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‘Ninguém está conseguindo resgatar o frevo’, diz Maestro Babá

Olindense Adriano Ferreira Pinto, conhecido como Babá do Trombone, comanda a Orquestra de Frevo do Babá, uma das mais ativas de Olinda

Por Emannuel Bento Publicado em 04/02/2026 às 9:00 | Atualizado em 04/02/2026 às 12:52

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Prestes a completar 50 anos, o olindense Adriano Ferreira Pinto, conhecido como Babá do Trombone, comanda a Orquestra de Frevo do Babá, uma das mais ativas de Olinda.

O grupo se prepara para o terceiro Carnaval em um cenário de transformações na festa — nem sempre positivas do ponto de vista da tradição — e de constante desvalorização do trabalho dos músicos, marcada por atrasos de cachês.

Babá admite que já pensou em desistir da carreira, mas segue “por conta do frevo”.

“Sei que o frevo está sofrendo muito. O frevo está morrendo e pouca gente está percebendo isso. Ninguém está conseguindo fazer nada para resgatar o frevo. Fala-se muito de salvaguarda, mas o frevo não está salvaguardado. O que vemos é um cenário em declínio”, lamenta.

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Trajetória

Adriano ganhou o apelido ainda na infância, "por babar muito"”. "No início, eu não gostava, odiava. Tentei por muito tempo não atender, mas ficou. Como eu tocava trombone, virou Babá do Trombone como nome artístico”, conta.

A carreira musical começou aos 17 anos, quando decidiu estudar na Fundação Casa da Criança, em Olinda. O primeiro Carnaval veio em 1996.

EMANNUEL BENTO/JC
Maestro Babá, da Orquestra de Frevo do Babá - EMANNUEL BENTO/JC

Em seguida, passou a integrar o Grêmio Musical Henrique Dias, que define como “uma maternidade de músicos”. Lá, permaneceu por 23 anos e cumpriu três mandatos como presidente.

Em 2023, após deixar o grêmio, decidiu criar a própria orquestra. “"O grêmio forma o músico, mas depois ele cria asas e precisa voar para outros horizontes. Eu queria voar, ir mais longe.”

Com o novo grupo, lançou dois álbuns: Traditio Frevo Olinda (2023) e Frevoessência (2025).

Fora dos palcos, mantém empregos com carteira assinada. Atualmente, trabalha como motorista no Hospital do Câncer de Pernambuco.

Carnaval

HUGO MUNIZ
Imagem da Orquestra de Frevo do Babá - HUGO MUNIZ

Com uma média de três blocos por dia durante a folia, Babá afirma que é impossível prever a logística.

“Temos 30 músicos, mas sempre alguém adoece ou recebe proposta para tocar em palco, com cachê maior. A gente não pode segurar o cara. Então precisa fazer manobra, chamar substituto ou dividir a orquestra.”

Para ele, o maior desafio é humano.
“Na prática, é difícil lidar com as pessoas. Imagina, no Carnaval, na correria e na euforia, coordenar 30 músicos. É tenso. Mas já estamos nesse ramo há 30 anos, então a gente se acostuma.”

Impactos na festa

Na avaliação do maestro, o crescimento dos eventos no formato “day use”, muitos deles transformados em casas de luxo, tem afetado a dinâmica econômica do Carnaval de rua.

“Isso tira o mercado do Carnaval em si, dos blocos, da rua. Às vezes é mais confortável para o público ficar num day use, com open bar das 9h às 17h. Mas isso impacta financeiramente as agremiações e, consequentemente, os músicos.”

EMANNUEL BENTO/JC
Maestro Babá, da Orquestra de Frevo do Babá - EMANNUEL BENTO/JC

A ausência do poder público também pesa. "A gente demora muito a receber. O poder público podia ser mais presente.”

Apesar das dificuldades, ele não pensa em abandonar o frevo. "Todo ano eu penso em parar, mas o Carnaval tem uma energia muito forte dentro de mim, que me faz continuar. Os músicos que estão comigo vestem a camisa, abraçam a causa. Se eu parar, é menos uma orquestra. O frevo vai sentir, e eu preciso propagá-lo até onde puder."

Babá resume, com franqueza: "Gravei dois discos com muita batalha, muita raça. Sem ajuda, sem recursos. O trabalho está rodando, mas o reconhecimento não vem. A gente faz com tanto amor e nem sempre é valorizado. Espero conquistar mais espaço e respeito com a minha música."

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