Ave Sangria será indenizada por disco censurado na ditadura militar
Censura por faixa lançada em 1974 tinha como justificativa o "atentado à moral e aos bons costumes" por causa de letra que falava de amor por um homem
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A banda pernambucana Ave Sangria, que teve um disco censurado pela ditadura militar em 1974, será indenizada pelo Estado brasileiro. A decisão foi aprovada pela Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania na última quinta-feira (26).
Uma das bandas icônicas de psicodelia do estado, Ave Sangria sofreu repressão quando lançou a faixa "Seu Waldir", que narrava uma paixão de um homem por outro mais velho.
A censura veio dos setores conservadores, visto que a ditadura classificava relações homoafetivas como "atentado à moral e aos bons costumes". Na época, todos os discos foram recolhidos das lojas.
Segundo o conselheiro da Comissão de Anistia, Manoel Moraes, o processo reuniu provas das perseguições sofridas pelos músicos do grupo, o que levou à indenização vitalícia de R$ 2.000 por mês, mais o retroativo desde a data do protocolo. Para ele, os valores não reparam os danos causados pela ditadura militar à banda.
"A interrupção da carreira deles é um dano irreparável. Então, na verdade, o que aconteceu aqui foi o reconhecimento público e o pedido de desculpas pelos atos de exceção praticados contra esses integrantes e contra a cultura popular, disse Moraes.
O conselheiro lembrou que a música deles buscava construir uma alternativa crítica a tudo aquilo que a sociedade na época vivia, que era o cerceamento da liberdade, a falta de democracia. Segundo Marco Polo, vocalista e compositor da Ave Sangria, a notícia da anistia trouxe emoção e alívio.
"Embora eu achasse que aquele episódio já estava soterrado, no fundo talvez ainda sentisse um pouco do trauma que foi a proibição do nosso disco e que levou à destruição da banda. É claro que não temos mais a juventude de volta, nem o dinheiro que ganharíamos se tivéssemos continuado com a carreira, mas mesmo assim é uma boa notícia saber que haverá uma remuneração econômica", contou.
Em 2019, a Ave Sangria lançou o segundo disco, 45 anos depois do primeiro, com Marco Polo e Almir de Oliveira da formação original.
"Retornamos aos palcos depois de tanta emoção, aliviados de tudo isso que aconteceu. A reparação financeira é importante. Porém, esse reconhecimento dos danos causados e a justiça que foi feita é o nosso maior legado neste momento. Deixo aqui um abraço para todos e todas vocês, e a certeza de que a democracia deve ser preservada agora e para sempre, para que novos episódios como esse não venham causar tantos danos ao povo brasileiro", destacou Almir.
Em 2023, a banda Ave Sangria se tornou Patrimônio Cultural Imaterial do Recife.