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Tambores silenciosos: a noite em que fé e ancestralidade atravessam o Carnaval de Recife e Olinda

Celebração reúne nações de maracatu de baque virado em ritos sagrados que buscam conectar vivos e mortos e resgatar tradições da cultura negra

Por Cristiane Ribeiro, Ryann Albuquerque Publicado em 09/02/2026 às 7:00 | Atualizado em 09/02/2026 às 22:17

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Com a chegada do período carnavalesco, quando o ritmo das ruas se intensifica e as cidades se preparam para a festa, Recife e Olinda silenciam os batuques de seus tambores para um dos rituais mais simbólicos do maracatu de baque virado.

A Noite dos Tambores Silenciosos, no Recife, e a Noite para os Tambores Silenciosos, em Olinda, articulam fé, ancestralidade e música como dimensões inseparáveis da cultura afro-pernambucana.

Em ambas, os grupos marcham em cortejo pelas ruas, conduzindo seus batuques até o momento em que, pouco antes da meia-noite, o som dos tambores é suspenso para dar início à cerimônia religiosa.

O rito é dedicado à louvação dos Eguns, espíritos dos ancestrais, e dos Orixás, estabelecendo uma conexão entre vivos e mortos. Para a batuqueira regente do Maracatu Leão Coroado, de Olinda, Karen Aguiar, a Noite rompe essa fronteira: "A barreira entre a morte e a vida não existe. É ouvir a voz de alguém que já morreu, é ver a pessoa no meio do público. Eles estão entre nós e nós entre eles".

Além do caráter religioso, a celebração também se afirma como gesto de resistência e preservação cultural. Pai Jorge de Bessém, liderança da Noite recifense e sucessor da casa de Oxóssi, lembra que um dos sentidos centrais do ritual é homenagear os povos escravizados cujos tambores foram historicamente silenciados.

"Aquelas pessoas que vieram pelos navios negreiros passaram por tanto sofrimento e deixaram um legado que devemos louvar. É gratidão, é fé e é memória", afirma.

Embora partilhem o mesmo fundamento espiritual e o mesmo propósito de culto ancestral, as duas Noites se desenvolveram a partir de trajetórias distintas. No Recife e em Olinda, os rituais assumem configurações próprias, moldadas por contextos históricos, disputas políticas e formas específicas de organização dos maracatus, o que confere singularidade a cada celebração.

Reprodução / Instagram : @maracatuencantododende
Nação Maracatu Encanto do Dênde - Reprodução / Instagram : @maracatuencantododende

A Noite dos Tambores Silenciosos no Recife

A tradição remonta aos anos 1960, quando o Pátio do Terço já era ponto de encontro de maracatus e terreiros. A casa de Badia, por exemplo, funcionava como espaço de culto afro-brasileiro, preservando práticas religiosas mesmo durante períodos de repressão.

Em 1965, o jornalista Paulo Vianna promoveu a primeira Noite, com uma encenação teatral chamada Lamento Negro, que homenageava os escravizados que não puderam brincar o carnaval. Nos anos seguintes, o evento enfrentou altos e baixos com a falta de apoio do poder público e esvaziamento do aspecto religioso.

Foi a partir da década de 1990 que movimentos negros e maracatuzeiros assumiram o protagonismo. Nesse momento, os grupos de afoxé que se apresentavam junto às nações foram direcionados para outro dia do carnaval e a Noite dos Tambores Silenciosos passou a ser exclusivamente dos maracatus nação.

A cerimônia começou a ser celebrada por Tata Raminho de Oxóssi, babalorixá que foi responsável por consolidar o caráter religioso da Noite dos Tambores Silenciosos como ela é conhecida hoje. Ele esteve à frente do ritual por décadas, até o seu falecimento em dezembro de 2024. 

Reprodução / Instagram: @nacaoportorico
Nação do Maracatu Porto Rico - Reprodução / Instagram: @nacaoportorico

Nações no Pátio do Terço 

Na próxima segunda-feira de carnaval (16), o Pátio do Terço, em frente à Igreja Nossa Senhora do Terço, recebe cerca de 40 nações de maracatu da Região Metropolitana do Recife, como Olinda, Igarassu, Jaboatão dos Guararapes e da própria capital.

O cortejo vai da rua Vidal de Negreiros até o adro da igreja, onde cada grupo apresenta seu baque e suas toadas antes de dar lugar à próxima nação. Os tambores só ficam em silêncio quando a meia-noite se aproxima, momento em que Pai Jorge de Bessém, sucedendo Raminho de Oxóssi, dá início à cerimônia de invocação aos Eguns e Orixás, especialmente Iansã:

"Ali sentimos a nossa ancestralidade. Sentimos a presença de todos os ancestrais que convidamos e que estão ali presentes", explica o religioso. As luzes do pátio são apagadas, pombas são soltas e fogos celebram a memória dos antepassados.

O maracatuzeiro Danillo Mendes, da Nação Encanto do Dendê, participa da Noite desde o retorno dela em 2023, após os anos de pausa durante a pandemia da Covid-19. "A noite dos tambores silenciosos é um dos dias mais aguardados e importantes dos carnavais de todas as nações", pontua.

Douglas Viana, da Maracatu Nação Porto Rico, complementa a importância da Noite para as nações: "a gente trabalha o ano todo, para manter a nação bem, os instrumentos, as roupas e a percussão. No dia da Noite, levamos apenas uma parte do grupo, por causa do espaço, mas o cuidado com cada detalhe é o mesmo".

A Noite para os Tambores Silenciosos em Olinda

Em Olinda, a Noite para os Tambores Silenciosos assume contornos próprios. Diferente da celebração recifense, o ritual foi construído a partir de uma decisão política e coletiva das próprias nações de maracatu, que reivindicaram o reconhecimento do caráter sagrado da prática. 

A celebração começou a ser realizada a partir de 2000, após episódios considerados desrespeitosos, nos quais os maracatus foram inseridos em programações que ignoravam sua base religiosa.

A reação veio com articulação. Lideranças como Márcio Carvalho de Lima, da Nação Camaleão, Nilo, do Maracambuco, e o mestre Afonso, do Leão Coroado, decidiram que a Noite precisaria existir nos próprios termos das nações.

"A Noite para os Tambores Silenciosos é um momento de culto. A gente cala os tambores não porque eles deixam de existir, mas porque é nesse silêncio que os ancestrais se manifestam e a memória do nosso povo se apresenta", afirma Márcio, que também representa a Associação dos Maracatus de Olinda (AMO), criada justamente para dialogar com o poder público e garantir a dignidade do ritual.

Reprodução / Instagram :@maracatunacaocamaleao
Nação Maracatu Camaleão - Reprodução / Instagram :@maracatunacaocamaleao

Embora já fosse praticada desde o início dos anos 2000, a Noite passou a ser oficialmente reconhecida com esse nome em 2004, após um processo de pesquisa histórica conduzido em parceria com o Arquivo Público de Olinda, pesquisadores e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

O reconhecimento afastou a ideia de um evento recente e reafirmou o ritual como continuidade da trajetória negra da cidade, diretamente ligado às irmandades, às coroações dos reis do Congo e à presença ancestral do povo preto em Olinda.

Percurso do cortejo 

O cortejo acontece nas ruas da Cidade Alta, com concentração nos Quatro Cantos e seguimento até o Largo da Igreja do Rosário dos Homens Pretos. O percurso foi definido a partir de estudos históricos e permanece praticamente o mesmo desde as primeiras edições.

Atualmente, participam nove nações de maracatu, além de grupos convidados, que mantêm um trabalho contínuo ao longo de todo o período pós-Carnaval, preparando-se para o ciclo do ano seguinte.

"Existe preparação também do grupo, da percussivo, que a gente já começa ensaios bem antecipadamente para poder fazer uma apresentação à altura do evento, da cerimônia", explica Belle Diniz, integrante da Nação Maracatu Badia. 

A condução religiosa da cerimônia está sob a responsabilidade de Ivanildo de Oxóssi, do Maracatu Nação Estrela de Olinda, que assumiu a louvação após a morte do mestre Afonso. Para ele, o silêncio é um gesto ativo de invocação espiritual.

"Quando a gente cala os tambores, começa a chamar os ancestrais para estar ali presentes. É um chamado para que eles atravessem e estejam com a gente naquela noite", explica.

Cortesia
Nação Maracatu Badia - Cortesia

Mesmo atraindo um público numeroso, favorecido pelo espaço amplo das ruas de Olinda, a Noite não se orienta pela lógica do entretenimento. Não há atrações externas nem artistas convidados. Para os organizadores, qualquer elemento que desloque o foco dos maracatus compromete o sentido do ritual.

Para a AMO, a Noite para os Tambores Silenciosos é também um ato de resistência cultural e religiosa. Ao afirmar o Maracatu de Nação como prática sagrada, a celebração confronta tentativas de esvaziamento simbólico e reafirma que não há nação sem vínculo espiritual — apenas reprodução estética.

Nesta segunda-feira (9), Olinda realiza a 27ª edição da Noite para os Tambores Silenciosos. Um momento em que o som se cala para que a ancestralidade atravesse o presente e a história da cidade volte a falar pelas ruas.

Responsabilidade social que sustenta as nações

Realizada às vésperas do Carnaval, a Noite para os Tambores Silenciosos ocupa um lugar central na vida cultural de Olinda. Embora marcada pelo rito religioso e pela ancestralidade africana, a celebração também revela o papel social exercido pelas nações de maracatu em seus territórios ao longo de todo o ano.

Organizada pela AMO, a noite é entendida como a abertura simbólica do Carnaval da cidade. Para além da visibilidade que atrai visitantes, seu sentido permanece ligado às comunidades que sustentam o maracatu como prática cultural, espiritual e social.

Segundo Kátia da Paz, da AMO, esse trabalho contínuo se expressa nas sedes das nações, que funcionam como espaços de formação, convivência e responsabilidade social em bairros como Varadouro, Peixinhos e Águas Compridas. É nesses territórios que crianças, jovens e adultos constroem vínculos com a cultura popular e com a própria história local.

Cortesia
Nação Leão Coroado - Cortesia

Nilo, da Nação Maracambuco, destaca que a Noite representa a culminância de um processo que começa muito antes do cortejo, no cotidiano das comunidades. A preparação envolve articulação religiosa e logística intensa, com equipes que chegam a atravessar madrugadas para garantir o ritual – um esforço coletivo pouco visível ao público.

Apesar de integrar o calendário oficial do Carnaval, a Noite ainda enfrenta dificuldades de financiamento, muitas vezes sob a justificativa de seu caráter religioso. Para as nações, esse argumento ignora o maracatu como base histórica da cultura popular pernambucana.

Nesse contexto, o rito reafirma não apenas a conexão com os ancestrais e as divindades de matriz africana, mas também o compromisso social das nações com seus territórios. Em Olinda, a Noite para os Tambores Silenciosos se consolida, assim, como um espaço onde memória, espiritualidade e responsabilidade coletiva caminham juntas.

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