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Brasil Negativado: Mais de 3,6 milhões de pernambucanos estão endividados e o problema é estrutural

Levantamento da Serasa aponta que metade da população adulta do estado carrega dívidas em atraso. Redução do endividamento depende de atacar as causas

Por Adriana Guarda Publicado em 14/05/2026 às 19:04

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Um a cada dois pernambucanos adultos está endividado. São 3,6 milhões de pessoas no estado com dívidas em atraso, o equivalente a 50,37% da população adulta, segundo o Mapa do Endividamento da Serasa Experian referente a abril de 2026. O número coloca Pernambuco inserido em um contexto nacional que não encontra paralelo na história recente do país.

O Brasil registrou, no início deste ano, o maior volume de inadimplentes de toda a série histórica da Serasa, com 82,8 milhões de CPFs negativados após mais de um ano consecutivo de alta. Para entender a dimensão do avanço, basta olhar a última década. Em 2016, o país contava com 59 milhões de inadimplentes. Em dez anos, esse contingente cresceu 38,1% e o valor total das dívidas avançou 176%. A dívida média por pessoa, já corrigida pela inflação, passou de R$ 5.880 para R$ 6.598.

Mais do que um programa emergencial

Fred Leal, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas do Recife (CDL Recife), sente o peso desse endividamento nas prateleiras e nos caixas do comércio recifense. "O primeiro quadrimestre deste ano já foi ruim, com uma queda de 10% no faturamento", revela. Para ele, o lançamento do Novo Desenrola Brasil, anunciado pelo governo federal no dia 4 de maio, é bem-vindo, mas insuficiente. "É importante porque dá um respiro a quem está endividado e injeta dinheiro na economia, mas não resolve o problema", afirma.

O programa federal dura 90 dias e atende pessoas com renda de até cinco salários mínimos. Cobre dívidas em modalidades como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal contraídas até 31 de janeiro de 2026, desde que estejam em atraso entre 90 dias e dois anos. Desde a primeira edição, em 2023, o

Desenrola beneficiou cerca de 15 milhões de brasileiros com a renegociação de aproximadamente R$ 53 bilhões em débitos. A nova versão permite ainda o uso de até 20% do saldo do FGTS para quitar dívidas e oferece juros máximos de 1,99% ao mês nas operações de crédito novo.

Para Leal, no entanto, o alívio pontual não substitui o enfrentamento das causas. "A questão é resolver a causa", diz ele, sintetizando a posição do setor produtivo recifense diante de um problema que, segundo a Serasa, já se mostrou crônico. Quatro em cada dez brasileiros inadimplentes em 2026 já estavam nessa mesma situação há dez anos.

As BETs entram na conta 

Na avaliação de Leal, fatores antigos e novos se combinam para manter o pernambucano endividado. Entre os estruturais, estão os juros altos, a renda insuficiente e o crédito ofertado sem critério. Mas o presidente da CDL Recife reserva palavras duras para um fenômeno mais recente. "As BETs estão destruindo as finanças dos brasileiros", afirma.

O alerta tem respaldo em pesquisas nacionais com impacto direto sobre o perfil do endividado pernambucano. Um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) em parceria com a FIA Business School, divulgado em março, apontou que as apostas esportivas online já são o principal fator de endividamento das famílias no Brasil, com impacto quase duas vezes maior do que o dos juros elevados. A cada aumento de 1% nos gastos com apostas, o endividamento das famílias cresce 0,23%.

Uma pesquisa da Serasa completa o retrato: 44% dos brasileiros endividados já apostaram com a esperança de quitar suas dívidas e acabaram acumulando ainda mais débitos. De janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência associada às BETs retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista, o equivalente ao faturamento dos Natais de 2024 e 2025 somados, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC).

Aposentados no limite do consignado

Outro ponto de preocupação levantado por Leal é o crédito consignado, modalidade com parcelas descontadas diretamente do benefício ou salário e que, por essa razão, costuma ser oferecida com facilidade a aposentados e pensionistas. "Os aposentados chegam a comprometer 30% de seus benefícios por cinco anos pagando parcelas", observa o dirigente.

O dado dialoga com uma mudança silenciosa no perfil nacional do inadimplente. Enquanto jovens entre 18 e 25 anos reduziram sua participação no total de endividados ao longo da última década, os maiores de 60 anos ampliaram significativamente sua fatia, passando de 12,23% do total em 2016 para quase 20% em 2026. É um envelhecimento da dívida que preocupa especialistas e que o comércio recifense já sente no dia a dia.

Ciclo que se repete

O dado mais revelador do Mapa da Inadimplência da Serasa talvez seja o da reincidência. Quatro em cada dez brasileiros inadimplentes em 2026 já estavam nessa condição há uma década. São cerca de 34 milhões de pessoas presas em um ciclo que programas emergenciais, por mais bem desenhados que sejam, não conseguem romper sozinhos.

Para Fred Leal, enquanto questões como juros, renda, educação financeira e regulação das apostas online não forem tratadas de forma integrada, o número de pernambucanos com o nome sujo continuará crescendo. "A questão é resolver a causa", repete. E, por ora, a causa ainda está longe de ser resolvida.

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