'Tudo o que tenho foi a música que me deu', diz Maestro Oséas
Músico avalia que hoje existem mais oportunidades de trabalho, mas a desvalorização financeira aumentou: 'Agora a gente passa um ano para receber'
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"Para mim, o Carnaval é tudo. Hoje, o que eu tenho é amor mesmo. Deixei o emprego para viver de música. Tudo o que eu tenho foi a música que me deu. E agradeço a ela", diz, emocionado, o Maestro Oséas, um dos mais conhecidos de Olinda.
Em entrevista concedida ao JC, no Bar do Ró — mantido pelo filho, Robson Leão, no Largo do Amparo — o músico compartilhou impressões sobre o passado, o presente e o futuro do Carnaval.
Prestes a completar 71 anos, Oséas ainda mantém a tradição pessoal de não dormir do Sábado de Zé Pereira e até a noite do domingo de Carnaval. A jornada exaustiva se deve à quantidade de agremiações em que trabalha.
"Até o ano passado eu fiz isso, não sei como será este ano. Estou com medo, porque apareceu um problema no calcanhar. Não sei como foi. Tenho que me cuidar, né? Eu caminhava, agora parei, o que foi pior", conta o maestro.
Início
Natural de Aliança, Oséas começou tocando trompete aos 8 anos em uma orquestra do município. O pai já tocava trombone e era muito requisitado na Zona da Mata. Ele chegou a Olinda aos 12 anos, quando ingressou na Banda Henrique Dias, da qual ainda faz parte como o integrante mais antigo da formação.
"Uma vez, passei 15 dias numa lição. Meu tio chegou para o meu pai e disse: 'Ele não quer mais estudar'. Meu pai tirou o cinturão, colocou em cima da mesa e disse: 'Se você não terminar hoje, apanha'. Foi dito e feito. Terminei no mesmo dia.”
No Carnaval da Marim dos Caetés, a primeira agremiação em que tocou foi o Homem da Meia-Noite, aos 15 anos. Pela pouca idade, precisou da autorização do presidente.
Depois vieram Ceroula de Olinda, onde toca há 40 anos, Elefante de Olinda, Cariri Olindense, John Travolta de Olinda, Boi da Macuca, entre outras. "É puxado, porque você toca aqui num bloco e sai correndo para outro."
Desvalorização aumentou
O músico avalia que hoje existem mais oportunidades de trabalho, já que as prévias começam em setembro e eventos como o Boi da Macuca ocupam o calendário do primeiro semestre — com a agremiação, ele também já viajou para diversas capitais. Ainda assim, acredita que a desvalorização dos músicos cresceu.
"Antigamente a gente tocava na sexta-feira de Carnaval pela Prefeitura e recebia 50%. Na sexta seguinte, chegavam os outros 50%. Agora a gente passa um ano para receber. Teve uma vez que esperei dois anos por um pagamento. Nesse sentido, piorou muito. Que músico gosta disso? Se eu tivesse como pagar meus músicos para esperar, era bom, mas não tenho condições."
Apesar da importância do dinheiro, ele ressalta que o futuro do frevo depende de mais do que retorno financeiro.
"Hoje não é como antigamente, quando os músicos tocavam mais por amor. Ganhavam dinheiro, mas havia mais paixão. Hoje muitos pensam primeiro no cachê, não vêm para brincar. A cultura também não está ajudando."
Batucadas atrapalham o frevo
Outro fator que, segundo ele, dificulta o trabalho das orquestras e pode ameaçar a continuidade do Carnaval tradicional de Olinda é o desordenamento provocado pelo crescimento das "batucadas" de samba.
"Não se pode mais circular pelo meio da rua por causa das batucadas. Não são escolas de samba — não tenho nada contra, cada um no seu espaço, respeito todos. Mas existe um problema: a gente tem hora para começar e para terminar. Ficamos presos atrás de uma bateria, esperando a boa vontade deles saírem para a gente passar. Os turistas vêm do Rio de Janeiro para quê? Para ver o frevo."