'Mais do que sambista, sou intérprete da minha terra', diz Gerlane Lops ao celebrar 30 anos de carreira
'Abrimos espaço, principalmente para muitas mulheres que fazem samba em Pernambuco', diz cantora, que marca presença no Carnaval de Pernambuco
Clique aqui e escute a matéria
Na rotina de trabalho, Gerlane Lops quase deixou passar em branco as três décadas de trajetória. A lembrança veio de amigos, que recordaram o "marco zero" de sua carreira solo: a participação no Festival Canta Nordeste, em 1996.
Reconhecida por levantar a bandeira do samba em Pernambuco, ao lado de veteranos que a antecederam, Gerlane prefere se definir como uma intérprete pernambucana.
"Tenho 17 anos de Galo da Madrugada, cantando frevo. Fui homenageada pelo Carnaval do Recife, em 2019, defendendo o samba. Abrimos espaço, principalmente para muitas mulheres que fazem samba em Pernambuco. Foi importante a minha entrada, bem como a permanência de pessoas que fazem samba há 50 anos, como Luiza Pérola e nosso mestre Belo Xis", afirma.
Início
Ainda criança, Gerlane lembra da irmã mais velha participando do Coral Cavento, exibido aos domingos pela TV Jornal. Ela acompanhava a família e acabou se tornando mascote do grupo.
Na música, começou na percussão, tocando cajón — instrumento afro-peruano em formato de caixa de madeira — por cerca de dez anos. Também integrou bandas marciais, no mesmo período em que nomes como os maestros Spok e Forró participavam de outras corporações musicais.
"Montei minha própria orquestra de rua, a Orquestra Cultural de Olinda. Depois, viramos uma banda de baile. Foi aí que decidi me tornar cantora, quando estudei canto e me transformei em Gerlane Lops durante o Festival Canta Nordeste”, recorda.
A transição de líder de banda para cantora solo, segundo ela, não ocorreu sem conflitos. "Foi tudo muito rápido. Eu tinha orquestra e, de repente, virei cantora solo. Houve desentendimentos com a banda", relembra.
Musicando poemas
Após o festival, Gerlane recebeu convite do Sesc para gravar um disco musicando poemas de Federico García Lorca. O projeto resultou em seu primeiro álbum, "Lorca Canções de Lua", lançado em janeiro de 1999, acompanhado de um espetáculo teatral.
No segundo trabalho, aprofundou a faceta de "intérprete pernambucana", gravando composições de Naná Vasconcelos, Lula Queiroga e Dominguinhos. "É um álbum de MPB em que pego nossa cultura popular e coloco harmonias mais rebuscadas", define.
Em 2003, com o álbum "Da Branca", passou a concentrar sua trajetória no samba. O disco reúne a faixa-título, parceria com Siri do Cavaco, além de interpretações de canções de Mart'nália, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Caetano Veloso e Capiba, incluindo “A Mesma Rosa Amarela”.
"Transformei minha orquestra de frevo em uma orquestra de samba de rua, algo que não existia em Pernambuco até 2016. Já passaram mais de 30 cantores por essa orquestra”, conta. “Eu faço um pouquinho de tudo", brinca.
Ao refletir sobre os 30 anos de atuação, Gerlane destaca a importância de respeitar o tempo. "Mais do que o título de sambista, acho que consigo ser a voz e a intérprete da minha terra. Ser intérprete me deixou mais forte e foi o que me trouxe até aqui, além da felicidade de fazer música", conclui.
Confira a série Maestros do Frevo: Lourdinha Nóbrega e a luta das mulheres por igualdade nas orquestras