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'Tem muita coisa boa sendo produzida no frevo', diz o Maestro Rafael Marques

Desde 2018, músico comanda a Orquestra Malassombro e cria novos frevos de bloco sem abrir mão da essência: "Se você der acesso, as pessoas vão gostar"

Por Emannuel Bento Publicado em 07/02/2026 às 10:00

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Será possível ouvir um frevo novo ecoando nas ladeiras de Olinda e nas ruas do Recife? Para o maestro Rafael Marques, da Orquestra Malassombro, a resposta é sim. Mais do que torcer, ele tem trabalhado ativamente pela renovação do gênero, sobretudo por meio de novas composições de frevo de bloco.

"Acho que nunca se parou de compor frevo. Sempre surgem coisas novas. A gente é que tem dificuldade de alcançar", afirma. Neste ano, por exemplo, ele compôs o frevo "Pirueta", encomendado pelo Cariri. As partituras foram repassadas ao Maestro Óseas.

Para ele, insistir é fundamental para que uma música ganhe espaço. Rafael cita o frevo de bloco "Resta Sorrir" (Rafael Marques/Zé Manoel) que vem sendo tocado por Edgar Moraes e pelo grupo O Bonde, além de "Horário de Amor" (Maurício Cavalcante/Romero Amorim), que começou a ser executado uma década após o lançamento.

'Tem muita coisa boa sendo produzida'

Sobre a preferência do público por músicas mais antigas, ele pondera: "Não tem muito uma solução para isso. É continuar tocando. Com o tempo, as pessoas vão assimilando. Se você der acesso, elas vão gostar. Tem muita coisa boa sendo produzida.". Ele cita como exemplo trabalhos de Flaira Ferro, Sofia Freire e Martins.

Contudo, o maestro chama atenção para o fato de o frevo disputar espaço com uma indústria musical estruturada na lógica do streaming, com altos investimentos para alcançar ouvintes.

"São orçamentos milionários. Esse é um investimento que bloco nenhum tem. Um bloco mal consegue pagar estúdio de ensaio, remunerar seus músicos. Então, é um trabalho de formiguinha, e as agremiações precisam abraçar essa ideia."

Trajetória

LUARA OLÍVIA/DIVULGAÇÃO
Rafael Marques é maestro da Orquestra Malassombro - LUARA OLÍVIA/DIVULGAÇÃO

Rafael iniciou sua formação musical no cavaquinho, no Conservatório Pernambucano de Música, e se aproximou do repertório do frevo a partir da relação com o professor Marcos César.

O músico se interessou especialmente pelo frevo de bloco, atraído pela própria experiência da festa: o cortejo com coro, cavaquinhos, violões, sopros e saxofones. "A multidão cantando músicas que todos conhecem é muito emocionante", relata.

"Você sendo um instrumentista de cordas que se profissionaliza e se aproxima desse universo, inevitavelmente vai tocar em alguma agremiação, porque são muitas e existem poucos músicos", explica.

Rafael integrou blocos como o da Saudade, das Ilusões e das Flores. Foi nesse percurso que percebeu que poucas agremiações possuíam composições próprias executadas nas ruas.

"O frevo de bloco canta muito a cidade, a festa, evoca personalidades de um tempo que eu não vivi, da década de 1930. Então comecei a sentir falta de cantar o meu tempo de Carnaval. Queria ver isso cristalizado, fotografado por essa literatura do frevo de bloco", conta.

Orquestra Malassombro

LUARA OLÍVIA/DIVULGAÇÃO
Orquestra Malassombro - LUARA OLÍVIA/DIVULGAÇÃO

Desse desejo nasceu a Orquestra Malassombro, criada em 2018, a partir de uma apresentação organizada na Venda do Bom Jesus, tradicional ponto boêmio do Bairro do Recife.

"A gente se realizou. Fazendo uma espécie de marcha na rua, vimos que era possível que o Carnaval do nosso tempo fosse cantado. Era só botar o bloco na rua e persistir."

Com formação completa de 21 músicos, a Malassombro lançou dois discos: o homônimo, em 2022, e “Recife, Início, Meio e Fim”, em 2025.

No Carnaval, o grupo se apresenta em palcos e realiza acertos de marcha. “Nunca fizemos um cortejo no Carnaval. É o nosso sonho. Tentamos para este ano, mas não conseguimos.”

A orquestra também participa de eventos promovidos por agremiações, mantendo o frevo de bloco presente ao longo do ciclo festivo. "É importante estar nessas atividades carnavalescas, independentemente das grades oficiais. Nada é mais importante do que o que as agremiações fazem de forma independente."

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