"Gente Que Constrói": empresários debatem trajetórias com estudantes do Cesar em lançamento de livro no Recife
João Carlos Paes Mendonça, presidente do Grupo JCPM e um dos 10 empreendedores entrevistados pelo livro, participou do evento de lançamento da obra
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Para marcar o lançamento do livro "Gente Que Constrói" no Recife, nesta terça-feira (5), dois dos dez empreendedores que contam suas trajetórias na publicação, os empresários João Carlos Paes Mendonça e Alfredo de Goeye, protagonizaram uma conversa com estudantes do Cesar School. As páginas da obra, organizada pelo banqueiro José Eduardo Martins e pela jornalista Mara Luquet, trazem histórias focadas nos obstáculos, tropeços e recomeços que raramente aparecem nas versões públicas de trajetórias.
As histórias
Mediada por Mara Luquet, a conversa aberta com os estudantes foi o centro do evento. A jornalista destacou o capítulo de João Carlos Paes Mendonça como um dos mais impactantes do livro.
O empresário sergipano, que tem 87 anos e comanda o Grupo JCPM, assumiu os negócios da família ainda adolescente, quando o pai se dedicou à política. Aos 20 anos, tornou-se sócio. Três meses e 22 dias depois, o armazém principal pegou fogo.
"Queimou tudo. Queimou o dinheiro, queimou a mercadoria. Essa história me impressiona muito", relatou Mara. Sem apólice de seguro, João Carlos tentou entrar no prédio em chamas para salvar o caixa do dia. O pai o puxou para fora. Segundos depois, o teto desabou. "Por questão de segundos ele não morre, mas você vê o desespero. E aí começar do zero, sabe?", acrescentou a jornalista.
Ao contar a história diretamente aos estudantes, João Carlos revelou que a reconstrução veio da solidariedade de concorrentes.
"Os meus concorrentes me forneceram mercadoria para pagar quando eu quisesse. E teve um que o preço tinha dobrado e ele me entregou pelo preço de custo. Isso chama-se solidariedade, não percam isso. Não percam o lado humano", disse, emocionado.
"O dinheiro não é tudo. O dinheiro deve ser um veículo para a gente viver bem, para ajudar o desenvolvimento da nossa terra, do nosso país, da nossa gente. Vocês são muito jovens, não se percam. Nós precisamos de vocês", completou.
Para João Carlos, a experiência resume o que significa empreender de verdade.
"Empreendedor é difícil. Você tem que arriscar, lutar, conquistar o mercado e ser julgado pela própria sociedade. O empreendedor que não tem o pensamento voltado para seus funcionários, para os seus clientes e para a sociedade como um todo, não é empreendedor, é um aproveitador", afirmou.
Alfredo de Goeye, fundador da Sertrading, também compartilhou sua trajetória com os estudantes. Seu maior desafio veio quando estava prestes a completar 50 anos: após divergências entre grupos de acionistas, deixou a empresa onde trabalhara por duas décadas e recomeçou sem capital significativo.
"Começamos do zero, com vontade e muita resiliência. Fui de tijolinho em tijolinho, sem nenhum business plan", disse. O resultado foi a Sertrading, que se tornou a maior trading brasileira do segmento e foi adquirida pelo BTG há cerca de dois anos.
O debate
A conversa também percorreu temas práticos levantados pelos próprios estudantes. Uma deles perguntou como empresários com agendas tão atribuladas conseguem se manter atualizados num mercado cada vez mais competitivo e veloz. Martins respondeu a partir da própria experiência e apontou dois pilares que considera inegociáveis.
"Duas coisas são muito importantes. Uma é organizar o seu dia. Quem não for organizado na vida, acho que é impossível ter tempo para qualquer coisa. E a outra é a priorização. É impressionante como se perde tempo com coisas inúteis. A internet faz parte disso, o Instagram, a mídia social", aconselhou.
Outro estudante trouxe uma questão sobre o cenário econômico, se valeria a pena empreender agora, com o cenário de Selic elevada e com menos gente disposta a correr risco. Martins, que tem larga experiência no mercado financeiro, fez uma distinção clara entre investir e empreender. Para ele, a taxa básica de juros não deve ser o critério para quem pensa em abrir um negócio.
"Empreender não tem esse timing. Quando nós montamos a nossa empresa, fomos três caras para uma salinha e começamos a trabalhar. Uma empresa bem administrada, que tem sucesso, ganha muito mais que os 15%. O ganho de capital é muito grande. Empreender vale a pena, independentemente da fase em que estamos", disse.
Ele acrescentou ainda um conselho sobre escala: "Quando você pensar em montar um negócio e ele se mostrar bom, vai para grandes mercados. Não vai para pequenos mercados."
A questão da alavancagem também entrou na conversa. Questionados sobre o uso de dívida para crescer, os empresários foram diretos. João Carlos Paes Mendonça contou que, no passado, tomou crédito do Banco do Nordeste para financiar a expansão do grupo - mas com cautela.
"Toda empresa que quer crescer tem que alavancar. Agora, tem que saber como alavancar", disse.
Com a Selic no patamar atual, porém, ele é categórico: "Hoje, graças a Deus, nós não somos mais alavancados. Chegamos à maturidade que não precisamos mais. Não tem pressa de crescer. Empresa grande não é empresa boa. Empresa boa é empresa boa. Empresa grande é empresa grande. Se não for boa, não é grande — é inchada."
E completou, com uma frase que arrancou reação da plateia: "Acima de tudo, tem que ser uma empresa ética, preocupada com as pessoas. Eu não sonego, eu não corrompo e não sou corrompido."
Martins reforçou o alerta sobre o momento atual.
"A 15% ao ano, nada vai ganhar dinheiro. Você pode alavancar no exterior, no momento correto em termos de taxa de juros, mas no Brasil hoje, quem estiver alavancado, se a taxa de juros continuar assim por mais alguns anos, tudo quebra", afirmou.
Já Alfredo de Goeye acrescentou que não há receita única, mas lembrou que a resiliência foi o denominador comum entre os dez entrevistados do livro.
"Vários quebraram algumas vezes, voltaram, quebraram, voltaram — e a persistência acabou premiando a maioria."
Outra questão de um estudante tratou sobre processos de fusão, aquisição e abertura de capital — e se os empresários estavam preparados quando essas oportunidades surgiram. Goeye foi o mais direto, apontando que a venda da Sertrading ao BTG o pegou de surpresa.
"Eu não sabia que a minha empresa era vendável. Não tinha histórico anterior no meu setor. A única pergunta que me fizeram na primeira conversa foi: se a gente comprar, vocês ficam? Falei: ficamos. Então vamos conversar", contou. As negociações duraram entre oito e nove meses.
"Quase caí de costas com a proposta, mas hoje, quase dois anos depois, estou cada vez mais satisfeito. Foi uma espécie de recompensa pelo legado que a gente construiu", complementou.
Martins, por sua vez, revelou que começou a auditar a empresa por volta do sétimo ou oitavo ano de operação — não necessariamente pensando em venda, mas por disciplina.
"Quando você achar que seu negócio deu certo, comece a estruturar processos e a auditar. Muitas empresas brasileiras perdem boas oportunidades de venda simplesmente porque não têm informação organizada para mostrar a um comprador", relatou.
Outra pergunta feita pelos estudantes foi sobre a importância da formação em administração num cenário cada vez mais dominado pela tecnologia.
Goeye foi enfático: "A formação do administrador é super importante para tocar os negócios. É a base de tudo — e esse grupo aqui está num setor importantíssimo, aliado à tecnologia."
Martins complementou, destacando que criatividade sem gestão não sustenta um negócio.
"Muita gente é criativa, monta um negócio bacana, mas não sabe administrar. Uma das coisas fundamentais é atrair talentos — pessoas melhores que você. No futuro, essa pessoa pode fazer sua sucessão ou redirecionar uma movimentação estratégica. E o administrador precisa sempre planejar. Nunca você vai acertar o futuro, mas planejar te ajuda a saber para onde está indo — e a perceber quando tem um muro te esperando no fim do caminho"
Por fim, um estudante do primeiro período quis saber: vale a pena já tentar empreender durante a faculdade, ou é melhor investir primeiro no conhecimento? Martins aconselhou paciência.
"O ideal é primeiro aprender um pouco por aí, entrar num time maior, conhecer gente melhor que você. Eu criei minha empresa aos 40 anos. É muito chato entrar num processo de empreendimento e depois voltar atrás."
Goeye reforçou que não há fórmula, mas que o conhecimento é insubstituível.
"A criação do conhecimento nessa fase da vida de vocês é a base de tudo e o diferencial que vocês vão ter no mercado. Agora, ter o espírito empreendedor é muito bom. Quando acontecer, vai em frente."
O livro
"Gente Que Constrói" nasceu de uma iniciativa de Martins, que passou quinze anos à frente de uma empresa em São Paulo antes de vendê-la a um banco suíço.
"O empresário só aparece na mídia quando surge algum rolo. Empresário não é isso. Para mim, é gente que constrói. É por isso que a gente botou esse nome", contou.
Mara Luquet conduziu as entrevistas e editou o material ao longo de um ano. As íntegras estão disponíveis em canal no YouTube, acessível por QR Code no livro. Todos os direitos autorais serão destinados ao Instituto Sol, organização voltada ao acompanhamento de jovens em situação de vulnerabilidade, com bolsas até a universidade e suporte até a entrada no mercado de trabalho.