife sofre com a evasão de receita provocada pelas invasões do sistema. Virou um problema moral. Chegou a um nível de descontrole tão alto, que o impacto no setor está indo muito além da perda financeira. Virou desmoralização.
É um dos graves desafios do sistema de ônibus, sendo flagrante nos coletivos e nas estações dos dois únicos corredores pernambucanos do sistema BRT: o Leste-Oeste, que conecta o Centro do Recife com a Zona Oeste da RMR, e o Norte-Sul, que faz a conexão com a Zona Norte do Grande Recife.
Atualmente, paga passagem nos ônibus da RMR quem quer ou não tem coragem de pular os bloqueios dos ônibus, entrar pela porta traseira ou invadir as estações de BRT, eternamente abertas porque estão há mais de cinco anos sem refrigeração e o sistema de bloqueio vive quebrado. Ou seja, a ausência de segurança policial, patrimonial e de fiscalização tem deixado o sistema de transporte público exposto.
CATRACAS ELEVADAS E BLOQUEIOS NA PORTA TRASEIRA
Na tentativa de moralizar o sistema e inibir as invasões, o sistema de ônibus começou a testar catracas elevadas com a validação do Grande Recife Consórcio de Transporte Metropolitano (CTM) e do Ministério Público de Pernambuco (MPPE). Mas, depois de um curto período de teste, uma passageira ficou com a cabeça presa no equipamento e os testes foram suspensos.
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A determinação foi para que as catracas elevadas fossem adequadas às regras de segurança e conforto determinadas pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), mas não se falou mais no assunto.
NO RIO DE JANEIRO, INVASÕES GERAM MULTA E ATÉ PRISÃO
Combater as invasões do sistema é possível e o Rio de Janeiro tem mostrado isso faz alguns anos. É claro que ainda há flagrantes de ‘calotes’, mas a criação de uma legislação própria e o investimento na fiscalização dessas leis têm surtido efeito.
No Rio, a multa para quem não pagar a tarifa do VLT Carioca, que corta parte do Centro e faz conexões com o Aeroporto Santos Dumont e a rodoviária, é de R$ 170, subindo para R$ 255 em caso de reincidência.
A fiscalização é feita pela operadora do sistema, que determina a sanção, aplicada pelo poder público. No VLT Carioca, o pagamento da tarifa é espontâneo e não existem catracas ou cobradores. Durante as viagens, os fiscais, com apoio da Guarda Municipal, entram nas composições e abordam os passageiros.
PROGRAMA BRT SEGURO
Além da legislação que multa quem não paga a tarifa do VLT Carioca, o Rio também criou outra forma de punir quem invade e depreda o transporte público.
Depois de ressuscitar o sistema BRT, que chegou ao fundo do poço com o completo sucateamento da frota e das estações e até sofrer uma intervenção pública, a Prefeitura do Rio de Janeiro criou o Programa BRT Seguro, que fiscaliza e pune os atos de vandalismo no sistema.
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Segundo dados da Prefeitura do Rio, o programa tem números que mostram estar dando certo. Em junho de 2024, após três anos de atuação, o programa tinha realizado 3.400 prisões por crimes como roubo, furto, vandalismo e importunação sexual nas estações do BRT da cidade.
REDUÇÃO DE 90% NOS REPAROS E MULTAS POR CALOTE
O BRT Seguro também realiza patrulhamento contra assaltos, vandalismo e calotes no sistema de BRT, tendo conseguido, segundo a prefeitura, reduzir em 90% os gastos com reparos de equipamentos — estações e articulados — nesse período.
Para isso, tem um diferencial contra a impunidade: legislação municipal que dá base às multas aplicadas a passageiros por calotes - algo que muitas cidades não têm, como a Região Metropolitana do Recife, por exemplo.
Os números mostraram que os agentes aplicaram 17.800 multas em passageiros que tentavam dar o calote para não pagar a passagem no Sistema BRT. No total, 140 estações e os 12 terminais do sistema BRT são monitorados 24 horas por 2.100 câmeras da Mobi-Rio e a qualquer indício de atividade suspeita ou fora do padrão, os agentes do BRT Seguro são acionados para verificar a ocorrência.