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O tiro, o boi e o fuxico: a luta dos personagens que mantêm o verdadeiro São João vivo

Brincadeiras e tradições da cultura popular revelam que a arte carrega também memória e costumes seculares que ultrapassam o ciclo junino

Por Laís Nascimento, Eduardo Scofi Publicado em 24/06/2026 às 0:00 | Atualizado em 26/06/2026 às 9:29

No São João, brincantes e brincadeiras se misturam à celebração religiosa, à colheita do milho para criar uma das tradições mais características do Nordeste brasileiro.

Na série “Brincantes e Tradições Juninas”, do Jornal do Commercio, três personagens da cultura popular do São João carregam memórias e costumes seculares: os bacamarteiros, o boi e as fuxiqueiras. Muitas vezes sem financiamento público ou valorização, eles mantêm vivas as raízes culturais com a força comunitária e a vontade de preservar a identidade regional.

Do Cabo de Santo Agostinho, com a Sociedade dos Bacamarteiros do Cabo (SOBAC), passando pelo Recife, com o Boi Faceiro, no bairro dos Coelhos, à Ilha de Itamaracá, com os fuxicos de Edna Dantas e Maria Gabrielly Dantas, a tradição e os saberes são não apenas resguardados, como transmitidos enquanto estilos de vida.

Bacamartes e o tiro que deixou a guerra para anunciar a festa

Divulgação/Prefeitura do Cabo
Ivan Marinho participa de cortejo com a SOBAC - Divulgação/Prefeitura do Cabo

Quando o primeiro bacamarte foi erguido para o alto em celebração ao fim de uma guerra, talvez ninguém imaginasse que aquele disparo atravessaria mais de um século de história. Hoje, a tradição segue viva nas festas juninas e na vida do Mestre da Sociedade dos Bacamarteiros do Cabo (SOBAC), Ivan Marinho, que encontrou na cultura popular o mesmo rumo apontado pela arma que acompanha sua história.

Eu não sei como sobreviver no mundo social se eu não estiver imerso na cultura popular. É ela que aponta a direção da minha vida. É o que eu sou
Ivan Marinho, bacamarteiro

O bacamarte como forma de vida

A admiração por armamentos e a alegria dos encontros fizeram de Ivan Marinho um bacamarteiro. Alagoano, teve contato com a Sociedade dos Bacamarteiros do Cabo ao se mudar para a cidade e fez do encontro com a manifestação uma forma de vida.

Ao negociar seu primeiro bacamarte, chamado Burro Preto, o mestre teve a oportunidade de dar o primeiro tiro na tradicional Festa da Lavadeira, que é realizada anualmente no município no dia 1º de maio.

Com o Burro Preto, Marinho comprou Encantado, seu bacamarte desde 2007 e com quem divide apresentações e uma paixão desde então. Pelo Nordeste e acompanhado de Encantado, Ivan faz festa e cultura, preserva tradição e constrói novas histórias com a juventude.

Do fim da guerra ao ciclo junino

Segundo a tradição mais aceita pelos pesquisadores, a origem do grupo se deu no momento em que os combatentes retornaram da Guerra do Paraguai (1864 - 1870). Naquele período, o bacamarte, arma de fogo de cano curto e largo, já havia perdido espaço nos campos de batalha para armamentos mais modernos, mas continuava presente nas mãos dos homens que voltavam para casa.

De acordo com Ivan Marinho, os sobreviventes celebravam o regresso da guerra disparando os bacamartes para o alto. Com o passar do tempo, o gesto deixou de marcar o retorno da guerra e passou a integrar as festas populares do Nordeste. "Dizem que chegou a época de junina e eles passaram a utilizar como uma forma de brincar e de festejar", afirma.

Os bacamarteiros e o São João

Foi nesse contexto que surgiram histórias que permanecem vivas na memória dos brincantes, como a chamada "tomada das fogueiras". Em noites de São João, vizinhos disputavam quem conseguiria derrubar primeiro a fogueira do outro com os disparos.

Em meados do século XX, a prática do bacamarte passou a enfrentar questionamentos das autoridades e o risco de restrições cada vez maiores. Foi da articulação para legitimar essa tradição que nasceu, em 1966, a SOBAC, primeira entidade do gênero em Pernambuco e referência para os grupos que surgiram posteriormente.

Entre santos, sanfonas e cangaceiros

A identidade simbólica dos bacamarteiros é marcada por referências que atravessam a religiosidade popular, a música nordestina e o imaginário do cangaço. Entre os brincantes, essa herança costuma ser representada por uma tríade formada por Padre Cícero, Luiz Gonzaga e Lampião.

Foi nesse processo que os antigos batalhões incorporaram elementos do cangaço, como os chapéus de couro e as fitas coloridas, e passaram a construir uma apresentação mais próxima das festas populares do Nordeste. Mais do que preservar uma tradição, os bacamarteiros a transformaram ao longo do tempo, absorvendo referências da religiosidade popular, do cangaço e das festas juninas até construir uma identidade própria.

Eduardo Scofi/JC Imagem
Símbolo da Sociedade dos Bacamarteiros do Cabo, a bandeira representa uma tradição preservada há gerações - Eduardo Scofi/JC Imagem
Eduardo Scofi/JC Imagem
A sede da SOBAC reúne memórias, símbolos e registros da tradição dos bacamarteiros - Eduardo Scofi/JC Imagem

A influência permanece visível nas vestimentas e nos adereços usados pelos grupos, onde convivem marcas da herança militar e símbolos que hoje ajudam a definir a cultura popular nordestina.

O custo da tradição

Apesar de ser declarada Patrimônio Vivo de Pernambuco em 2017, em reconhecimento à sua resistência e importância cultural, a Sociedade dos Bacamarteiros do Cabo enfrenta desafios para o financiamento das atividades.

A manutenção do grupo, explica Ivan, não é barata. “Os bacamartes mais baratos que a gente encontra são R$ 3 mil. Para manter isso, para comprar pólvora, que também é cara, foi uma luta muito grande”, destaca.

A pólvora e os editais

Dos adereços, como botões, chapéus e vestimentas ao transporte dos equipamentos, os altos custos exigem financiamento e políticas públicas de fomento.

“Tudo é muito caro e a gente tem uma dificuldade muito grande para administrar. Quando você está dando tiro, está queimando R$ 5, quando sai, tem que sair com transporte, porque os bacamartes são pesados…”, exemplifica Ivan.

De acordo com ele, a brincadeira é mantida através de editais federais e estaduais. “Tudo foi feito através de muita luta”. Mas, para Ivan Marinho, o cuidado com a cultura popular através do grupo vale a pena. “O grande distintivo da brincadeira do bacamarte é a alegria do encontro”, celebra.

O que diz a Prefeitura do Cabo

Em nota, a Secretaria de Cultura do Cabo de Santo Agostinho informou que o atual Plano Municipal de Cultura passará por um processo de reestruturação, com o objetivo de fortalecer às políticas públicas e viabilizar novos mecanismos de financiamento das atividades culturais.

"A iniciativa visa garantir maior transparência na aplicação dos recursos públicos destinados ao setor, além de assegurar que os investimentos atendam de forma mais ampla e democrática os diversos segmentos artísticos e culturais do município", pontuou o texto.

A gestão municipal destacou, ainda, que reafirma seu compromisso com a cultura cabense e com a preservação das manifestações que constituem a identidade cultural do município, a exemplo dos grupos de bacamarte, do coco de roda e de outras expressões tradicionais.

Brincantes e Tradições Juninas #1: Da Guerra para o São João, a história dos bacamarteiros

Brincantes e Tradições Juninas #1: Bacamartes e o tiro que deixou a guerra para anunciar a festa
No primeiro episódio da série Brincantes e Tradições Juninas, o mestre bacamarteiro Ivan Marinho apresenta uma tradição que há séculos ecoa nas festas de São João em Pernambuco. Hoje associado à celebração, o bacamarte já esteve ligado aos confrontos armados e às estratégias de defesa. Com o passar do tempo, o estampido da pólvora ganhou outro significado e passou a anunciar a chegada da festa, tornando-se uma das marcas mais reconhecidas do ciclo junino no Nordeste. Ao longo do episódio, o mestre relembra a trajetória dos bacamartes e explica como a tradição segue mobilizando grupos, preservando memórias e reunindo gerações em torno da cultura popular. 00:00 Brincantes e Tradições Juninas #1: Bacamartes e o tiro que deixou a guerra para anunciar a festa 📲 Compartilhe esse vídeo: https://youtu.be/0GAnfNdfKes 📷 Imagens: /JC Imagem 🎥 Edição de Vídeo: Adson Souza #sãojoão #bacamarteiros #festasjuninas #saojoaodanadodebom26 #SãoJoãoDanadodeBom #TV74829025JC2022 ________________________ QUER MAIS REPORTAGENS? 💻 Você encontra muito mais notícias e conteúdo em JC Online: JC - Notícias, entretenimento, esportes e vídeos sobre Pernambuco, o Brasil e o mundo ________________________ SOBRE O CANAL Notícias sobre Política, ECONOMIA, Saúde, BENEFÍCIOS SOCIAIS, FUTEBOL e times como Náutico, Sport e Santa Cruz, cena cultural de Pernambuco, do Brasil e do mundo, entre vários outros temas. Jornalismo de qualidade em tempo real. 👉 INSCREVA-SE NO CANAL E FIQUE POR DENTRO DAS PRINCIPAIS NOTÍCIAS DO BRASIL E DO MUNDO: https://www.youtube.com/TVJCPE 🔴⬇Conecte-se com o JC:⬇🔴 👉 Twitter: @jc_pe 🔵 Facebook: @jornaldocommercioPE 📲 Instagram: @jc_pe Obrigado por assistir, Equipe JC Play.

O Boi Faceiro e a fé que se transforma em festa

Eduardo Scofi/JC
Evocação ao boi conecta fé, ancestralidade e cultura popular - Eduardo Scofi/JC

Para resgatar a tradição, o boi é evocado. Mais do que uma brincadeira popular, a manifestação é uma narrativa coletiva que reúne memória, ancestralidade e identidade cultural.

Um dos folguedos mais emblemáticos do Nordeste, o boi tem origem no ciclo natalino. Em alusão ao nascimento de Cristo, morre e ressuscita, em uma simbologia atravessa séculos e permanece vivo no imaginário popular.

Antes de ganhar as ruas com mantos coloridos, giros coreografados, toadas e personagens festivos, o boi já fazia parte das brincadeiras realizadas nas senzalas.

Segundo Aelson da Hora, maestro e criador do grupo Boi Faceiro, pessoas escravizadas recriavam a figura do animal com os materiais que encontravam ao redor. “Iam brincar com o que estava ao seu redor, pegar a carcaça do boi, botar uma coberta de chita, de estopa”, relata.

O boi e o São João

A manifestação também se incorporou ao ciclo junino, com a ligação com a agricultura e a força no preparo da terra durante o período chuvoso, simbolizando a expectativa por uma boa colheita. “Ele começou a ser festejado no ciclo junino devido a esse período do arar, do plantar e do colher”, explica o mestre.

À celebração da fartura somaram-se a musicalidade do coco, a teatralidade das encenações e o colorido dos figurinos, elementos que ajudaram a transformar o boi em uma das expressões mais ricas da cultura popular nordestina.

Um boi guiado pela fé

Na década de 1990, Aelson da Hora assistiu a muitos brinquedos populares perderem espaço nos ciclos festivos. Carnaval, São João e Natal eram tomados por atrações que pouco dialogavam com as tradições locais, enquanto grupos históricos enfrentavam o esquecimento.

Foi nesse período que ele começou a se dedicar ao trabalho cultural na comunidade dos Coelhos, apostando no boi como uma forma de reunir crianças, jovens e adultos em torno de uma manifestação que fazia parte da memória do bairro.

A Jurema Sagrada como fundamento do Boi Faceiro

Aelson conta que viveu uma experiência marcante durante uma cerimônia de Jurema Sagrada e que, desde então, passou a buscar orientação para os caminhos seguidos pelo grupo. "Tudo que nós fazemos, tudo que nós planejamos, é consultando, é pedindo permissão", diz, ao descrever uma relação que ajuda a entender o lugar ocupado pelo Boi Faceiro na comunidade, cercado de respeito e reverência.

A mesma lógica orienta a convivência do Boi Faceiro com a comunidade que cerca sua sede. Durante os ensaios itinerantes, o cortejo passa em frente à Assembleia de Deus vizinha à sede do Boi Faceiro. Quando o encontro acontece em horário de culto, os músicos interrompem as canções, em uma prática de respeito mútuo construído ao longo dos anos entre o brinquedo e a congregação.

Eduardo Scofi/JC
Na década de 1990, Aelson da Hora assistiu a muitos brinquedos populares perderem espaço nos ciclos festivos e decidiu criar o Boi Faceiro - Eduardo Scofi/JC
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Troféus reunidos na sede do Boi Faceiro registram anos de apresentações e reconhecimento à trajetória do grupo - Eduardo Scofi/JC

Do mesmo jeito que eu não quero que ninguém atrapalhe o que é nosso, eu tenho que ter a consciência de não atrapalhar o que é dos outros
Aelson da Hora, mestre do boi

O custo da brincadeira

Manter o Boi Faceiro em atividade durante todo o ano exige recursos para figurinos, instrumentos, transporte, manutenção da sede e ações realizadas na comunidade. O grupo reúne cerca de 100 pessoas entre integrantes ativos e participantes que seguem ligados à brincadeira, enquanto os ensaios e apresentações costumam reunir cerca de 30 brincantes e músicos.

Aelson conta que a principal fonte de financiamento são os editais públicos, mas os valores pagos aos grupos culturais estão longe de acompanhar a realidade das despesas. "Você quer coisa mais vergonhosa do que os nossos cachês?", questiona.

Como exemplo, ele cita que o valor base pago pela Prefeitura do Recife é de R$ 4 mil por apresentação, quantia que considera insuficiente para uma manifestação que mantém atividades durante todo o ano e não apenas nos períodos festivos. Segundo Aelson, os cachês pagos pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) são ainda menores.

Para ele, grupos com atuação permanente nas comunidades deveriam receber mais apoio do poder público, já que o trabalho desenvolvido por essas iniciativas também funciona como uma política pública de alcance social.

“Isso que nós fazemos são políticas públicas”

Apesar das dificuldades, ele defende que a cultura popular continua sendo uma ferramenta de transformação social e econômica, capaz de gerar renda, movimentar o comércio local e fortalecer os vínculos comunitários construídos ao longo do ano.

Mais do que preservar uma tradição cultural, o Boi Faceiro se consolidou como um instrumento de transformação social na comunidade dos Coelhos. Ao longo dos anos, o grupo tem impactado a vida de centenas de famílias, gerando oportunidades de participação, formação e geração de renda.

Nos eventos promovidos pela agremiação, moradores encontram espaço para empreender, contribuindo para complementar a renda das famílias e fortalecer a economia local. “Isso que nós fazemos são políticas públicas. A cultura movimenta financeiramente a sociedade”, afirma.

O Boi Faceiro vai além do espetáculo. A manifestação cultural funciona como uma ferramenta de inclusão, pertencimento e desenvolvimento comunitário, demonstrando como a cultura popular pode gerar impactos sociais e econômicos concretos.

O que diz a Prefeitura do Recife

Em nota, a Prefeitura do Recife afirma que mantém mecanismos permanentes de incentivo à cultura popular por meio de contratações para os ciclos festivos e de editais de fomento.

Segundo a gestão municipal, grupos de bois, maracatus, caboclinhos, blocos líricos e outras manifestações integram a programação do Carnaval, São João e Natal, com apresentações gratuitas em diferentes bairros da cidade.

Brincantes e Tradições Juninas #2: Boi Faceiro e a resistência da tradição em Pernambuco

Brincantes e Tradições Juninas #2: O Boi Faceiro e a fé que se transforma em festa
No segundo episódio da série Brincantes e Tradições Juninas, o mestre Aelson da Hora apresenta o Boi Faceiro, uma manifestação que reúne música, teatro, dança e personagens populares em uma das expressões mais marcantes do ciclo junino pernambucano. Acompanhamos os bastidores da brincadeira, a produção dos figurinos, a participação das crianças e o trabalho coletivo que mobiliza dezenas de integrantes ao longo de todo o ano. Entre ensaios e apresentações, o grupo constrói um espaço de convivência que aproxima diferentes gerações da comunidade. O episódio revela como o Boi Faceiro mantém viva uma tradição popular que se renova a cada ciclo festivo, preservando memórias, formando novos brincantes e fortalecendo os vínculos entre cultura, religiosidade e comunidade. 00:00 Brincantes e Tradições Juninas #2: O Boi Faceiro e a fé que se transforma em festa 📲 Compartilhe esse vídeo: https://youtu.be/bvY18ahsQ_s 📷 Imagens: /JC Imagem 🎥 Edição de Vídeo: Adson Souza #sãojoão #boifaceiro #festasjuninas #saojoaodanadodebom26 #SãoJoãoDanadodeBom #TV74829025JC2022 ________________________ QUER MAIS REPORTAGENS? 💻 Você encontra muito mais notícias e conteúdo em JC Online: JC - Notícias, entretenimento, esportes e vídeos sobre Pernambuco, o Brasil e o mundo ________________________ SOBRE O CANAL Notícias sobre Política, ECONOMIA, Saúde, BENEFÍCIOS SOCIAIS, FUTEBOL e times como Náutico, Sport e Santa Cruz, cena cultural de Pernambuco, do Brasil e do mundo, entre vários outros temas. Jornalismo de qualidade em tempo real. 👉 INSCREVA-SE NO CANAL E FIQUE POR DENTRO DAS PRINCIPAIS NOTÍCIAS DO BRASIL E DO MUNDO: https://www.youtube.com/TVJCPE 🔴⬇Conecte-se com o JC:⬇🔴 👉 Twitter: @jc_pe 🔵 Facebook: @jornaldocommercioPE 📲 Instagram: @jc_pe Obrigado por assistir, Equipe JC Play.

Ações da Fundarpe

Em nota, o Governo de Pernambuco, por meio da Secretaria de Cultura (Secult-PE), Fundação de Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) e Empresa Pernambucana de Turismo (Empetur), destacou ações de fomento voltadas aos fazedores de cultura do estado no ciclo junino.

Segundo a gestão, em 2026 foram contratadas 950 atrações, dos quais 47 eram grupos de bacamarte e 58 eram grupos de bois e similares, o que representa cerca de 11% das contratações. Ou seja, a cada 100 apresentações, 11 eram dessas manifestações populares.

"Os valores destinados à contratação desses grupos durante o ciclo junino de 2026 ainda estão em  consolidação, uma vez que a programação segue em andamento", diz o texto.

Dentre os diversos mecanismos para incentivo a grupos de cultura popular, a Fundarpe destacou:

  • Edital de Patrimônio Vivo, disponível para mestres, mestras e grupos, que recebem bolsa mensal vitalícia para atuação (R$ 2.373,53 para mestres e mestras, R$ 4.747,13 para grupos);
  • Projeto Brincantes nas Escolas, que leva grupos de cultura popular para dar aulas-espetáculo em escolas da rede estadual de ensino;
  • Editais do Funcultura, que têm categorias como cultura popular, artesanato, dança, música e teatro.

O fuxico como arte e ancestralidade

Eduardo Scofi/JC
Maria Gabrielly Dantas e Edna Dantas carregam tradição ancestral do fuxico em suas produções - Eduardo Scofi/JC

Um fuxico basta para revelar a técnica artesanal profundamente associada à cultura nordestina, mas é quando se junta a muitos outros que seu desenho se revela por inteiro.

São dezenas, às vezes centenas de fuxicos unidos, costurados lado a lado para formar vestidos, bolsas, colchas e adereços que ajudam a colorir o São João e mostram que, assim como sua construção, a beleza está no conjunto.

Feitos de retalhos reaproveitados, esses pequenos círculos de tecido carregam uma prática transmitida entre gerações de mulheres. É essa tradição que a artesã Edna Dantas, mãe da designer Maria Gabrielly Dantas e fuxiqueira de carteirinha, mantém viva dentro de casa, onde o fuxico atravessa gerações de mulheres da mesma família há décadas.

Retalhos de resistência

Expressão do artesanato afro-brasileiro, o fuxico carrega marcas de ancestralidade, coletividade e memória cultural construídas pelas mulheres negras escravizadas no Brasil desde o período colonial.

Segundo a fuxiqueira Maria Gabrielly, a prática surgiu da reutilização de retalhos de tecido, transformados em peças de vestuário e itens de decoração para as casas.

Durante esses momentos de produção coletiva, as mulheres compartilhavam experiências, desafios cotidianos, desejos e relatos das violências sofridas, especialmente nas relações com senhores e senhoras de engenho. Nesse contexto, o termo “fuxiqueira” ganhou uma conotação pejorativa, associada às conversas que aconteciam nesses encontros.

“O fuxico é sobre um feminismo popular, um encontro onde as mulheres têm condições de falar sobre o que está acontecendo dentro da sua casa, o que está acontecendo na sua vida”, explica a artesã.

Prática de resistência afroancestral

Ao longo do tempo, o fuxico se manteve como uma prática de resistência, acolhimento e construção de identidade. Mais do que reaproveitar tecidos, a técnica também ressignifica histórias e vivências.

O fuxico vai além da ressignificação do tecido: ele ressignifica a narrativa
Maria Gabrielly, fuxiqueira

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Feitos de retalhos reaproveitados, tecido carrega prática transmitida entre gerações de mulheres - Eduardo Scofi/JC
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Maria Gabrielly e Edna se consideram "fuxiqueiras de carteirinha" - Eduardo Scofi/JC
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Fuxico carrega marcas de ancestralidade - Eduardo Scofi/JC

Herança de saberes ancestrais, o fuxico atravessa gerações e se reinventa como um dos símbolos das festas juninas e da identidade cultural nordestina. Entre cores, formas e encontros, a prática expressa a capacidade de transformar desafios em celebração e manter vivas memórias de resistência.

De mãe para filha, do artesanato para as passarelas

Ainda criança, Edna Dantas aprendeu o fuxico com a mãe, as tias e a avó, em Iati, no sertão de Pernambuco. O que começou como uma atividade compartilhada entre as mulheres da família acabou se tornando uma tradição levada adiante por diferentes gerações, chegando anos depois à filha.

Foi assim que Gabrielly começou a aprender a técnica aos 12 anos, em um projeto social coordenado pela mãe. Pouco tempo depois, passou a produzir bonecas de fuxico, que ajudaram a custear sua permanência na escola, transformando o artesanato em fonte de renda. Entre elas, estavam bonecas de pele preta, produzidas em um período em que esse tipo de representação ainda era pouco comum no artesanato.

Hoje, a designer de moda leva a técnica para pesquisas, coleções e passarelas sem romper com a tradição aprendida em casa. Para Gabrielly, preservar o fuxico não significa apenas repetir uma técnica, mas garantir que ela continue fazendo sentido no tempo em que é produzida.

"Se a gente não mantiver as tradições e não trouxer para a nossa realidade, as chances são grandes de serem apagadas. E quando se apaga uma prática, apaga uma história", afirma.

Divulgação
Lia de Itamaracá em figurino feito de fuxico - Divulgação

Falta financiamento

Embora carregue séculos de história e seja um dos símbolos da identidade cultural nordestina, o fuxico ainda enfrenta dificuldades para acessar políticas públicas de incentivo e valorização. Para Maria Gabrielly, o caminho até editais e mecanismos de fomento continua sendo um desafio para muitas artesãs.

“Não considero fácil. Eu acho que já se avançou em algumas desburocratizações, mas ainda se torna difícil porque você precisa de uma expertise com editais”, explica.

A reivindicação por reconhecimento institucional é antiga entre os conselhos e representantes do setor. Uma das principais pautas é o reconhecimento do artesanato como profissão e manifestação cultural, garantindo direitos trabalhistas e previdenciários às artesãs.

“O artesanato, em geral, entraria as fuxiqueiras para que essas mulheres também tenham condições de se aposentar, porque às vezes as pessoas veem isso como um hobby, mas não é isso, é uma profissão das pessoas”, destaca Edna.

Para Gabrielly, a valorização do artesanato passa também pelo reconhecimento de seu caráter político e social. “Nosso desejo e trabalho é também nesse lugar de entender que o artesanato é político, é onde a gente também tem que buscar mais condições e reivindicar os nossos direitos”, afirma.

Mais do que uma atividade manual, o fuxico se apresenta como uma prática que gera renda, preserva saberes ancestrais e sustenta a luta por reconhecimento e cidadania das artesãs.

O que diz a Prefeitura de Itamaracá

Em nota, a Prefeitura de Itamaracá afirmou que as oficinas de fuxico são realizadas nas terças e quintas-feiras por meio do Serviço de Convivência vinculado à Secretaria de Políticas Sociais.

“O foco principal da ação é a integração social, o estímulo ao desenvolvimento de habilidades manuais e o bem-estar dos usuários. É importante ressaltar que se trata de uma produção estritamente artesanal e em pequena escala. Não temos um viés comercial”, diz o texto.

Brincantes e Tradições Juninas #3: O fuxico como arte e ancestralidade

Brincantes e Tradições Juninas #3: O fuxico como arte e ancestralidade
No terceiro e último episódio da série Brincantes e Tradições Juninas, Edna Dantas e Maria Gabrielly Dantas apresentam o fuxico, uma arte centenária que carrega ancestralidade, cultura popular e sustentabilidade. No ciclo junino, o fuxico está nas roupas e nos adereços que representam a tradição e a identidade nordestina. A produção sai da decoração de casa e ganha as ruas, mas antes, rememora a história da comunidade e convida à conexão. Acompanhamos as histórias que o artesanato transforma e, descobrimos como, entre retalhos e conversas, o fuxico passa a ser um espaço de convivência, troca e coletividade. 00:00 Brincantes e Tradições Juninas #3: O fuxico como arte e ancestralidade 📲 Compartilhe esse vídeo: https://youtu.be/Q3s6HcsQThA 📷 Imagens: /JC Imagem 🎥 Edição de Vídeo: Adson Souza #sãojoão #bacamarteiros #festasjuninas #saojoaodanadodebom26 #SãoJoãoDanadodeBom #TV74829025JC2022 ________________________ QUER MAIS REPORTAGENS? 💻 Você encontra muito mais notícias e conteúdo em JC Online: JC - Notícias, entretenimento, esportes e vídeos sobre Pernambuco, o Brasil e o mundo ________________________ SOBRE O CANAL Notícias sobre Política, ECONOMIA, Saúde, BENEFÍCIOS SOCIAIS, FUTEBOL e times como Náutico, Sport e Santa Cruz, cena cultural de Pernambuco, do Brasil e do mundo, entre vários outros temas. Jornalismo de qualidade em tempo real. 👉 INSCREVA-SE NO CANAL E FIQUE POR DENTRO DAS PRINCIPAIS NOTÍCIAS DO BRASIL E DO MUNDO: https://www.youtube.com/TVJCPE 🔴⬇Conecte-se com o JC:⬇🔴 👉 Twitter: @jc_pe 🔵 Facebook: @jornaldocommercioPE 📲 Instagram: @jc_pe Obrigado por assistir, Equipe JC Play.

Citação

Eu não sei como sobreviver no mundo social se eu não estiver imerso na cultura popular. É ela que aponta a direção da minha vida. É o que eu sou

Ivan Marinho, bacamarteiro
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Do mesmo jeito que eu não quero que ninguém atrapalhe o que é nosso, eu tenho que ter a consciência de não atrapalhar o que é dos outros

Aelson da Hora, mestre do boi
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O fuxico vai além da ressignificação do tecido: ele ressignifica a narrativa

Maria Gabrielly, fuxiqueira

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