Mais de 50% das exportações brasileiras aos EUA podem ser afetadas pelo tarifaço, afirma Armando Monteiro Neto
Conselheiro da CNI afirma que ampliação das tarifas pode atingir cerca de US$ 13,5 bilhões em exportações e defende negociação para ampliar exceções
Clique aqui e escute a matéria
O novo pacote de tarifas imposto pelos Estados Unidos pode atingir mais da metade das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano. A avaliação é do ex-senador Armando Monteiro Neto, conselheiro da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que classificou a medida como prejudicial tanto para a indústria brasileira quanto para empresas dos próprios Estados Unidos.
Em entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, nesta quarta-feira (8), Armando afirmou que, somadas às sobretaxas já existentes para alguns setores, as novas tarifas poderão alcançar cerca de 52% das exportações brasileiras para os Estados Unidos.
Segundo ele, aproximadamente 35% das exportações brasileiras para o mercado americano — o equivalente a cerca de US$ 13,5 bilhões — serão diretamente afetadas pelo novo tarifaço. Quando esse percentual é combinado com produtos que já enfrentam restrições impostas em outras normas da legislação comercial norte-americana, o impacto alcança mais da metade das exportações.
"O que vai ser diretamente afetado representa cerca de 35% das exportações. Quando se soma aos produtos que já estavam submetidos a outras tarifas, chegamos a aproximadamente 52% das exportações brasileiras atingidas", afirmou.
Apesar do cenário, Armando avalia que ainda há espaço para reduzir os impactos por meio da ampliação da lista de produtos isentos das novas tarifas.
"A expectativa é ampliar as exceções. Dificilmente será possível evitar a aplicação das tarifas, mas é possível reduzir o número de produtos alcançados", disse.
Comércio é estratégico para a indústria
Embora a participação dos Estados Unidos no comércio exterior brasileiro tenha diminuído nas últimas décadas, Armando destacou que o país continua sendo um mercado estratégico para a indústria nacional.
Segundo ele, diferentemente da relação comercial com a China, concentrada em commodities, o comércio com os norte-americanos é baseado principalmente em produtos manufaturados, máquinas, equipamentos e insumos industriais.
"O comércio com os Estados Unidos tem caráter complementar. O Brasil fornece insumos e bens de capital que integram cadeias produtivas americanas", explicou.
Entre os exemplos citados estão o ferro-gusa, máquinas e equipamentos, produtos siderúrgicos, açúcar, álcool etílico desnaturado, compensados de madeira e hidróxido de alumínio.
Na avaliação do conselheiro da CNI, a sobretaxação também tende a elevar custos para empresas e consumidores americanos, já que parte desses produtos é utilizada como matéria-prima pela indústria dos Estados Unidos.
"Na realidade, quando se estabelece uma sobretaxa nesse nível, isso prejudica as cadeias de suprimento nos Estados Unidos também e impactam custos para o consumidor americano. Portanto, é algo que tem uma série de efeitos danosos do ponto de vista econômico", disse.
Pernambuco pode sentir reflexos no açúcar e no etanol
Questionado sobre os efeitos para Pernambuco, Armando apontou o setor sucroenergético como um dos mais sensíveis às mudanças tarifárias.
Segundo ele, o açúcar exportado pelo estado pode ser afetado pelas novas medidas, assim como a cadeia do etanol, caso o Brasil reduza as tarifas de importação do combustível norte-americano durante as negociações comerciais.
"O mercado do Nordeste pode ser muito afetado se houver redução da tarifa sobre o etanol americano. Essa proteção é fundamental para preservar a competitividade da produção regional", afirmou.
Embora avalie que o impacto direto sobre Pernambuco esteja concentrado nesses segmentos, Armando ressaltou que eventuais perdas da indústria nacional acabam repercutindo sobre toda a economia brasileira.
Governo mantém diálogo com setor produtivo
Durante a entrevista, o ex-senador também avaliou positivamente a atuação do governo federal nas negociações com os Estados Unidos.
Segundo ele, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) tem mantido interlocução permanente com o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), responsável pelas negociações comerciais americanas, além de atuar de forma articulada com a CNI e entidades representativas da indústria.
Para Armando, esse diálogo é essencial diante do curto prazo para tentar minimizar os efeitos das novas tarifas.
Uma das propostas defendidas pela CNI, segundo ele, é a criação de um mecanismo de revisão periódica das tarifas, permitindo que Brasil e Estados Unidos mantenham as negociações abertas mesmo após a entrada em vigor das medidas.
"É uma forma de manter um canal de negociação para revisar tarifas e ampliar exceções ao longo do tempo", concluiu.