Criadoras negras transformam influência digital em negócio em Pernambuco
Entre algoritmos, cachês desiguais e CNPJ, mulheres negras fazem da criação de conteúdo renda, autonomia e pequeno negócio
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Em Pernambuco, criadoras negras têm transformado a produção de conteúdo em fonte de renda, pequeno negócio e estratégia de autonomia. Por trás dos vídeos publicados no feed, há uma rotina que envolve roteiro, gravação, edição, negociação com marcas, emissão de nota fiscal, análise de métricas e cobrança por pagamentos que podem demorar até 120 dias para cair. O conteúdo que o público vê é apenas uma etapa de um ciclo de cinco – os outros quatro estão invisíveis.
A profissionalização acompanha o crescimento da creator economy no Brasil, mas não elimina desigualdades antigas. Entre algoritmos pouco transparentes, cachês menores, dificuldade de acesso a crédito e concentração dos maiores orçamentos no eixo Sudeste, essas mulheres disputam visibilidade, reconhecimento e espaço em um mercado digital que movimenta bilhões, mas ainda remunera de forma desigual.
Foi nesse cenário que Bia Mota, influenciadora à frente do perfil @perambulandoporecife e CEO da Casulo Agência, percebeu que a internet tinha deixado de ser apenas um espaço de expressão. A virada veio quando fechou o primeiro trabalho com uma grande marca.
O valor recebido por uma única publicidade equivalia ao que recebia em um mês como prestadora de serviços em outra área. "Aquilo brilhou os olhos", lembra.
O encantamento, no entanto, veio acompanhado de uma descoberta prática. Por trás daquela publicação, havia um ecossistema comercial inteiro. Durante muito tempo, Bia conduziu a operação sozinha. Só depois, com o crescimento da demanda, passou a contar com apoio comercial. A formalização também entrou na rotina.
Hoje, ela atua como pessoa jurídica, uma exigência cada vez mais comum das marcas, que costumam demandar Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) para a contratação de campanhas publicitárias. Nesse cenário, o registro como Microempreendedora Individual (MEI) tornou-se uma ferramenta essencial para a emissão de notas fiscais e a formalização das parcerias comerciais.
A criadora de conteúdo também está em processo de estruturação da própria agência, ampliando a profissionalização do negócio. Quando a atividade passa a envolver contratos, emissão de notas fiscais e receita recorrente, a produção de conteúdo deixa de ser apenas uma vitrine digital e se consolida como uma atividade econômica organizada.
'Eu-presa': o peso de fazer tudo sozinha
Eli Maria, influenciadora de beleza e rotina à frente do perfil @elimaaria, viveu uma virada semelhante em 2021. Naquele ano, começou a receber propostas de marcas nacionais e internacionais e percebeu que precisava se formalizar para emitir notas fiscais.
Ao abrir um CNPJ e se formalizar como MEI, passou a receber pagamentos de marcas de forma mais estruturada, o que fortaleceu sua relação com a instituição financeira e abriu portas para contratos maiores. “Foi ali que eu entendi que criar conteúdo é empreender, é trabalho e é negócio”, afirma.
Sem apoio de uma agência, Eli assumiu a gestão da própria carreira. Hoje analisa propostas, define valores, negocia entregas, declara Imposto de Renda e organiza os bastidores burocráticos do que aparece no feed. A produção dos conteúdos é apenas uma parte da rotina. A outra envolve cálculo, prazo, cobrança e responsabilidade sobre cada etapa do serviço.
A pressão, diz Eli, é não poder falhar. Quando a estrutura depende de uma pessoa só, qualquer atraso, erro de cálculo ou proposta mal negociada recai sobre a própria criadora.
O mercado promete autonomia, mas, na prática, muitas criadoras negras acabam operando como “eu-presas”. Elas concentram, em uma só pessoa, a marca, o produto, a criação, a negociação comercial, o controle financeiro e o relacionamento com o público.
A liberdade de trabalhar com a própria imagem convive com a instabilidade de quem não sabe quantas publicidades vai fechar no mês seguinte. É um negócio que opera no limite – uma empresa inteira condensada em uma pessoa, sem a rede de segurança que sustenta empresas maiores.
Bilhões em jogo
Quando Bia fechou o primeiro contrato com uma grande marca e sentiu o peso do que estava em jogo, a formalização deixou de ser burocracia e virou estratégia. A segunda edição do estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Hotmart mostra por que: criadores registrados como empresas tiveram faturamento médio de R$ 10.007 em 2024, ante R$ 4.987 entre pessoas físicas. O dobro de faturamento – com o mesmo trabalho, a mesma câmera, o mesmo algoritmo. A diferença é o CNPJ.
E o mercado que recompensa essa decisão é grande. A criação de conteúdo gerou 389.448 trabalhos diretos e indiretos no país em 2024, quase 30% a mais que no ano anterior, segundo o mesmo levantamento. No Brasil, a creator economy movimentou US$ 5,47 bilhões em 2025 e tem projeção de crescer mais de 22% ao ano até 2034, de acordo com relatório da Noodle.
Em Pernambuco, esse movimento tem números próprios. O estado abriga mais de 470 mil MEIs formalizados e registrou alta de 18% nos postos de trabalho da economia criativa entre o terceiro trimestre de 2023 e o mesmo período de 2024 – um dos maiores crescimentos do país, segundo o Observatório Fundação Itaú.
O avanço acompanha também o fortalecimento do empreendedorismo feminino: apenas em 2025, foram abertos 47,9 mil novos negócios liderados por mulheres no estado, ante 34,9 mil no ano anterior, de acordo com o Sebrae/PE.
A instituição não tem uma estatística fechada sobre quantas dessas empreendedoras são criadoras de conteúdo, mas reconhece o segmento como prioritário: mantém consultorias e eventos voltados à profissionalização de negócios digitais no Recife. A formalização, portanto, não é apenas protocolo. É a diferença entre participar desse mercado bilionário com margem ou sem ela – e os dados provam isso com precisão.
Mas a mesma economia que cresce a dois dígitos também reproduz desigualdades antigas. O celular pode reduzir a barreira inicial de entrada, mas não elimina o custo de permanecer, crescer e faturar. Para mulheres negras em Pernambuco, o desafio é transformar audiência em renda, renda em empresa e empresa em sustentabilidade – tudo isso sem herdar o mesmo capital, as mesmas redes de contato e o mesmo reconhecimento reservado a criadores brancos, homens e concentrados no eixo Sudeste.
A caixa-preta que decide quem aparece
A primeira barreira é a visibilidade. A segunda é transformar essa visibilidade em renda. Para criadoras negras, as duas etapas passam por plataformas que influenciam a circulação dos conteúdos, mas nem sempre explicam com transparência seus critérios, como os algoritmos.
Para Tereza Oliveira, empresária social tech, fundadora da Virada No Café e liderança do ecossistema de inovação no Nordeste, o gargalo das afroempreendedoras digitais não está apenas em crescer na internet. Está em converter presença em negócio sustentável. Muitas têm comunidade, criatividade e autoridade, mas não tiveram acesso a orientação sobre posicionamento, precificação, contratos, gestão, educação digital, networking e equipamentos adequados.
A tecnologia, nesse cenário, não é neutra. Segundo Tereza, os algoritmos influenciam diretamente quem aparece, quem viraliza e quem consegue monetizar. Criadoras negras relatam queda de alcance quando abordam temas ligados à identidade, periferia, racismo ou cultura negra. A consequência chega ao caixa: menos entrega significa menos visualizações, menos campanhas e menos oportunidades comerciais.
"Os algoritmos aprendem com padrões históricos já marcados por desigualdade. Na prática, a tecnologia acaba reproduzindo exclusões que já existem na sociedade."
No vocabulário das redes, essa restrição costuma ser chamada de shadowban – uma limitação silenciosa de alcance, sem aviso claro da plataforma. Para quem depende da internet para pagar contas, comprar equipamentos e fechar contratos, a queda de alcance pode funcionar como bloqueio econômico.
O alcance mensal é parte do portfólio de quem trabalha com influência. É a métrica que marcas e agências observam para decidir quem entra ou não em uma campanha. Quando o conteúdo de mulheres negras circula menos, elas chegam à mesa de negociação com números comprimidos.
Mesmo quando apresentam bons resultados, ainda enfrentam outro filtro: o valor que o mercado atribui à imagem, à fala e à autoridade de uma mulher negra.
Eli sente essa pressão na rotina. Segundo ela, há uma exigência constante por presença, tendências e formatos rápidos. "Em alguns momentos, parece que não basta produzir algo com qualidade. É preciso estar presente o tempo inteiro para continuar sendo vista."
Ainda assim, ela filtra o que publica. Prefere adaptar ou recusar trends quando não fazem sentido para sua identidade e para a comunidade que construiu. O dilema é permanente: alimentar a plataforma para continuar visível ou preservar coerência, saúde mental e valor de marca.
Bia também já sentiu a cobrança por volume. Hoje escolhe publicar menos, com vídeos mais pensados, roteirizados e coerentes com seu posicionamento. Para ela, conteúdos rápidos e "ultraprocessados" podem até render visualizações, mas não constroem uma base qualificada de seguidores, comunidade e confiança.
O relatório “Vem Aí na Creator Economy 2026”, produzido pela YOUPIX, aponta exatamente esse movimento: em 2026, a disputa já não é por alcance ou likes, mas por previsibilidade de receita e conversão real.
Segundo o estudo, criadoras que construíram uma comunidade sólida chegam melhor posicionadas a essa virada, enquanto aquelas que resistiram à pressão por volume estão, paradoxalmente, à frente.
Mesmo alcance, menor cachê
A disputa por visibilidade não termina quando uma criadora consegue bons números. No mercado publicitário, o alcance também passa por filtros de raça, região e gênero.
A pesquisa "Black Influence: um retrato dos creators pretos do Brasil", realizada por Black Influence, Squid, Sharp, Mundo Negro e YOUPIX com mais de 760 criadores, mostrou que 64% dos creators pretos não consideravam o marketing de influência um mercado inclusivo.
O levantamento apontou diferenças concretas de remuneração: a média do valor máximo recebido por campanha foi de R$ 4.181,01 entre criadores brancos e de R$ 1.626,83 entre criadores pretos.
Além disso, 38% dos influenciadores pretos afirmaram já ter recebido menos em alguma campanha, mesmo com faixa de seguidores e engajamento semelhante a outro influenciador recrutado para a mesma ação.
O contraste fica mais agudo diante do tamanho do bolo. Os orçamentos das marcas destinados ao marketing de influência cresceram 57% para 2026, segundo levantamento da HeartBit. Ou seja: o mercado aquece e o dinheiro disponível para campanhas se multiplica, mas a fatia não chega igual. Criadores negros seguem recebendo menos da metade do que recebem os brancos pela mesma entrega.
Para Karla Calazans, estrategista, produtora de eventos e idealizadora do PRETAR, metodologia voltada ao fortalecimento de mulheres negras empreendedoras, a raiz do problema está na forma como o mercado ainda lê a influência negra como nicho, e não como potência econômica. "Elas não vendem apenas alcance. Vendem conexão, influência cultural, comunidade e conversão."
Segundo Karla, muitas marcas se beneficiam da estética, da confiança e da capacidade de mobilização dessas criadoras, mas ainda oferecem cachês inferiores aos pagos a criadores brancos com desempenho semelhante.
O problema não se resume ao valor de uma campanha. Também passa pelo modo como o mercado define quem pode cobrar mais, quem precisa aceitar menos e quem é reconhecido como estratégia de negócio.
A orientação de Karla para blindar a precificação passa pela profissionalização: mídia kit, dados organizados, contratos, posicionamento claro e domínio das próprias métricas funcionam como instrumentos de defesa.
A negociação não pode depender apenas da urgência financeira, porque o mercado percebe vulnerabilidades. "O silenciamento salarial ainda é uma ferramenta que mantém desigualdades", pontua.
Eli transformou essa percepção em método. Antes de fechar uma campanha, coloca na ponta do lápis o número de entregas, as redes envolvidas, o tempo de produção, o deslocamento, o direito de imagem, o direito de impulsionamento, a exclusividade e o uso posterior do conteúdo pela marca.
Se o orçamento não cobre tudo, renegocia o escopo – retira direito de imagem, reduz exclusividade ou recusa. "Negar também posiciona no mercado", diz.
Bia adota caminho semelhante. Como mulher negra nordestina, diz perceber um olhar diferenciado sobre criadoras negras da região, atravessado por racismo e xenofobia. A resposta, no caso dela, é construir comunidade forte, produzir conteúdos com lastro cultural e estabelecer um valor mínimo para aceitar campanhas.
Quando a proposta não corresponde à entrega, ela recusa. A decisão é estratégica, mas nem sempre simples: em um mercado instável, dizer "não" também exige caixa, rede e planejamento.
A desigualdade regional aprofunda o problema. Bia estima que quase 80% das publicidades fechadas por ela venham de marcas, agências ou operações ligadas ao eixo Rio-São Paulo.
Eli também identifica crescimento do mercado criativo pernambucano, mas afirma que as grandes oportunidades e os orçamentos mais altos ainda vêm de marcas nacionais concentradas no Sudeste.
O paradoxo aparece justamente aí. Pernambuco oferece cultura, estética, repertório, linguagem, comunidade e autenticidade. Ainda assim, parte significativa do dinheiro que remunera essa influência continua sendo decidida fora do estado.
Formalizar ou desaparecer
Se o algoritmo define parte da visibilidade e o mercado publicitário interfere na remuneração, a gestão define a sobrevivência. Para criadoras que precisam emitir nota fiscal, acessar contratos maiores, abrir conta jurídica e organizar o fluxo de pagamentos, a formalização deixou de ser detalhe burocrático. Virou ferramenta de permanência.
Andréa Viana, gestora do Sebrae Delas Recife, afirma que muitas mulheres começam produzindo conteúdo de forma espontânea, mas rapidamente transformam essa atividade em negócio.
"O primeiro passo é entender que elas já empreendem, mesmo no digital", diz. E o que essas empreendedoras vendem vai muito além de curtidas: "Elas não estão vendendo apenas uma postagem. Vendem audiência, influência, posicionamento e conexão com o público", complementa.
O Sebrae Delas Recife atua em 14 cidades da Região Metropolitana, com orientação sobre formalização, gestão, posicionamento e construção de marca. O Sebrae Recife mantém ainda um projeto específico voltado à economia criativa, com gestor dedicado que acompanha empreendedores de conteúdo digital, moda, música, audiovisual, design e cultura.
Em 2025, o programa lançou o Conexão Afro, iniciativa voltada ao fortalecimento do afroempreendedorismo na Região Metropolitana, com a Expo Afro – feira de negócios para empreendedores negros, com palestras, mentorias e referências nacionais.
O programa segue ativo em 2026 com o Rota Afro Delas, que circula por cidades da região, e o Afro Business, voltado ao fortalecimento de conexões comerciais e geração de oportunidades, ambos em parceria com o PRETAR, Sala do Empreendedor, CDL Mulher e Grupo Mulheres do Brasil.
A experiência de Eli mostra como a formalização abre portas além dos contratos. Com o histórico construído na conta jurídica, o acesso a crédito foi se tornando mais viável – uma vantagem que, para mulheres negras, ainda é exceção.
Contudo, ela prefere reinvestir recursos do próprio trabalho antes de recorrer a financiamento externo. A estratégia é simples e rigorosa: fecha campanhas, separa valores, mantém caixa e só depois investe em equipamentos e melhorias técnicas.
A cautela tem razão de ser. O acesso ao crédito no Brasil ainda é profundamente desigual – e o recorte de raça e gênero torna esse mapa ainda mais duro. O Relatório de Cidadania Financeira 2025, divulgado pelo Banco Central em abril de 2026 – o primeiro com dados segmentados por raça e gênero –, revelou que mulheres negras de baixa renda pagam taxas médias de até 140% de juros ao ano, o patamar mais alto entre todos os grupos analisados, contra 97% dos homens brancos.
A pesquisa Empreendedoras e Seus Negócios 2025, do Instituto Rede Mulher Empreendedora, aprofunda o retrato: 29% dos pedidos de crédito de mulheres negras são negados, ante 23% entre mulheres brancas. Quando conseguem o recurso, os valores são menores – apenas 6% das empreendedoras negras acessaram empréstimos acima de R$ 20 mil, contra 20% das brancas.
O acesso ao crédito, portanto, não é apenas uma questão financeira. É também racial. É por isso que o Sebrae orienta que a empreendedora construa histórico antes de buscar financiamento.
Segundo Andréa, quando a empreendedora tem CNPJ, organização financeira e algum histórico de movimentação, ela amplia consideravelmente suas possibilidades de acesso a linhas específicas para pequenos negócios – como o Pronampe, programa federal que em 2026 permite a MEIs e microempresas tomar empréstimos de até 30% do faturamento anual declarado, com teto que chega a 50% para empresas cujas sócias são majoritariamente mulheres.
"Crédito sozinho não resolve. É importante ter planejamento e gestão para usar esse recurso de forma estratégica e sustentável", explicou Andréa Viana.
A educação financeira é ainda mais decisiva porque a renda da influência digital é variável. A criadora pode fechar dez publicidades em um mês, duas no seguinte e nenhuma campanha grande depois.
No Nordeste, Bia cita o São João como exemplo de sazonalidade: o período costuma aumentar a procura por influenciadoras locais, mas exige planejamento para que o faturamento concentrado em uma época ajude a sustentar meses menos aquecidos.
Por isso, a estratégia de sobrevivência passa pela diversificação – não apenas de receita, mas de base. Bia comanda a Casulo Agência, voltada ao marketing de influência de mulheres do Nordeste, e atua como produtora de conteúdo e social media para além do próprio perfil.
Eli combina publicidades com monetização em plataformas como YouTube, TikTok e Facebook, programas de criadores e links de afiliados, e projeta lançar um produto próprio.
O ponto em comum entre as duas: construíram estrutura que não depende de um único canal, uma única marca ou um único mês bom. "O algoritmo muda, mas conexão verdadeira permanece", ressalta Karla Calazans.
Pernambuco produz, o Sudeste fatura
A creator economy pernambucana nasce em um território onde cultura e comunicação sempre foram motores de identidade. Recife, Olinda, Jaboatão, Paulista, Caruaru e outras cidades produzem estética, música, moda, gastronomia, humor, debate público, beleza e linguagem. Agora, parte dessa produção circula em plataformas globais e pode ser convertida em renda.
O desafio é fazer o reconhecimento simbólico virar investimento. Criadoras negras locais são chamadas para aproximar marcas de comunidades, dar credibilidade a produtos, ocupar campanhas de diversidade e gerar conversão. Na negociação, porém, o valor oferecido nem sempre acompanha o impacto produzido.
Esse descompasso tem efeito direto no desenvolvimento regional. Segundo o Sebrae/PE, Pernambuco tem cerca de 294 mil mulheres à frente de negócios, 96% delas inseridas no universo das micro e pequenas empresas – e a criação de conteúdo entra nesse movimento quando deixa de ser vista apenas como presença digital e passa a ser reconhecida como pequeno negócio com CNPJ, receita e cadeia produtiva.
Marcas que pagam pouco, atrasam pagamentos ou tratam influência como permuta empurram criadoras para contratos do Sudeste. Quando o dinheiro sai de Pernambuco para comprar mídia, mas não remunera quem constrói comunidades no próprio estado, a economia criativa local perde força – retém menos talentos, forma menos cadeia produtiva e gera menos negócios.
A profissionalização dessas mulheres interessa ao ecossistema inteiro. Uma criadora que cresce pode contratar fotógrafo, filmmaker, designer, social media, contador, gestor de tráfego, editor, maquiador, produtor, assistente e consultor. Ao estruturar o próprio CNPJ, ela também movimenta uma rede. O negócio começa na imagem de uma pessoa, mas pode irradiar renda para uma comunidade.
Karla, que chegou ao Recife após circular por outros ecossistemas de empreendedorismo, vê potência e lacuna. Para ela, Pernambuco tem força cultural e criativa para mudar esse cenário, mas ainda carece de investimento estruturado em negócios liderados por mulheres negras.
O desafio é fazer com que empresas locais deixem de tratar diversidade como discurso institucional e passem a investir de forma concreta, estratégica e contínua nessas empreendedoras. A estrutura de apoio já existe – o movimento seguinte é do setor privado.
Por isso, a creator economy negra em Pernambuco precisa ser lida para além da lógica do like. A disputa não é apenas por aparecer no feed. É por capturar valor em uma cadeia que cresce mais de 22% ao ano, sair do lugar de estética de campanha e ser reconhecida como agente econômica, estratégia de conversão e força de mercado.
Bia, Eli e tantas outras não estão apenas produzindo vídeos. Estão estruturando pequenos negócios em um mercado que ainda não foi desenhado para elas. Quando uma mulher negra transforma audiência em renda, amplia a própria autonomia, movimenta fornecedores, inspira outras empreendedoras e faz circular dinheiro onde antes havia apenas reconhecimento simbólico.