Estátuas que falam: no Recife, projeto dá voz a poetas pernambucanos em experiência imersiva
Pelo celular, versos e histórias ganham vida em um percurso que une tecnologia, patrimônio e memória pelas ruas da capital pernambucana
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Diante da estátua de Ascenso Ferreira, no Cais da Alfândega, basta apontar o celular para ouvir o poeta ganhar voz. Mais adiante, na Rua do Bom Jesus, Antônio Maria também deixa o silêncio do bronze para declamar versos e contar histórias.
A experiência faz parte do Circuito Digital da Poesia, projeto desenvolvido pelo pernambucano Vladimir Barros, pesquisador da CESAR School, que une patrimônio, arte e tecnologia para aproximar o público da obra de poetas pernambucanos.
A proposta é transformar as esculturas em pontos de encontro entre cultura, memória e tecnologia.
Por meio de dispositivos móveis e recursos de realidade aumentada, o visitante pode acessar poesias, biografias e informações sobre os homenageados enquanto percorre lugares históricos da capital pernambucana.
O circuito funciona por geolocalização. À medida que se aproxima das esculturas, o usuário desbloqueia conteúdos e recebe “recompensas”, em uma dinâmica inspirada na lógica dos jogos. Cada parada revela um pouco mais da história dos poetas e do próprio Recife.
No percurso, o cronista e compositor Antônio Maria (1921 – 1964) é encontrado na Rua do Bom Jesus, enquanto o poeta Ascenso Ferreira (1895 – 1965) está no Cais da Alfândega. Os lugares onde as esculturas estão instaladas deixam de ser apenas cenários e passam a integrar a narrativa construída pelo aplicativo.
“A ideia é que a estátua vire um agente cultural da cidade. Você tem a possibilidade de entender e aprender mais sobre a história daquele poeta, bem como o local onde aquela estátua está inserida dentro do dia a dia da cidade”, explica Vladimir.
Reconhecido em eventos e editais nacionais e internacionais, o projeto faz dos versos, personagens e histórias parte essencial da cidade.
“É uma forma da gente homenagear e salvaguardar a cultura pernambucana e a história desses poetas que contaram muito a nossa história”, aponta o pesquisador.
Memória deteriorada
Apesar de projetos como o Circuito Digital da Poesia, em esquinas, praças e calçadas do Recife, monumentos já apresentam sinais de desgaste e falta de revitalização.
É o caso das esculturas de Ascenso Ferreira e Miró da Muribeca, na Avenida Rio Branco. A primeira apresenta sinais de desgaste nas pernas, enquanto a segunda já está sem dois dedos.
Os danos à estátua de Ascenso Ferreira não são recentes. Em 2014, o monumento foi encontrado com o rosto quebrado, além de avarias no corpo e nos livros que ficam ao lado da escultura.
Em nota, a Prefeitura do Recife, por meio da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), informou que não há periodicidade fixa para os restauros, ou seja, os serviços de manutenção e revitalização das estátuas do Circuito da Poesia são executados conforme a necessidade identificada em cada monumento, considerando fatores como desgaste natural e atos de vandalismo.
A gestão municipal destacou, ainda, que em 2023, foram investidos cerca de R$ 2 milhões para revitalizar estruturas que sofreram atos de depredação do patrimônio público, incluindo pichações. “Esse montante seria o suficiente para construir uma Upinha por ano”, diz o texto.
Para Vladimir, um dos desafios para a implementação do Circuito Digital da Poesia é o fortalecimento da relação com o poder público.
“É preciso fazer uma construção coletiva envolvendo gestores para fazer com que esse projeto se torne viável e que seja desenvolvido no bairro do Recife”, destaca.