Copom mantém taxa Selic em 15,0% ao ano, como esperado pelo mercado financeiro
A decisão reflete uma postura de cautela diante de um cenário global ainda incerto, influenciado pelas políticas econômicas nos Estados Unidos
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O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu no período da noite desta quarta-feira, 28, manter a taxa Selic em 15,0% ao ano, conforme previam 36 das 37 casas consultadas pelo Projeções Broadcast. A decisão do colegiado foi unânime.
Essa é a quinta reunião consecutiva em que a autarquia mantém o nível da Selic. Entre setembro de 2024 e junho de 2025, o BC aumentou a taxa em 4,50 pontos, o segundo maior ciclo de alta dos últimos 20 anos, perdendo apenas para a alta de 11,75 pontos entre março de 2021 e agosto de 2022, que ocorreu após o fim da pandemia.
A decisão reflete uma postura de cautela diante de um cenário global ainda incerto, influenciado pelas políticas econômicas nos Estados Unidos e por tensões geopolíticas que impactam as condições financeiras em mercados emergentes. No âmbito interno, o comitê observa uma trajetória de moderação no crescimento econômico, embora o mercado de trabalho continue demonstrando resiliência.
Apesar do arrefecimento observado nos índices de inflação mais recentes, os preços permanecem acima da meta estabelecida. As projeções do mercado, captadas pela pesquisa Focus, indicam inflação de 4,0% para 2026 e 3,8% para 2027, valores que ainda superam o objetivo oficial. No horizonte de política monetária do Banco Central, que atualmente foca no terceiro trimestre de 2027, a projeção situa-se em 3,2%.
INCERTEZAS PERSISTEM
A análise de riscos do Comitê aponta para incertezas em ambas as direções. Do lado da alta, preocupa a possibilidade de as expectativas de inflação permanecerem desancoradas por muito tempo, além de uma inflação de serviços mais persistente e o impacto de um câmbio depreciado. Por outro lado, uma desaceleração econômica global ou doméstica mais forte do que o previsto, juntamente com a queda nos preços das commodities, poderia atuar como um fator desinflacionário.
Mesmo com a manutenção da taxa em um nível restritivo, o Copom indicou uma mudança de rumo para o curto prazo. O colegiado afirmou que, caso o cenário esperado se confirme, pretende iniciar um processo de flexibilização da política monetária já na próxima reunião. Esse movimento será conduzido com serenidade, sendo que o ritmo e a magnitude dos eventuais cortes dependerão da evolução dos indicadores econômicos e da confiança no cumprimento das metas.
A decisão foi tomada de forma unânime pelos membros do Comitê, sob a presidência de Gabriel Muricca Galípolo. O grupo reafirmou seu compromisso com a estabilidade de preços, buscando ao mesmo tempo suavizar as flutuações na atividade econômica e fomentar o pleno emprego em um ambiente de alta incerteza.
REPERCUSSÃO
"A sinalização explícita de início do ciclo na próxima reunião, ainda que condicional, representa uma mudança relevante em relação à estratégia de comunicação adotada até aqui", disse o BTG em relatório.
"Pela primeira vez desde o encerramento do ciclo de aperto, o Copom passou a caracterizar o próximo estágio da estratégia como um processo de calibração do nível de juros, em um ambiente de inflação menor e com sinais mais evidentes de transmissão da política monetária", diz. "Ao mesmo tempo, o Comitê enfatizou que, mesmo com o início da flexibilização, manterá a restrição monetária adequada para assegurar a convergência da inflação à meta, destacando que o ritmo e a magnitude do ciclo dependerão da evolução do cenário", acrescentou.
O banco disse também que o Copom, ao mencionar no comunicado que prevê "iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião", adotou um tom mais inclinado ao corte de juros do que o mercado esperava, ainda que tenha feito a ressalva de que terá "serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo".
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) recebeu "com enorme preocupação" a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) de manter a taxa básica de juros em 15% ao ano. "A cautela, defendida pelo Banco Central, ignora a queda da inflação e os danos que o atual patamar da Selic causa à sociedade", segundo a CNI.
“O Banco Central deveria ter iniciado o ciclo de redução dos juros há muito tempo. Ao manter a Selic em nível insustentável, o Copom prejudica a economia, aprofundando a desaceleração do crescimento. É indispensável que a flexibilização da política monetária comece já na próxima reunião”, defende Ricardo Alban, presidente da CNI.
De acordo com a avaliação da CNI, ao manter os juros em 15%, o Banco Central desconsidera diversos sinais que tornavam possível a redução da Selic de forma imediata. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), por exemplo, subiu 4,26% em 2025; abaixo do teto de inflação (4,5%), e do IPCA de 2024 (4,83%).
JUROS NOS EUA
Nos EUA, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) manteve nesta quarta os juros inalterados na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, conforme amplamente esperado. A decisão, contudo, não foi unânime. Dois dirigentes com direito a voto - os diretores Stephen Miran e Christopher Waller - divergiram da maioria. Ambos defenderem um corte de 25 pontos-base.
O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, afirmou que a economia dos Estados Unidos expandiu-se a um ritmo sólido no ano passado e está entrando em 2026 com uma "base firme". "Embora os ganhos de emprego tenham permanecido baixos, a taxa de desemprego mostrou alguns sinais de estabilização e a inflação permanece um pouco elevada", disse Powell.
Ele reafirmou que os dirigentes do Fed seguem focados em atingir o duplo mandato, de máximo emprego e estabilidade dos preços. "Vemos a atual postura da política monetária como apropriada para promover o progresso em direção aos nossos objetivos de máximo emprego e inflação de 2%", afirmou.