"Agora eu vou estar no outro lado da moeda", reflete Lucas Barros ao estrear na ficção
Depois de anos recomendando livros nas redes, influenciador pernambucano lança "Amanhã eu morri sozinho" e fala sobre vulnerabilidade e saúde mental
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Durante anos, Lucas Barros apresentou livros para milhares de pessoas nas redes sociais, onde se consolidou como uma referência para leitores. Entre recomendações de romances, análises de personagens e indicações de leitura, construiu uma comunidade interessada em descobrir novas histórias.
Agora, a lógica se inverte, já que o lançamento de "Amanhã eu morri sozinho", nesta segunda-feira (3), faz o escritor pernambucano ocupar, pela primeira vez, o lugar de autor.
"Agora eu vou estar no outro lado da moeda", resume, em entrevista ao Jornal do Commercio.
Apesar da familiaridade com a exposição nas redes, publicar um livro significou lidar com uma vulnerabilidade diferente, segundo ele. Ao contrário dos vídeos e resenhas, um romance carrega uma intimidade difícil de esconder. Lucas conta que sempre escreveu, mas por muito tempo manteve os textos apenas para si, receoso de expor esse seu lado ao público.
Entre o leitor e o escritor
A estreia na ficção também representa uma mudança de perspectiva para quem passou anos formando leitores na internet. Acostumado a analisar obras de outros autores, Lucas agora se vê diante da expectativa de acompanhar interpretações, críticas e diferentes leituras sobre a própria história. O receio, no entanto, não influenciou o processo de escrita.
O autor afirma que decidiu escrever sem pensar em um público específico. Para ele, imaginar quem estaria do outro lado da leitura poderia o “proibir de muitas coisas". Barros conta que o sentimento é de que o livro foi escrito em um lugar de muita coragem.
Embora "Amanhã eu morri sozinho" seja uma obra de ficção, Lucas acredita que todo escritor acaba deixando marcas pessoais no que escreve. Mais do que reproduzir experiências, a literatura permite transformar vivências suas e de pessoas próximas em personagens, conflitos e narrativas, sem a obrigação de revelar onde termina a realidade e começa a invenção.
"Todo autor coloca um pouco de si no que escreve porque está saindo de dentro da gente."
A história sobre ausências
Embora a ausência do pai seja o ponto de partida, Lucas Barros afirma que o romance nunca pretendeu se limitar a esse tema. Ao longo das 256 páginas, Caetano, protagonista do interior de Pernambuco, atravessa diferentes fases da vida enquanto tenta lidar com as marcas deixadas pelo bullying, pela relação com o próprio corpo e pela descoberta da sexualidade.
Antes mesmo de compreender o significado da ausência paterna ou de desenvolver uma relação com o próprio corpo, Caetano é levado a enxergar essas questões a partir da violência e do julgamento de outras pessoas.
"Caetano descobriu que não tinha pai antes de ele saber o que era ‘pai’. Da mesma forma que descobre que ele é uma criança gorda e que isso é algo negativo para as outras pessoas."
Para Barros, a forma como uma criança conhece determinada característica sobre si pode influenciar a maneira como carregará essa experiência pela vida inteira. O escritor acredita, porém, que o romance também procura mostrar que nenhuma pessoa é definida apenas pelos próprios traumas.
Os silêncios do corpo masculino
Entre os temas abordados pelo romance, um dos mais pessoais para Lucas Barros é a relação dos homens com os transtornos alimentares. O autor conta que decidiu incluir a bulimia na trajetória de Caetano por sentir falta de referências quando viveu experiências semelhantes durante a adolescência.
Segundo ele, encontrar personagens masculinos que enfrentassem esse distúrbio era praticamente impossível. A ausência dessas narrativas fez com que enxergasse na literatura uma oportunidade de ampliar uma conversa ainda cercada por silêncio.
"Escrever sobre transtornos alimentares foi a parte mais difícil do livro. Muitos homens convivem com isso, mas não falam sobre o assunto."
Um livro que continue
Lucas Barros evita dizer o que espera que o leitor conclua ao fechar "Amanhã eu morri sozinho". Em vez de uma resposta pronta, prefere imaginar que cada pessoa encontrará um significado próprio para a história, assim como acontece com os livros que mais o marcaram.
"Os livros que mais marcaram a minha vida foram os que continuaram comigo depois que eu terminei. Talvez seja isso que eu espero que aconteça: que a minha escrita continue. Livre."