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O frevo é feminino: conheça as musicistas que enfrentam machismo, jornada dupla e outros desafios para manter a tradição viva

Musicistas vencem barreiras históricas, ocupam ruas e ladeiras e conduzem projetos que perpetuam o ritmo e a tradição do frevo em Pernambuco

Por Cristiane Ribeiro Publicado em 14/02/2026 às 7:04

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"Esta hora onde é que estão? Inês e Rosa, em que reinado reinarão?", diz a letra do Frevo n° 3 do Recife, do compositor Antônio Maria. Encontrar figuras femininas protagonizando as orquestras do tradicional carnaval de Pernambuco foi, por muitos anos, uma tarefa que nem os bonecos gigantes, olhando lá de cima, conseguiam realizar. 

Quase sete décadas depois do lançamento desse frevo, em 1957, "Inês e Rosa" desfilam pelas ladeiras de Olinda e nas ruas do Recife com um reinado que é, além de visto, ouvido por todos os foliões.

Elas são musicistas e maestrinas de orquestras de frevo, que enfrentam diariamente a batalha de provar-se enquanto profissionais em um cenário majoritariamente masculino, ao passo que lutam pela preservação do ritmo e da cultura local.

Primeiros arranjos de uma musicista

Essas artistas iniciam suas carreiras musicais de diferentes formas. Mayara Marinho, que toca saxofone alto nas orquestras de Lourdinha Nóbrega e Maestro Carlos, começou acompanhando seus irmãos, músicos da Orquestra Henrique Dias.

"Na minha infância, eu achava muito massa ver aquela orquestra e tinha o sonho de estar ali. Eu não via nenhuma mulher, mas tinha o sonho". Ela começou a ensaiar junto a eles e oficializou sua entrada no frevo no carnaval de 1997, quando saiu em cortejo já com a Orquestra de Maestro Carlos.

"Foram muitos olhares. Muitas vezes o pessoal não sabia se o som estava vindo do meu instrumento ou se estava vindo de algum homem". Mas isso não impediu que o sentimento de criança atingisse seu ápice: "a energia foi tomando conta com o frevo rolando. O frevo realmente ferve por dentro. Foi algo muito mágico".

Cristiane Ribeiro/JC
Musicista Mayara Marinho - Cristiane Ribeiro/JC

Ingrid Batista, que também toca saxofone, teve seu primeiro contato com a música dentro da igreja, em meados de 2012. Inicialmente, tentou aprender trombone e violão, mas mudou de ideia ao ver outras mulheres: "Quando eu vi algumas meninas lá na igreja tocando saxofone, eu me apaixonei. Tive certeza que esse é o meu instrumento".

O frevo surgiu na vida de Ingrid cerca de um ano depois, através de um projeto de musicalização na igreja e de uma banda escolar estadual. São nas bandas marciais das escolas, inclusive, que muitas musicistas começam a tocar.

É o caso, por exemplo, das trombonistas Kedma Santos, da Orquestra Botelho Frevo e Folia, e de Luiza Lima, das orquestras 100% Mulher e Maestro Oséias. Ambas tinham por volta dos 16 anos quando adentraram o mundo do frevo.

"Assim que eu comecei a tocar instrumentos de sopro, já veio o frevo logo de cara, porque o maestro da banda tinha uma orquestra de frevo", descreve Luiza. Kedma se recorda com muita clareza do seu primeiro desfile de carnaval: "foi surreal. É muito caloroso e é muita pressão, mas é principalmente animação".

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Musicista Kedma Santos - Cristiane Ribeiro/JC

Mas ser uma jovem mulher no frevo não é um mar de rosas. O professor de Neris Rodrigues no Colégio Firmino da Veiga, no Paulista, já sabia disso quando começou a ensiná-la: "O professor dizia... 'Eu estou preparando você para o mundo, porque o mundo vai ser muito mais cruel do que eu'", conta.

Marchando contra a multidão

E ele estava certo. No mundo acadêmico, Neris e a amiga Natália Coimbra fundaram o Movimento das Trombonistas Brasileiras, com o objetivo de questionar a falta de acesso de mulheres acadêmicas, pesquisadoras e professoras em congressos e masterclasses, espaços dominados por homens. "As competências e habilidades não podem ser comedidas por gênero", reforça.

Nessa jornada, Neris se deparou com situações que são abomináveis e recorrentes na mesma medida. "Recebíamos muita denúncias de assédio que acontecem nas entrelinhas. E tudo isso faz parte de um sistema que acaba excluindo, de fato, as mulheres do mercado", lamenta.

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Musicista Neris Rodrigues - Cristiane Ribeiro/JC

A própria Luiza já sentiu isso na pele. "Passei em muitos lugares onde eu fui olhada de lado, fui esnobada e assediada por ser mulher, por ser bonita". E tudo vira pauta para o machismo: "eu não posso usar uma roupa mais curta ou mais decotada, que eles [homens] já duvidam da minha competência enquanto músico", continua Luiza.

Certa vez, Ingrid e uma amiga fizeram uma apresentação em Olinda, compondo uma orquestra só de homens. "Tocamos de forma excelente. O pessoal de lá gostou muito e disse que queria a gente no próximo ano", lembra a saxofonista.

Ao fim do dia, uma falha de comunicação acarretou em problemas no pagamento do cachê das artistas. Ao questionarem, "começaram a falar mal de mim e da minha amiga no grupo. Disseram que a gente não tinha tocado praticamente nada na apresentação. Começaram a botar o nosso trabalho realmente pra trás".

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Musicista Ingrid Batista - Cristiane Ribeiro/JC

E elas não foram as únicas a serem diminuídas. "Já aconteceu de eu estar tocando, a figura masculina parar e encarar. Parar só para ver se eu ia continuar. E eu continuei, linda e maravilhosa", lembra Mayara. Quando quis tocar trompete, no início da carreira, "fui desencorajada. Disseram que meus lábios eram muito grossos. Mas hoje eu acho que foi machismo".

Além do desgaste emocional, o físico também é sobrecarregado. O próprio peso do instrumento, os anos de dedicação aos estudos e a jornada exaustiva de apresentações, as musicistas lidam ainda com a jornada dupla historicamente imputada às mulheres.

"Meu escritório é perto da cozinha. Então, enquanto estou estudando, vou, faço um arroz e volto para lá. Depois eu escrevo, faço uma pausa para executar uma tarefa de casa... E assim vai, entre um trabalho e outro", conta Neris.

O frevo é feminino

Diante de tantos desafios, as musicistas de frevo continuam escolhendo ficar. Suas carreiras são marcadas por muita luta, mas principalmente pelas grandes conquistas que acumulam.

Ingrid Batista se orgulha de ter concluído sua formação acadêmica e de ter realizado seu recital no último ano. Mayara Marinho recebeu homenagem do Homem da Meia-Noite pela sua trajetória de mais de 20 anos na orquestra que puxa o bloco.

Neris Rodrigues tornou-se a primeira mulher bacharel em trombone do Nordeste. Kedma Santos não troca a emoção de tocar nas ladeiras de Olinda e sentir o público cantar com a música dela.

Luiza Lima, de origem periférica, sente orgulho de abrir caminhos para novas gerações. Ela fundou a Frevo Mulher CPM, primeira orquestra feminina do Conservatório Pernambucano, lidera a Orquestra Luar e idealizou o projeto Elas no Frevo, oferecendo oficinas gratuitas para ensinar mulheres a tocar instrumentos do zero.

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Musicista Luiza Lima - Cristiane Ribeiro/JC

Tocar frevo representa resistência, representatividade e alegria. "É a cultura de Pernambuco sendo representada por nós, mulheres. Para mim, é um orgulho", nas palavras de Ingrid.

Ou nas palavras do próprio frevo, "viemos defender a nossa tradição e dizer bem alto que a injustiça dói. Nós somos madeira de lei que cupim não rói" (Madeira que Cupim Não Rói - Capiba).

Assista à série Maestros do Frevo: #06 - Lourdinha Nóbrega e a luta das mulheres por igualdade nas orquestras

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