Olinda 491 anos: cidade patrimônio reúne cenários de cinema entre ladeiras, mosteiros e carnaval
Paisagem da cidade revela vocação cinematográfica refletida no sentimento de pertencimento e no fortalecimento da identidade da população
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Da agitação das ladeiras do Sítio Histórico ao silêncio dos mosteiros, a cidade Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela UNESCO desde 1982 coleciona memórias que criam roteiros de cinema.
A paisagem de Olinda, que completa 491 anos neste 12 de março, revela uma vocação cinematográfica refletida no sentimento de pertencimento e no fortalecimento da identidade da população.
Em Olinda, religião e festividade convivem com a história de resistência e o simbolismo da arte como forma de expressão popular.
Títulos como “Tatuagem” (2013), dirigido por Hilton Lacerda, e “Aitaré da Praia” (1925), de Gentil Roiz e Ary Severo, marco do Ciclo do Recife, trazem a cidade como parte emblemática do cenário urbano e cultural de Pernambuco.
Para o historiador Bráulio Moura, além dos monumentos e casarios emoldurados pela orla, o cenário da cidade é marcado pelo misticismo de lugares como o Casarão Mirante São Francisco, conhecida como a Casa dos Leões.
“Além da nossa gente, a cidade é linda e histórica e tem paisagens incríveis, que vão desde centros históricos até a periferia. [Na Casa dos Leões] temos a história curiosa de um inquilino que criou leões no quintal na década de 1980, já foi cenário de filmes como ‘Tatuagem’. A casa tem uma aura misteriosa, chamativa, fascinante. Dá cenários de terror, suspense, comédia, luxo ou romances”, reflete.
Carnaval em cena
O ciclo carnavalesco de Olinda é uma das principais evocações ao cinema, com a capilaridade da cultura popular e o envolvimento de moradores e visitantes.
Tem gente talentosa, criativa e inovadora, que pensa e há muito tempo faz arte, teatro e cinema, produzindo e atuandoBráulio Moura, historiador
No Sítio Histórico, a tradição se reúne com o contemporâneo, com diferentes ritmos e espaços, como o traçado urbano que conserva o estilo colonial, visível nas fachadas coloridas, nos azulejos e nos cobogós.
Esse cenário aparece em obras como “Era Uma Vez Eu, Verônica” (2012), dirigido por Marcelo Gomes, especialmente em sequências relacionadas com o Carnaval.
É em um dos espaços que mais pulsa energia e cultura de Olinda, os Quatro Cantos, que o aposentado Caio José de Oliveira Siqueira vive há 38 anos.
“Eu adoro essa cidade, principalmente por ser uma área de sítio histórico e pelas festividades. Tem uma preservação e um cuidado especial”, conta.
Caio José espera que a preservação das belezas da cidade se torne política pública. “Para mim representa um patrimônio histórico que tem que ser preservado. A gente espera que a prefeitura se dedique mais à limpeza pública, à vigilância e aos cuidados da cidade, como problema de saneamento básico”, pontua.
Atual presidente da Troça Carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos, grupo que celebra o Carnaval por Olinda há quase oito décadas, Hermes Filho fala sobre seu sentimento pela cidade.
“Olinda tem um significado para mim de amor, paixão e família. É onde a gente construiu e tem um laço de amizade enorme. Tem a Pitombeira e as agremiações que a família da gente sempre fez parte”.
Sagrado como pano de fundo
A presença de monumentos sagrados marcantes em Olinda faz parte, para o historiador Bráulio Moura, da tendência da paisagem para o cinema.
“São muitos ambientes cheios de cenários inspiradores, símbolos, significados, fé e arte como o Convento de São Francisco, primeiro convento franciscano do Brasil, fundado em 1585, destruído pelos holandeses em 1631 e reconstruído após a expulsão destes, a Capela de Sant'Ana, a igreja conventual de Nossa Senhora das Neves, a Capela de São Roque, a casa de banhos subterrânea e a biblioteca barroca”, afirma.
O historiador destaca, ainda, a beleza e vivência do Mosteiro do Monte. Segundo ele, a igreja remete ao século XVI, possui uma hospedaria e tem uma rotina de orações cantadas 3 vezes por dia pelas freiras.
“No perímetro do Sítio Histórico, mas afastado dos atrativos mais badalados, segue a vida com a calma e o silêncio que pede a vida monástica das monjas Beneditinas que moram lá”, explica.
Para ele, a cidade é marcada, principalmente, pelas pessoas.
“Tem gente talentosa, criativa e inovadora, que pensa e há muito tempo faz arte, teatro e cinema, produzindo e atuando. Olinda é Patrimônio da Humanidade, tem igreja, arte, carnaval, praia, candomblé, mangue, periferia, hip-hop, Manguebeat e Chico Science”, diz.
Tem gente talentosa, criativa e inovadora, que pensa e há muito tempo faz arte, teatro e cinema, produzindo e atuando
Bráulio Moura, historiador