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Deep fakes ameaçam base da democracia e reforçam papel do jornalismo, diz presidente da ANJ

Em entrevista à Rádio Jornal, Marcelo Rech diz que a imprensa profissional se torna mais decisiva diante da manipulação digital no ambiente eleitoral

Por JC Publicado em 02/01/2026 às 13:51

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A disseminação de deep fakes e de conteúdos manipulados por inteligência artificial ameaça corroer o principal alicerce da democracia — a existência de fatos compartilhados — justamente em um ano eleitoral. Diante desse cenário, o jornalismo profissional passa a ter um papel ainda mais central como certificador da realidade. O alerta é do presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, em entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal.

Segundo Rech, embora divergências políticas e ideológicas sejam naturais e saudáveis no regime democrático, elas só são possíveis quando há concordância mínima sobre o que de fato aconteceu. “Pode haver discussão sobre causas, responsabilidades e soluções, mas sobre o fato em si não pode haver dúvida. Se isso se perde, não é mais possível discutir os problemas e como resolvê-los”, afirmou.

Na avaliação do presidente da ANJ, as tecnologias de manipulação de imagem, áudio e vídeo tendem a ser usadas com mais intensidade em períodos eleitorais para criar “fatos que não existiram”, distorcer a realidade e produzir o que ele chama de “falsidades profundas”. Esse processo, diz, alimenta a lógica dos “fatos alternativos”, na qual diferentes versões da realidade competem sem que haja um parâmetro comum de verificação.

Ele pondera que, diante desse ambiente, é irreal esperar que a Justiça Eleitoral consiga regular integralmente o espaço digital em um país do tamanho e da complexidade do Brasil. “É ambicioso demais imaginar que seja possível controlar 100% das situações de manipulação e distorção”, disse. Mesmo com avanços legais — como a exigência de identificação de conteúdos eleitorais produzidos com uso de inteligência artificial — grande parte do material que circula nas redes é anônima ou disseminada por terceiros sem origem clara.

Para Rech, o principal antídoto contra a desinformação não é apenas a regulação, mas o fortalecimento das fontes que têm como missão verificar os fatos. “A melhor forma de combater a desinformação é ir a quem verifica a realidade, a quem tem como profissão a busca da verdade, a contextualização e a divulgação responsável de diferentes versões”, afirmou.

Nesse contexto, ele destacou o papel de veículos com trajetória consolidada. Citou como exemplos a própria Rádio Jornal e o Jornal do Commercio, entre outros, como referências que “não nasceram ontem”, foram construídas ao longo de décadas e mantêm compromisso público com a apuração e a credibilidade. Para ele, são esses veículos que seguem sendo a principal fonte de informação confiável num ambiente cada vez mais fragmentado.

O dirigente também alertou para uma estratégia crescente de ataques à imprensa que não se dirige apenas ao conteúdo das reportagens, mas aos próprios jornalistas e veículos. O objetivo, segundo ele, é desqualificar o mensageiro para neutralizar a mensagem. “Não se trata de crítica, que é saudável, mas de ataques sistemáticos de desqualificação, inclusive com assédio moral, agressões digitais e físicas, especialmente contra mulheres jornalistas”, afirmou.

Esses ataques, diz Rech, fazem parte de uma estratégia política para fazer prevalecer uma única versão dos fatos dentro de bolhas digitais, enquanto versões divergentes são desacreditadas. “A sociedade precisa entender que isso não é espontâneo, é uma técnica e uma estratégia em curso. E a imprensa tem o dever de alertar sobre isso.”

Na entrevista à Rádio Jornal, o presidente da ANJ reforçou que o fortalecimento do jornalismo profissional é parte da defesa da própria democracia, sobretudo em contextos eleitorais marcados por polarização, desinformação e uso político da tecnologia.

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