Cannes 2026: filmes sobre guerra e autoritarismo marcam festival e produções brasileiras são premiadas
Edição foi marcada por narrativas sobre guerra, conservadorismo, polarização política e avanço da extrema direita, especialmente na principal mostra
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A 79ª edição do Festival de Cannes, realizada entre os dias 12 e 23 de maio, na França, foi marcada por filmes atravessados por temas como guerra, conservadorismo, polarização política e avanço da extrema direita.
Considerado um dos eventos mais prestigiados do cinema mundial e um termômetro para o Oscar, o festival reuniu cineastas, atores e críticos em uma edição de forte tom político.
O cinema brasileiro também teve espaço de destaque, com produções premiadas em mostras paralelas e iniciativas do mercado audiovisual.
Já as produções europeias dominaram a principal mostra competitiva, com narrativas sobre conflitos políticos, polarização, autoritarismo e conservadorismo. A temática guerra ganhou novos contornos nos filmes, como histórias refletidas na contemporaneidade, sob a lente da masculinidade e dos valores sociais.
Além das discussões presentes nos filmes, Cannes também foi palco de manifestações políticas.
O diretor espanhol Pedro Almodóvar usou um broche “Palestina Livre” durante uma coletiva de imprensa e criticou os presidentes Donald Trump e Benjamin Netanyahu.
“Sobretudo como europeus, estamos também obrigados a nos transformar em uma espécie de escudo contra esses monstros como Trump, Netanyahu ou o russo. Na Europa existem leis, então o Trump deve saber que existe um limite para todos os seus delírios e loucuras”, afirmou o cineasta.
Palma de Ouro reforça tom político
A Palma de Ouro, principal prêmio do Festival de Cannes, ficou com “Fjord”, do diretor romeno Cristian Mungiu. O longa recebeu críticas positivas e 12 minutos de aplausos, consolidando o histórico do cineasta no festival, que já havia vencido a Palma de Ouro em 2007 com “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”.
Em “Fjord”, um casal pentecostal romeno-norueguês se muda para uma vila remota e passa a enfrentar conflitos entre valores conservadores, liberdade religiosa e proteção infantil. O filme reforça uma das principais tendências desta edição: narrativas sobre choque ideológico e disputas morais em sociedades contemporâneas.
Cristian Mungiu também já conquistou os prêmios de Melhor Roteiro, em 2012, por “Além das Montanhas”, e Melhor Direção, em 2016, por “Bacalaureat”.
Na edição anterior do festival, o vencedor da Palma de Ouro, “Foi Apenas um Acidente”, chegou ao Oscar com indicações a Melhor Filme Internacional e Melhor Roteiro Original.
Filmes sobre guerra e autoritarismo
Entre os filmes mais comentados da edição esteve o espanhol “La Bola Negra”, vencedor do prêmio de Melhor Direção para Javier Calvo e Javier Ambrossi.
O longa recebeu a segunda maior ovação da história do festival, com 20 minutos de aplausos, e se baseia em obras do poeta Federico García Lorca para acompanhar histórias de homens gays conectados pelo desejo e pela dor em diferentes períodos históricos.
Outro destaque foi “Minotaur”, do russo Andrey Zvyagintsev. Ambientado durante a guerra na Ucrânia, o longa acompanha o colapso de um casamento da elite russa enquanto retrata a decadência moral do país.
Já “The Unknown”, do francês Arthur Harari, foi recepcionado com aplausos de nove minutos na estreia. O thriller gira em torno de um fotógrafo que cruza com uma entidade e troca de corpo com uma mulher com quem teve um encontro.
Cinema brasileiro conquista prêmios
Mesmo fora da disputa pela Palma de Ouro, o cinema brasileiro teve produções premiadas em Cannes 2026.
O longa “Carolina Maria de Jesus”, dirigido por Jeferson De, foi um dos vencedores do programa Goes to Cannes, vitrine do Marché du Film para promover projetos em desenvolvimento no mercado internacional.
Baseado no livro “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, o filme tem roteiro de Maíra Oliveira e acompanha a vida da escritora na Favela do Canindé, em São Paulo, marcada pela luta contra a fome, a pobreza extrema e o racismo estrutural.
Estrelado por Maria Gal, o longa recebeu elogios do júri pelo protagonismo feminino e negro, além da atuação da atriz principal.
Outra produção brasileira premiada foi o curta “Laser-Gato”, coprodução entre Brasil, Estados Unidos e Reino Unido, e dirigida por Lucas Acher. O filme venceu o principal prêmio da mostra La Cinef, dedicada a revelar novos talentos de escolas de cinema do mundo inteiro.
Filmado em São Paulo, o curta mistura suspense, humor e realismo fantástico ao acompanhar um adolescente que atravessa a capital paulista na tentativa de salvar um gato.
Lista dos principais vencedores do Festival de Cannes 2026
- Palma de Ouro: “Fjord”
- Grand Prix: “Minotaur”
- Prêmio do Júri: “The Dreamed Adventure”
- Melhor Diretor: Javier Calvo e Javier Ambrossi (“La Bola Negra”) e Pawe Pawlikowski (“A Terra do Meu Pai”)
- Melhor Atriz: Virginie Efira e Tao Okamoto (“All of a Sudden”)
- Melhor Ator: Emmanuel Macchia e Valentin Campagne (“Coward”)
- Melhor Roteiro: “Notre Salut”
- Câmera de Ouro (filme de estreia): “Ben'imana”