Bairro do Recife vive novo "marco zero" de investimentos privados que prometem mudar a cidade
O adensamento econômico e tecnológico permitiu a regeneração de 220.000 m² de imóveis retrofitados, reunindo mais de 500 empresas na região
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O Bairro do Recife, hoje reconhecido como um dos principais polos de inovação do mundo, nem sempre ostentou esse vigor. Nos anos 80, a região enfrentava uma decadência da ocupação de imóveis, reflexo direto da transferência das atividades portuárias para SUAPE, que esvaziou economicamente o centro histórico. Estava ali posto o desafio que se mantém até hoje: ocupar e dar vida ao bairro mais antigo da cidade. A grande virada ocorreu com o lançamento do Porto Digital em 21 de julho de 2000, um projeto ousado que visava "conectar o que a gente vinha defendendo, que era a indústria de informática com a cultura de Pernambuco", explica o engenheiro e urbanista Cláudio Marinho, co-fundador do parque tecnológico.
Os anos se passaram e hoje o Recife Antigo é outro, embora ainda enfrente desafios. O investimento primordialmente privado permitiu a regeneração de 220.000 m² de imóveis retrofitados, um resultado que Marinho considera sem paralelos no País: "Eu conheço o Brasil todo... e eu não vejo nenhum lugar que tenha um projeto tão ousado e com resultados tão efetivos de regeneração urbana", celebra.
500 empresas e 24 mil empregos que dão vida ao Recife Antigo
Atualmente, o bairro conta com 113 bares, cafés, restaurantes e centros culturais, que florescerem para atender à imensa demanda de trabalhadores e visitantes que circulam diariamente pela região. Só no segmento tecnológico são mais de 500 empresas que geram 24.000 empregos. Gente que circula, sobretudo durante o dia, num bairro que parece ter vida própria. Um desses negócios, o Centro de Inovação e Conhecimento (Cesar), há 30 anos, foi o embrião da confluência entre entre a universidade e a demanda do mercado, dando origem ao ecossistema que se vê até os dias de hoje.
O processo evolutivo do Bairro do Recife continua sendo uma cadeia de aglutinação. As empresas de tecnologia puxaram a chegada de outros segmentos de negócios, garantindo um ciclo de investimentos privados vultosos em parceria com ações do poder público, que também passou a ver a revitalização da área com outros olhos.
"Nós tínhamos aqui só duas empresas de informática. Viemos pro Centro da cidade quando tinha uma disputa de lugares Já tínhamos a ideia de que o Centro era um lugar subaproveitado, em termos da sua qualidade histórica, e era uma oportunidade para conectar o que a gente vinha defendendo: a indústria de informática com a cultura de Pernambuco, com a história no Centro urbano, e não em qualquer outro lugar", define Marinho.
Cesar e Porto Digital seguem transformando o Bairro do Recife
Foi em julho de 2000 que o Porto Digital virou realidade. Mas havia, ainda nos anos 90, uma movimentação para a sua criação, que andava de mãos dadas com o movimento Mangue Beat, conectando o mundo à realidade local, seja pela cultura ou pela tecnologia que, sim, poderia ser produzida localmente a nível global. E o Cesar foi o responsável por, há 30 anos, transformar esse pensamento em investimento nas ruas da Ilha do Recife.
"Jarbas Vasconcelos (durante o seu governo) tinha visitado o Cesar ainda lá no Centro de Informática (na Universidade Federal de Pernambuco) e viu que tinha lá uns 100 meninos e meninas trabalhando, que criava-se emprego, e apostou na gente, em Silvio Meira e em mim. O Cesar foi e continua sendo uma organização sem fins lucrativos que cria empregos aqui no bairro Recife e é responsável por 15.000 m² de áreas retrofitadas de imóveis . Então, o impacto que a gente imaginava lá de revitalização, regeneração urbana, de atividades sustentáveis, cresceu. Eu sou um engenheiro e urbanista que defende a regeneração urbana com atração de atividades economicamente sustentáveis, porque senão você não consegue pagar a reforma e manutenção de imóveis históricos, não é? Essa equação não fecha, tem que ficar de pé como investimento imobiliário, por exemplo".
O pensamento de Marinho ecoa até hoje entre os negócios do Recife Antigo. A equação entre os investimentos necessários e a vida prolongada de negócios que ocupam o Centro Histórico é uma matemática que muitos empresários e empreendedores seguem tentando dominar.