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Atrasos em pagamentos e falta de sede própria marcam rotina das orquestras de frevo, mostra pesquisa

Pesquisa inédita realizada pela Quaest, encomendada pelo YouTube, identificou 322 grupos musicais de frevo no Recife e em Olinda

Por Emannuel Bento Publicado em 11/02/2026 às 16:13

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Músicos das orquestras de frevo convivem com a ausência de retorno financeiro estável, a falta de sedes próprias e a escassez de espaços de formação que garantam a continuidade da manifestação. É o que revela pesquisa inédita realizada pela Quaest, encomendada pelo YouTube.

Intitulado Relatório Executivo de Pesquisa – As Orquestras de Frevo de Recife e Olinda, o estudo sistematiza, em dados, uma realidade já conhecida por quem vive o dia a dia da cultura: o que mantém o frevo pulsando não é a remuneração, mas o orgulho de pertencimento e a resiliência de seus fazedores.

O levantamento foi realizado entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, com visitas e entrevistas junto a orquestras de frevo do Recife e de Olinda. O relatório reúne, de forma qualitativa e científica, depoimentos de maestros, maestrinas e músicos.

O mapeamento identificou 322 grupos musicais de frevo nas duas cidades, a partir de editais de financiamento público, acervos culturais e comunicações oficiais online. Desses, 46 foram considerados mais “tradicionais” — sejam consagrados ou mais jovens — com base nas entrevistas realizadas com maestros, músicos e referências do setor.

Os desafios de maestros e músicos

Andréa Rêgo Barros/PCR
Instrumento de sopro utilizado em orquestras de frevo - Andréa Rêgo Barros/PCR

A pesquisa aponta que grande parte dos maestros não se dedica exclusivamente às orquestras, precisando conciliar outras atividades para garantir a subsistência. Ainda assim, ostentam com orgulho a identidade de “ser maestro de frevo”.

Atuando como diretores artísticos e operacionais, esses profissionais acabam se tornando verdadeiros “gestores universais”. Nesse processo, a família assume papel central, seja na organização, seja na manutenção do legado.

“O frevo opera como bandeira familiar, onde filhos, netos e parentes muitas vezes compõem o grupo ou ajudam a sustentar a tradição diante das incertezas do mercado”, destaca o relatório.

A lógica da dupla jornada não se restringe à liderança e se reflete em toda a orquestra. Para muitos músicos, a atividade funciona como complemento de renda em um mercado sazonal, fortemente concentrado no Carnaval. A instabilidade é agravada por inadimplência pública e atrasos frequentes nos pagamentos.

Financiamento

A economia das orquestras depende tanto de editais públicos quanto de contratações privadas. Segundo o estudo, o setor público concentra maior volume de recursos, mas apresenta baixa previsibilidade e recorrentes atrasos nos repasses.

Já o setor privado contrata em menor escala, porém oferece liquidez imediata e menor risco financeiro para maestros e músicos.

Ainda é raro o aporte privado estruturado para incentivo ao frevo por meio de projetos de responsabilidade social corporativa.

Formação

No campo da formação, muitos maestros iniciaram suas trajetórias como instrumentistas. Parte possui formação popular, militar ou autodidata; outros passaram por conservatórios e, em alguns casos, buscaram o ensino superior para ampliar conhecimentos.

Entre os músicos, a alfabetização musical costuma ocorrer em escolas, bandas marciais, conservatórios ou instituições de base. No entanto, a consolidação técnica acontece, sobretudo, na prática das ruas.

A pesquisa evidencia que a formação de um músico de frevo é um processo longo e complexo. Pode começar na academia ou em projetos sociais, mas a “prova definitiva” ocorre na vivência das apresentações públicas.

O Grêmio Musical Henrique Dias, em Olinda, é apontado como uma das principais bases formadoras do frevo. Segundo estimativa do maestro Lúcio, responsável pela instituição, “entre 80% e 85%” dos maestros que atuam na cidade foram formados ou lecionaram no espaço.

Essa rede se amplia com iniciativas lideradas pelas maestrinas Carmen, Lourdinha e Lua Lima, pelo maestro Carlos e por espaços tradicionais como o Clube Cariri, que democratizam o acesso ao ensino musical.

Novas gerações

Para jovens de áreas vulneráveis, o ingresso nas orquestras representa mais do que aprendizado técnico. A experiência envolve disciplina, resiliência e convivência com as diferenças.

A formação de novos músicos — e a sensibilização das novas gerações para o frevo — é apontada como essencial para a continuidade da manifestação.

O estudo também identifica uma “lacuna tecnológica” a ser preenchida. A nova geração, mais familiarizada com as redes sociais, pode explorar um território ainda pouco utilizado pelas orquestras: a monetização digital e a construção de maior autonomia financeira.

A pesquisa completa pode ser acessada no site oficial do estudo.

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