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Memória de Naná Vasconcelos é resgatada em projeto que reúne acervo inédito

Pesquisa vai catalogar itens do acervo do percussionista, reunir documentos e servir de base para documentário e álbum com músicas inéditas do músico

Por Laís Nascimento Publicado em 01/08/2026 às 21:06

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Quase dez anos após a morte de Naná Vasconcelos (1944-2016), a memória de um dos maiores músicos da história do Brasil começa a ganhar uma estrutura permanente de preservação.

Instrumentos, figurinos, fotografias, manuscritos, gravações inéditas e centenas de documentos que ajudam a contar a trajetória do percussionista pernambucano serão organizados, catalogados e digitalizados em um projeto inédito que pretende impedir que parte desse patrimônio cultural se perca.

A primeira etapa do projeto "Naná – Um Griô Pelo Mundo" está sendo executada pela Fundação Apolônio Salles de Desenvolvimento Educacional (Fadurpe), vinculada à Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

O trabalho teve início em julho deste ano e segue até fevereiro de 2027, tendo como base o Museu de Artes Afro-Brasil Rolando Toro (Muafrope), na área central do Recife.

Ao final dessa fase será criado um banco de dados que servirá de referência para pesquisadores e para a produção de um documentário sobre a vida e a obra do artista, que completaria 82 anos neste domingo, 2 de agosto.

Sob a guarda e curadoria de Patrícia Vasconcelos, viúva do músico, o acervo reúne figurinos, instrumentos de diferentes partes do mundo, partituras, composições inéditas, prêmios, fotografias, recortes de jornais, correspondências, documentos pessoais e registros audiovisuais de apresentações realizadas ao longo de décadas de carreira.

Eduarda Nóbrega/JC
Patrícia Vasconcelos, viúva de Naná e curadora do acervo do percussionista - Eduarda Nóbrega/JC

Durante anos, porém, esse patrimônio permaneceu sem uma estrutura capaz de garantir sua conservação. Patrícia tornou-se a principal responsável por manter viva a memória do artista enquanto buscava apoio para preservar o conjunto.

“Sozinha eu não faria nada. Esse acervo e essa memória têm que ser cultivados como um momento de celebração e de reflexão. Naná precisa ter um memorial físico, de um museu, a obra de Naná pede isso e estou na luta para que esse legado seja mais respeitado”, afirma.

Além da organização do acervo, Patrícia revela que as composições inéditas deixadas pelo percussionista deverão dar origem ao álbum "Um Budista Afrobudista", com regência do Maestro Jardim.

"Tudo isso precisa ser acolhido e divulgado".

Redescobrindo um legado

Eduarda Nóbrega/JC
Milhares de itens do acervo de Naná Vasconcelos estão sendo catalogados - Eduarda Nóbrega/JC

Entre baquetas, flautas, berimbaus, cuícas e instrumentos construídos a partir de objetos do cotidiano, o acervo revela a criatividade de um músico que transformou utensílios domésticos em linguagem sonora e levou a percussão brasileira aos principais palcos do mundo.

Reconhecido pelo domínio dos instrumentos de percussão, Naná também fazia da voz e do próprio corpo parte de suas composições, rompendo fronteiras entre música popular, erudita e experimental.

A pesquisa prevê o levantamento de acervos públicos e privados no Brasil e no exterior, entrevistas, análise documental, elaboração de uma linha do tempo da carreira do músico e consultorias especializadas nas áreas de música, cultura brasileira e preservação patrimonial.

Depois de catalogado, todo o material será digitalizado para consulta de pesquisadores e para integrar o acervo pessoal do artista.

Ao todo, 25 profissionais participam da iniciativa. Nesta primeira fase, a equipe trabalha no arrolamento dos materiais — identificando o conteúdo de fitas e outros suportes — e na catalogação, que registra o estado de conservação de cada peça.

Eduarda Nóbrega/JC
Ao todo, 25 profissionais estão preservando acervo de Naná - Eduarda Nóbrega/JC

Os trabalhos são coordenados pela professora Manoela Lima, do Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenadora do Laboratório de Conservação Preventiva da instituição.

"Esse acervo precisa ser visibilizado o máximo possível e precisamos mobilizar o poder público para entender a dimensão do legado de Naná e a dimensão do da vulnerabilidade que eles que o acervo se encontra nessa parte física", afirma.

Segundo a pesquisadora, a preservação do acervo também provoca uma reflexão sobre o tratamento dado aos patrimônios ligados à cultura afro-brasileira e o racismo estrutural.

Precisamos pensar em como os acervos que tratam da cultura afro-brasileira são negligenciados
Professora Manoela Lima

A pesquisa seguirá critérios de acessibilidade, permitindo que o conteúdo produzido possa subsidiar futuras ações educativas e culturais.

Integrante da equipe, o museólogo Ícaro Cavalcanti destaca que o projeto também representa uma corrida contra o tempo. Parte significativa do acervo está armazenada em fitas VHS, Betacam, CDs e DVDs, suportes sujeitos à deterioração.

“Estamos junto a universidade ensinar para eles esse processo, porque Naná também tinha essa essa questão do ensinar”, pontua.

Ao longo dos próximos meses, a equipe realizará pesquisas nacionais e internacionais, organizará cronologicamente a trajetória do músico, produzirá um documento analítico sobre o acervo e desenvolverá um book de apresentação do projeto.

Para a secretária-executiva da Fadurpe, Ellen Viegas, preservar o legado de artistas como Naná significa garantir a permanência de uma parte fundamental da identidade cultural brasileira.

“Quando preservamos a história de um artista como Naná Vasconcelos, preservamos também parte da nossa identidade. A Fadurpe acredita que a pesquisa e a organização desse acervo são fundamentais para manter vivo um legado que continua inspirando o Brasil e o mundo”, destaca.

Patrimônio pouco conhecido

MICHELE SOUZA/JC IMAGEM
Naná Vasconcelos foi o brasileiro mais premiado no Grammy, com oito estatuetas - MICHELE SOUZA/JC IMAGEM

"O Brasil que não conhece o Brasil", dizia Naná Vasconcelos. Reconhecido como um dos maiores percussionistas do mundo, o recifense colecionava premiações, reconhecimentos e parcerias com os maiores nomes da música.

Naná foi o brasileiro mais premiado no Grammy, com oito estatuetas, e foi eleito nove vezes o melhor percussionista do mundo pela "Down Beat", revista de jazz norte-americana.

"O primeiro instrumento é a voz e o melhor é o corpo", dizia.

Nascido no Recife, Juvenal de Holanda Vasconcelos aprendeu a tocar quase todos os instrumentos de percussão.

Maria Bethânia, Gal Costa, Milton Nascimento, Zeca Baleiro, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo, Caetano Veloso, Fagner e Egberto Gismonti são alguns dos artistas que já firmaram parceria musical com Naná.

"Nosso filme quer mudar isso e mostrar para o mundo o poder, a originalidade e a linda trajetória desse pernambucano que é um dos maiores músicos do planeta. Essa primeira etapa do nosso trabalho vai aprofundar a nossa pesquisa dando material importante e fundamental para o primeiro tratamento do roteiro", comentou Patricia Palumbo, coordenadora do projeto.

O pernambucano já morou no Rio de Janeiro, Paris e Nova York, cidades para onde levou a cultura pernambucana e os ritmos do carnaval do Recife e de Olinda. Em 1999, voltou a morar no Recife, assumindo a abertura do Carnaval na década de 2000.

SÉRGIO BERNARDO/JC IMAGEM
Naná Vasconcelos estaria completando 82 anos se estivesse vivo - SÉRGIO BERNARDO/JC IMAGEM

“Nana não é só um artista carnavalesco. O carnaval foi que convidou e trouxe ele pro universo do carnaval, o que foi maravilhoso e deu uma visibilidade aos maracatus como nunca tinha tido antes. Mas o trabalho dele é muito maior com o erudito: ele levou o berimbau para a orquestra e tocou com os grandes pelo mundo”, destaca o designer e jornalista Augusto Lins Soares, que organizou a fotobiografia “Naná - Do Recife para o Mundo” e mergulhou nos registros do percussionista.

Mais do que preservar objetos, o projeto busca garantir que a trajetória de um artista decisivo para a música brasileira continue acessível às próximas gerações e ocupe o lugar de destaque que conquistou nos palcos do mundo.

Citação

Precisamos pensar em como os acervos que tratam da cultura afro-brasileira são negligenciados

Professora Manoela Lima

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Laís Nascimento

laisnascimento@jc.com.br

Jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é repórter de cidades e urbanismo.