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Após o caso Master, Haddad quer o Banco Central e não a CVM na fiscalização dos fundos

Uso de fundos de investimentos em fraudes está no centro das atenções desde que a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da operação Compliance Zero

Por Estadão Conteúdo Publicado em 19/01/2026 às 21:10

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O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse ontem que apresentou uma proposta ao governo para ampliar o perímetro regulatório do Banco Central. A ideia, segundo explicou, é colocar a regulação e a fiscalização de fundos - hoje feita pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) - nas mãos da autarquia.

O uso de fundos de investimentos em fraudes está no centro das atenções desde que a Polícia Federal (PF) deflagrou a segunda fase da operação Compliance Zero, mirando fraudes do Banco Master por meio de fundos da Reag Investimentos, na última quarta-feira. Um dia depois, na quinta, o BC decretou a liquidação extrajudicial da gestora.

"Hoje, existe uma intersecção muito grande entre fundos, as finanças, e isso tem impacto até sobre a contabilidade pública", disse Haddad, em entrevista ao portal UOL. "Tem muita coisa que deveria estar no âmbito do Banco Central e que está no âmbito da CVM - na minha opinião, equivocadamente. O BC tem que ampliar o seu perímetro regulatório e passar a fiscalizar os fundos."

Como mostrou o Estadão/Broadcast em junho de 2025, o BC queria aproveitar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65, que concede autonomia orçamentária e financeira à autarquia, para ampliar o seu perímetro regulatório. A proposta envolvia transferir a regulação prudencial do mercado de capitais ao BC, que já exerce esse papel em relação a instituições financeiras e de pagamento.

Segundo Haddad, a discussão atual sobre a ampliação do perímetro regulatório do BC envolve o próprio presidente da autarquia, Gabriel Galípolo, além dos ministérios da Gestão e Inovação e da Advocacia-Geral da União (AGU).

Haddad disse que Galípolo herdou o problema do Banco Master da gestão de Roberto Campos Neto, que segundo ele queria sabotar o atual governo.

‘GRANDE COMPETÊNCIA’

O ministro disse que convidaria novamente Galípolo para o Ministério da Fazenda e que indicaria seu nome de novo para o BC. Segundo ele, o atual chefe da autoridade monetária resolveu o problema do Master "com grande competência".

"Eu acredito que ele (Galípolo) herdou um problema que é o Banco Master. Todo ele constituído na gestão anterior. O Banco Master não cresceu na gestão atual. Mas nesse ano o Galípolo descascou o abacaxi", afirmou.

Segundo Haddad, é possível que o governo descubra algum vínculo com alguém "graúdo" da oposição pelas críticas que tem recebido. "Por que a oposição está fazendo isso? Está com medo do quê? O que eles estão com medo da fiscalização? Por quê? Qual é o sinal que eles estão dando? Pelo jeito, tem muita gente preocupada com o que nós estamos fazendo."

Na visão de Haddad, a desancoragem das expectativas de inflação foi, em grande parte, alimentada pela gestão Campos Neto, e que a transição de governo "não foi normal". Para ele, a gestão do governo anterior queria sabotar a atual. "Não foi uma transição normal. Vamos lembrar que é a primeira vez que a gente tem um presidente nomeado pelo governo anterior, que queria, o governo anterior, sabotar este governo. Trabalhou para sabotar o tempo inteiro."

HONESTIDADE

Haddad disse ainda que falta honestidade ao mercado e à oposição com relação aos dados fiscais do governo. "Uma coisa é a sua percepção, é a sua ideologia, a sua visão de mundo. Outra coisa, muito diferente, é número", disse, repetindo que sua gestão diminuiu o déficit em 70% ante o herdado do governo Bolsonaro e que o problema da dívida pública são os juros reais e não o resultado primário.

"Arrumar as contas não é só cortar, é também arrumar recursos para aquilo que estava estrangulado", disse ele, admitindo ficar feliz em ser lembrado como o ministro que taxou offshores, paraísos fiscais e dividendos.

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