"Tem uma alma na música do Nordeste que é diferente", diz CEO do Grupo Sony Music Brasil
Fernando Cabral destaca identidade e capacidade de reinvenção da música nordestina, mas aponta que a indústria precisa ampliar presença na região
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Os gêneros, ritmos, linguagens e identidades da Região Nordeste assumiram um papel central na indústria fonográfica. Mais do que revelar novos artistas, a região tem ampliado sua influência sobre a música brasileira ao incorporar referências, recriar gêneros e preservar características próprias.
Para Fernando Cabral, CEO do Grupo Sony Music Brasil e pernambucano de origem, uma das principais mudanças dos últimos anos está justamente na descentralização da indústria. Se antes Rio de Janeiro e São Paulo concentravam boa parte das oportunidades, hoje um artista de qualquer região pode alcançar projeção nacional.
No caso do Nordeste, porém, ele identifica uma particularidade. A região consegue dialogar com tendências externas sem abrir mão da própria identidade.
Essa autonomia, segundo Cabral, está relacionada à capacidade dos artistas nordestinos de preservar suas referências enquanto incorporam elementos de outros gêneros. É nesse processo de mistura que, para ele, surgem algumas das transformações mais interessantes da música brasileira recente.
Fernando cita como exemplo a aproximação entre o sertanejo e elementos do forró, além do surgimento e da expansão do piseiro. Para ele, a música nordestina tem uma capacidade particular de absorver influências e, ao mesmo tempo, transformá-las.
“O Nordeste tem velocidade de recriar os próprios gêneros, integrar outros sons que estão vindo de outros lugares e renovar novos sons”, afirma, em entrevista ao Jornal do Commercio.
Hábitos de consumo
A dinâmica também se manifesta nos hábitos de consumo. Recife aparece como a capital brasileira que menos consome música sertaneja, segundo dados da Pesquisa Cultura nas Capitais, divulgada em 2025.
O estudo "Cultura no Espelho", realizado pela Globo em parceria com a Quaest, reafirma o dado, apontando o Nordeste como a região com menos influência do sertanejo e onde dominam o forró, o piseiro e o arrocha.
Para o executivo, olhar para a produção nordestina apenas pela perspectiva dos gêneros tradicionais não é suficiente.
Essa relação com a própria cultura é, na visão de Cabral, uma das características mais marcantes dos artistas nordestinos. Elementos como a sanfona e o acordeon continuam presentes e são incorporados a diferentes linguagens musicais.
“Os artistas do Nordeste não negociam a sua essência, não dão as costas para o lugar de onde são. Tem uma alma na música do Nordeste que é diferente”, diz.
Desafios
O crescimento da música nordestina não significa, no entanto, que a indústria tenha superado as diferenças entre as regiões. Fernando Cabral considera que ainda existe falta de conhecimento e de reconhecimento sobre a produção musical nordestina em determinados setores do mercado.
“Eu acho que falta ainda um pouco, em certas áreas da indústria, conhecimento e apreciação pela música do Nordeste”, afirma.
Um dos caminhos, avalia, é fortalecer a própria indústria na região, criando condições para que a produção, a contratação e o desenvolvimento de carreiras também aconteçam nos estados nordestinos. “A música do Nordeste tem um lugar no exterior, mas precisamos estar mais presentes na região”.
A questão, portanto, não seria apenas ampliar o alcance de artistas nordestinos, mas reconhecer a região como um mercado com características próprias e capacidade de produzir tendências.
Em 2026, o Grupo Sony Music Brasil prevê projetos com artistas ligados à cena nordestina, entre eles Raí Saia Rodada, Henry Freitas, Raphaela Santos e Mestrinho.