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Brasil Negativado: Endividamento piora e atinge recorde em 10 anos

Em 10 anos, inadimplência bate recorde no Brasil, se torna persistente e muda o perfil das famílias, pressionadas pelo custo de vida e pelo crédito

Por Adriana Guaarda Publicado em 14/05/2026 às 19:06 | Atualizado em 21/05/2026 às 14:20

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O salário cai, mas não fica na conta. Em poucas horas, desaparece entre débitos automáticos, parcelas acumuladas e contas atrasadas. Antes mesmo do mês começar, já falta. Essa cena, repetida em milhões de casas brasileiras, ajuda a explicar um fenômeno que deixou de ser exceção. O país atingiu, em 2026, o maior nível de inadimplência dos últimos 10 anos. Hoje, quase metade da população adulta está no vermelho.

Mais do que um aumento pontual, os dados mostram uma mudança de padrão. O brasileiro deve mais, demora mais a sair da dívida e, em muitos casos, volta para ela. O avanço da inadimplência ao longo da última década não se explica apenas pelo crescimento da população. Houve um aumento real no número de pessoas negativadas, no volume de dívidas e no valor devido.

Para o especialista em educação financeira da Serasa Experian, Fernando Gambaro, o cenário é resultado de uma combinação de fatores econômicos e comportamentais. "A inadimplência é causada por um conjunto de mudanças e fatores macroeconômicos externos, como a inflação, juros elevados, desaceleração do crédito e aumento do custo de vida. Além disso, existe também a influência de fatores sociais e comportamentais, como a falta de educação financeira", afirma.

O impacto aparece diretamente no orçamento das famílias. Segundo levantamento da Serasa, 70% dos brasileiros perceberam aumento no custo de vida no último ano, com destaque para gastos com supermercado, contas recorrentes e moradia.

"Esse avanço das despesas básicas pressiona o orçamento. Hoje, o custo médio mensal com mercados representa cerca de 25% da renda", diz o especialista.

Quando dever vira rotina

A dívida deixou de ser um evento isolado e passou a fazer parte da vida financeira do brasileiro. Com o orçamento pressionado, o crédito passou a ser utilizado como extensão da renda e não como ferramenta pontual. "Quando o crédito é utilizado como extensor da renda, o consumidor pode acabar passando por um efeito ‘bola de neve’ de dívidas", explica Gambaro.

Esse movimento ajuda a entender outro dado preocupante que é a reincidência. Uma parcela significativa dos inadimplentes já esteve nessa situação anos atrás. "Para além dos fatores externos, a falta de planejamento financeiro potencializa os riscos de reincidência", afirma.

Devendo para sobreviver

O perfil da dívida também mudou. Se antes o endividamento estava mais associado ao consumo, hoje ele avança sobre despesas básicas. Alimentação, moradia e contas do dia a dia passaram a ocupar mais espaço no orçamento. Para o economista Jorge Jatobá, o problema está diretamente ligado à renda. "Mais gasto gera mais dívida. Mais dívida gera mais juros. Mais juros pressionam ainda mais as contas", resume.

Segundo ele, mesmo com melhora em indicadores como emprego e renda, o impacto das dívidas continua limitando o consumo. "A renda disponível, após pagamento das dívidas, torna-se menor, comprometendo o consumo das famílias”, pontua.

Esse efeito já aparece na economia, com o volume de vendas no varejo seguindo estagnado, mesmo com algum crescimento da renda.

O crédito que salva também afunda

Ao mesmo tempo em que ampliou o acesso, o crédito também passou a ocupar um papel central no endividamento. A digitalização dos serviços financeiros facilitou a entrada de milhões de brasileiros no sistema, mas nem sempre com o preparo necessário. “A ampliação do acesso ao crédito nem sempre foi acompanhada por educação financeira suficiente”, destaca Gambaro. 

O cartão de crédito se tornou protagonista desse cenário. Segundo Jatobá, houve uma "explosão" no uso do instrumento, muitas vezes para cobrir despesas básicas. "O crédito rotativo, especialmente, tem taxas muito elevadas e contribui para o aumento da inadimplência", destaca o economista.

Mudança de perfil

Ao longo de uma década, a inadimplência também mudou de rosto. As mulheres passaram a ter maior participação, refletindo um movimento social importante. Elas estão cada vez mais no centro da responsabilidade financeira das famílias.

"Hoje, 49% das mulheres têm papel central no sustento da família, sendo que muitas são as únicas responsáveis pela renda", explica Gambaro.

As mudanças no perfil da dívida foram percebidas, ainda, no crescimento da inadimplência entre pessoas acima de 60 anos. Entre os fatores estão o aumento de fraudes e o hábito de emprestar o nome para terceiros, prática comum nessa faixa etária. "Essa atitude pode acabar levando à negativação quando o terceiro deixa de pagar a dívida", afirma.

Onde a dívida aperta mais

No Nordeste, o cenário acompanha a tendência nacional, mas com agravantes. A renda média mais baixa torna o impacto das dívidas ainda mais pesado. "Esses números são mais elevados porque a renda média do nordestino é quase 50% menor do que a média brasileira", explica Jatobá. Na região, bancos e cartões de crédito lideram o volume de dívidas, reforçando o peso do crédito no orçamento das famílias.

O limite do consumo

O avanço da inadimplência já começa a produzir efeitos mais amplos na economia. Com grande parte da renda comprometida, o consumo perde força e isso afeta diretamente o crescimento econômico.

"Quando a relação dívida/renda ultrapassa determinados níveis, o impacto do aumento dos salários sobre o consumo cai significativamente", observa Jatobá. Além disso, famílias têm recorrido à poupança ou antecipação de renda para pagar dívidas, o que compromete o futuro financeiro.

O que fazer

A perspectiva para os próximos meses ainda é de cautela. Mesmo com expectativa de redução gradual dos juros, o cenário segue pressionado pelo custo de vida e pela renda limitada. Jatobá destaca que não há solução simples. "Não é suficiente reduzir juros ou ampliar renegociações. É preciso atuar também na renda e na produtividade", acredita.

O especialista da Serasa defende que a educação financeira segue como peça-chave. "Fortalecer a educação financeira é um caminho importante para melhorar a gestão do orçamento, priorização de gastos e uso consciente do crédito", diz.

Um retrato do país

Mais do que um indicador econômico, a inadimplência virou um retrato do Brasil atual. Um país em que o crédito virou ferramenta de sobrevivência, a renda não acompanha o custo de vida e sair do vermelho já não depende apenas de esforço individual. A conta, no fim, simplesmente não fecha.

 

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