Vale do Catimbau: a riqueza arqueológica e humana no coração de Pernambuco
Sítios milenares, arte popular e a memória do Quilombo Mundo Novo mostram a força do sertão pernambucano frente aos riscos do turismo de massa
Entre paredões de pedra, cânions e trilhas que atravessam a Mata Atlântica, a Caatinga e o Cerrado, o Parque Nacional do Catimbau guarda marcas de quem passou por ali há milhares de anos e histórias de quem continua vivendo no território.
A paisagem que atrai visitantes de diferentes lugares também é cenário de trabalho, memória e resistência: é onde artesãos transformam madeira em renda, comunidades tradicionais preservam sua história e moradores acompanham de perto a chegada de um turismo que pode abrir novas oportunidades, mas que exige cuidado para não transformar o que faz do Catimbau um lugar único.
O Vale do Catimbau, entre o Agreste e Sertão pernambucano, reúne um dos mais importantes conjuntos de formações rochosas e sítios arqueológicos do Estado, além de comunidades que construíram sua relação com o território ao longo de gerações.
Caminhos para descobrir o Catimbau
Para conhecer as diferentes paisagens que o Parque Nacional do Catimbau proporciona, é preciso percorrer trilhas e atravessar impressionantes formações rochosas.
Trilha da caverna
A Trilha da Caverna, de dificuldade fácil, é um trajeto de cerca de 1,5 km por entre uma vegetação que mistura espécies da Mata Atlântica e da Caatinga, com uma escadaria de cerca de 80 degraus que leva à única caverna aberta à visitação no Parque.
Ao todo, são 280 cavernas no Catimbau, das quais, duas são consideradas bat caves, ecossistemas subterrâneos especializados que abrigam colônias densas de morcegos, caracterizados por escuridão total e alta umidade.
É necessário um guia turístico para percorrer o trajeto.
Mirante do Brejo
Para acessar o Mirante do Brejo, também é necessário guia turístico e tem fácil acesso por carro. O local é excelente para observar o nascer ou pôr do sol, com uma vista panorâmica da região do Brejo São José e da Fazenda Brejo. É um passeio tranquilo e contemplativo, com pouco esforço físico.
Trilha do Santuário
Com variada vegetação de Caatinga, a Trilha do Santuário possui cerca de sete quilômetros de extensão, considerando o caminho de ida e volta, com nível moderado, entretanto, para pessoas com dificuldades de locomoção e idosos, é possível percorrer o trajeto de carro. É necessário um guia turístico para acessar a trilha.
O Santuário, ou Vale da Lua, é um anfiteatro natural com paredões de rochas esculpidos pela erosão. O local, cenário de antigos rituais espirituais indígenas, oferece uma vista panorâmica do Parque.
Sítio Arqueológico Alcobaça
A Trilha do Alcobaça tem nível moderado e leva até um paredão de 50 a 70 metros de extensão onde estão pinturas e gravuras rupestres, além de vestígios da presença de grupos humanos que passaram pelo local há milhares de anos. É necessário acompanhamento de guia turístico para percorrer o trajeto.
O sítio arqueológico reúne diferentes evidências da ocupação humana, como ferramentas de pedra, restos de fogueiras e ossadas humanas.
Durante as escavações, foram encontrados restos de pelo menos 25 indivíduos humanos, alguns em sepultamentos primários e outros em sepultamentos secundários.
Além dos restos humanos, o local revelou instrumentos utilizados no cotidiano, como pontas de flecha, machadinhas, lâminas e raspadores. Também foram encontrados vestígios de fogueiras com datações próximas a 5 mil anos, enquanto os esqueletos identificados no sítio têm entre 800 e 2 mil anos antes do presente.
A madeira revive na arte
A tradição do entalhe em madeira no Parque Nacional do Catimbau teve início com uma experiência de transformação pessoal. O precursor da arte local é Zé Bezerra, ex-caçador que mudou radicalmente sua relação com a fauna e a flora do território após um sonho no qual ouviu da natureza “a maior parte dos animais que você matou vão envivecer na madeira”.
A partir dessa vivência, Zé Bezerra passou a percorrer a Caatinga em busca de troncos e galhos mortos, esculpindo-os com intervenções mínimas para preservar as formas originais desenhadas pela própria natureza. Essa abordagem rústica fundou a estética que hoje define a identidade artística da região.
Inspirado por esse método, Fábio Ramos dedica-se exclusivamente à arte popular há cerca de 20 anos. Seu contato com o entalhe começou em 2007, quando visitou o ateliê de Zé Bezerra e aceitou o desafio de criar sua primeira peça na madeira.
Para encontrar a matéria-prima ideal, o artesão costuma se isolar na vegetação nativa em jornadas de busca rigorosas.
"Eu passo de uma semana a uma semana e meia acampando para coletar material na Caatinga. Nessa coleta, a gente vê os troncos que se parecem com um bicho ou com uma forma e traz para o ateliê. Uma característica do meu trabalho é que eu sempre deixo uma parte intocada, deixo a madeira como ela se apresenta na natureza", explica o artesão.
Com obras comercializadas em mais de 34 países e em todos os estados brasileiros, Fábio enxerga no trabalho com a madeira um processo de revelação do que já está embutido na matéria bruta.
"É um estilo de vida, uma paixão. Você vê a madeira bruta ir ganhando aquela forma e, de repente, a peça se apresenta, porque a peça em si sempre esteve ali, você só aparou as arestas. Quando pego um tronco na natureza, já sei o que vou fazer ali antes do primeiro corte", relata.
Com 26 anos de atuação na escultura em madeira, o artesão nativo Luiz Benício é outro pioneiro na consolidação do Catimbau como polo artesanal. O conhecimento técnico de Benício não veio de escolas formais, mas da infância marcada pela escassez e pelo trabalho no campo, onde a criação manual era a única alternativa para obter ferramentas e brinquedos.
"Como a gente vem de uma família pobre, quando criança eu confeccionava todos os meus brinquedos. Todo agricultor já é, em si, um artesão, porque cresce encabando enxada, foice ou machado. Dentro das famílias pobres existe um grande poder de criação, porque a necessidade vai ensinando os meios de sobrevivência"Luiz Benício
A consolidação de seu ateliê representou uma virada socioeconômica e pessoal para Benício, permitindo a superação de problemas de saúde e a geração de renda sustentável na comunidade.
"Não só vivo da arte, como sou um homem transformado por ela. Antes de conhecer o mundo da arte, eu era um alcoólatra. Hoje tenho 15 anos longe da bebida. Eu, que venho de uma família simples, a qual a gente vivia abaixo da linha da pobreza, hoje vivo com dignidade e dou dignidade para a minha família e para os vizinhos", afirma o artesão.
Nesse cenário historicamente dominado por homens, Simone Souza tornou-se, há 22 anos, a primeira mulher a assinar suas próprias esculturas no Vale do Catimbau. A ocupação desse espaço exigiu perseverança para romper barreiras culturais na região, processo que abriu caminho para que outras nove mulheres passassem a assinar e comercializar suas produções.
"A gente ainda tem um mundo muito masculinizado, então tem essa resistência, mas tudo é uma questão de gosto, de força de vontade, de você ir lá e fazer a diferença. Sou a primeira mulher a assinar uma peça dentro do Vale do Catimbau e hoje já somos nove", destaca a escultora.
O trabalho de Simone reflete memórias da infância no sertão — como a figura da mulher carregando pote de água na cabeça para sustentar os irmãos —, além de esculturas sacras, como Padre Cícero e São José, padroeiro local, retratos de famílias e figuras femininas do cotidiano.
Assim como os demais artesãos, a escolha da matéria-prima segue o compromisso ambiental com o entorno do Parque Nacional.
"A gente só trabalha com madeira morta, com tipos específicos como a umburana e a jaqueira, que a natureza já descartou. Fica mais fácil para a gente porque temos um trabalho cru dentro do Vale do Catimbau e, como estamos vizinhos ao Parque Nacional, precisamos preservar", pontua.
Uma comunidade quilombola no coração do Vale
Localizada na zona rural do município de Buíque, no Agreste de Pernambuco, a comunidade quilombola Mundo Novo guarda uma história de resistência e organização social. A fundação do território tem origem no século XIX, com a trajetória de Antônio Martiniano Bezerra, que conseguiu escapar do sistema escravocrata na região de Palmares.
Em busca de um abrigo seguro e distante do alcance dos capitães do mato, Antônio percorreu o interior pernambucano até se estabelecer na Serra da Torrada, a quase 20 quilômetros do atual centro urbano de Buíque.
Para despistar perseguidores, adotou o nome "Mundo Novo" para a localidade. Ao seu lado estava a filha, Antônia Cândida Bezerra, que se tornou a matriarca da comunidade, deixando 11 filhos sobreviventes e 78 netos, cujas descendências hoje alcançam bisnetos e tataranetos residentes no local.
Por décadas, a manutenção do grupo exigiu isolamento rigoroso e estratégias de autoproteção. A agricultura de grande porte era evitada para não atrair atenção externa, as crianças não frequentavam escolas formais e os cuidados de saúde dependiam de plantas medicinais, xaropes caseiros conhecidos como lambedores e do trabalho de parteiras locais.
Josefa, moradora e neta de Antônio Martiniano, ressalta como o segredo era uma norma de sobrevivência.
"Ele não queria que a gente aparecesse nem conversasse com estranhos, nem fosse pra escola. Não era para colocar roça grande porque, se desmatasse, iam dar fé da gente", relembra.
"Se a gente não falar para as pessoas quem nós éramos e somos ainda, ninguém vai conhecer que nós existimos. Graças a Deus, por esse conhecimento, nós estamos sendo cidadãos agora", celebra.
Após gerações de preservação da memória e do território, a comunidade obteve o reconhecimento jurídico oficial em 17 de agosto de 2018, quando foi certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares (Portaria nº 203/2018), sob a denominação oficial de Quilombos Sítio Mundo Novo e Façola.
A tradição do quilombo se manifesta também na culinária ancestral, produzida com insumos agrícolas locais como o xerém de milho, a galinha de capoeira e o feijão.
Como forma de promover a sustentabilidade econômica e divulgar sua trajetória histórica, a comunidade organiza roteiros de visitação controlada. É possível realizar a visita guiada ao quilombo, que inclui a apresentação cultural do grupo de samba de coco local, Resgate da Alegria, pelo valor de R$ 70, ou optar pela vivência completa por R$ 100, com almoço com a gastronomia tradicional.
Oportunidades e desafios do turismo
O avanço da visitação ao Parque Nacional do Catimbau abriu novas frentes de renda para os moradores locais, impactando diretamente serviços de hospedagem, gastronomia, condução de visitantes e a comercialização do artesanato em madeira. Contudo, a expansão da atividade exige organização da cadeia produtiva para evitar que a comunidade seja marginalizada pelo processo econômico ou que o território sofra degradação.
O Sebrae tem desenvolvido ações de capacitação e estruturação de negócios no Vale do Catimbau de forma contínua desde 2019, mas já atuou por um longo período no local desde o início da década de 2000. O foco do trabalho centra-se em organizar a oferta e formalizar empreendimentos comunitários.
- Profissionalização do guiamento: capacitação de condutores locais integrados à Associação dos Condutores de Turismo do Vale do Catimbau (Aconturc), com inclusão de guias no cadastro oficial do governo federal e cursos de oratória, idiomas e marketing digital.
- Articulação de rotas comunitárias: criação de roteiros integrados, como a Rota da Ancestralidade, que articula a visitação ao Quilombo Mundo Novo, aldeias indígenas do povo Kapinawá e cooperativas locais para fortalecer o turismo de vivências.
- Suporte a pequenos negócios: apoio técnico a meios de hospedagem, restaurantes e ateliês de artesanato, estimulando a transição da informalidade para cadastros formais de Microempreendedor Individual (MEI) e Microempresa (ME).
"A partir do momento que você qualifica um território, profissionaliza aqueles que estão ali e melhora a prestação de serviço, seja de condução, de hospedagem ou de alimentação, você atrai um público maior e gera mais renda naquele território", avalia Gerlane Melo, gestora de turismo e economia criativa do Sebrae no Agreste Meridional.
Apesar das oportunidades econômicas, a gestão do fluxo turístico no parque impõe um alerta contra o crescimento desordenado. A combinação de patrimônio arqueológico, formações rochosas e territórios tradicionais exige um modelo de visitação de baixo impacto socioambiental.
"O Vale não pode ser massificado. Ele é para um público muito específico, que curte turismo de aventura, natureza, saiba preservar e saiba respeitar e valorizar os povos originários que ali fazem as vivências. É um destino que tem um valor agregado gigante e a gente precisa saber qual é o tipo de cliente que a gente quer levar, para que não venha a ter um turismo massificado e acabar perdendo o valor do Vale do Catimbau", completa.
*A repórter viajou a convite do Sebrae-PE
"Como a gente vem de uma família pobre, quando criança eu confeccionava todos os meus brinquedos. Todo agricultor já é, em si, um artesão, porque cresce encabando enxada, foice ou machado. Dentro das famílias
Luiz Benício