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Porto do Recife tira museu do papel e traça novos planos para o turismo

Com peças e acervo iconográfico, espaço tem abertura prevista para o fim de fevereiro; Instituição tem projetos para Cruz do Patrão e Forte do Buraco

Por Emannuel Bento Publicado em 27/01/2026 às 15:30 | Atualizado em 28/01/2026 às 17:57

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O lado norte do Bairro do Recife, que concentra memórias das atividades portuárias responsáveis pela origem da cidade, permanece como um patrimônio à espera de investimentos que ampliem seu uso por recifenses e turistas.

Um primeiro passo nesse sentido será a abertura do Museu do Porto do Recife prevista para o fim de fevereiro deste ano — a data exata ainda será definida, com a presença da governadora Raquel Lyra. Neste Dia do Portuário, em 28 de janeiro, o JC antecipa com exclusividade a informação.

No ano passado, a reportagem "Recife negligenciou a história de seu porto" ajudou a lançar luz nesta questão.

O acervo do museu, localizado na Praça da Comunidade Luso-Brasileira, reúne antigas peças ligadas à navegação e ao cotidiano administrativo do porto, além de um conjunto iconográfico composto por plantas antigas do Porto, da Ilha do Recife e registros das reformas urbanas realizadas no início do século passado.

O projeto expográfico é assinado por Esdras Alberto e a montagem da exposição fica a cargo de Gabriela Izidoro, da MoLLusca Produções, responsáveis por outras exposições em equipamentos como a Caixa Cultural.

Ampliação do Porto no turismo

JUNIOR SOUZA/JC IMAGEM
Paulo Nery, presidente do Porto do Recife - JUNIOR SOUZA/JC IMAGEM
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Museu do Porto do Recife fica na Praça da Comunidade Luso-Brasileira, em frente ao Forte do Brum - JUNIOR SOUZA/JC IMAGEM
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Museu do Porto do Recife fica na Praça da Comunidade Luso-Brasileira, em frente ao Forte do Brum - JUNIOR SOUZA/JC IMAGEM

Em entrevista ao JC, o presidente do Porto do Recife, Paulo Nery, destacou que a instituição já recebe cruzeiros por meio do Terminal Marítimo de Passageiros, mas ressaltou o desejo de ampliar a participação do Porto na atividade turística com a implantação do museu.

"Esse é um projeto que a instituição já tinha há algum tempo. Quando cheguei, em abril de 2025, a ideia me foi apresentada. Logo percebi que se tratava de algo importante para a sociedade. O Porto do Recife se confunde com a própria história da cidade, sendo um dos grandes vetores do seu desenvolvimento, especialmente por meio da exportação do açúcar. Fizemos, então, uma reserva orçamentária para essa finalidade", afirma Nery.

O presidente também avalia a possibilidade de expansão do museu no futuro. "Tenho feito algumas viagens e conhecido projetos que podem ser adaptados à realidade do Recife. Gostaria de ver o Porto alinhado com o que há de mais atual no campo museológico", completa.

Mais projetos na região portuária

DIVULGAÇÃO
Cruz do Patrão, no Bairro do Recife - DIVULGAÇÃO

Além do museu, Nery detalhou à reportagem outros projetos ainda em fase embrionária voltados à valorização de patrimônios localizados na área portuária.

Um deles, que depende da captação de um investidor privado, prevê a requalificação do entorno da Cruz do Patrão, monumento de origem colonial cercado por simbologias e bastante presente nos roteiros de assombrações do Recife.

"Hoje o espaço já pode ser visitado, mas queremos modernizá-lo. O turista busca lugares bonitos e confortáveis. Precisamos desenvolver um projeto que inclua uma praça com bancos, uma loja e a viabilidade de um píer flutuante com restaurante", explica.

Forte do Buraco

BLOG BAIRRO DO RECIFE/REPRODUÇÃO
Forte do Buraco - BLOG BAIRRO DO RECIFE/REPRODUÇÃO

Outro projeto, que já contaria com um investidor interessado, envolve a recuperação das ruínas do Forte do Buraco, construção que remonta à presença holandesa no século XVII. O acesso ao local, via Recife, só é possível por barco.

"A ideia é criar um equipamento moderno que permita a visitação das ruínas. No entanto, estamos em diálogo com o Iphan. Atualmente, o forte é uma área tomada por mato, lixo e consumo de drogas”, afirma.

Nery também observa que o Recife recebe anualmente cerca de mil grandes veleiros em travessia do Atlântico, favorecidos pela proximidade da costa com os continentes africano e europeu. Apesar disso, a cidade ainda não dispõe de estrutura adequada para atracação e manutenção dessas embarcações.

"O ideal seria criar uma marina de manutenção capaz de atender esse público. Essa marina garantiria sustentabilidade financeira para a recuperação das ruínas e ajudaria a transformar a área em um espaço agradável e atrativo para turistas pernambucanos, brasileiros e estrangeiros", pontua.

Apesar da dimensão e complexidade dos projetos, o presidente ressalta: "Se ninguém começar, nada acontece".

Porto já teve museu há 40 anos

Um Museu do Porto do Recife já existiu na década de 1980, instalado provisoriamente no primeiro andar do imóvel de número 32 da Rua Vital de Oliveira, onde atualmente funciona a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação.

O espaço chegou a abrigar mais de 200 peças, mas acabou sendo fechado para reformas, com o acervo armazenado em um galpão. Por razões nunca esclarecidas, o museu não foi reaberto. Com o passar das décadas, parte das peças desapareceu ou se deteriorou.

A retomada, no entanto, utilizará o material que pôde ser recuperado. Para a realização do novo projeto, foi montada uma comissão na instituição, presidida por Denaldo Coelho.

Breve histórico

MANOEL TONDELLA/FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO
Imagem do Porto do Recife em 1905, pelas lentes de Manoel Tondella - MANOEL TONDELLA/FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO

O Porto do Recife como conhecemos hoje tem 108 anos de história, mas o ancoradouro do Recife já existia bem antes, quando a área abrigava uma vila de pescadores. Foi atacado por piratas ingleses, em 1595, e pelos holandeses, que administraram o Brasil Holândes a partir do Recife, entre 1630 e 1654.

Durante três séculos, a região retratou o cotidiano público e privado da sociedade pernambucana em diferentes esferas, desde os mais ricos até os escravizados.

Em 1985, um acidente envolvendo um navio que transportava gás liquefeito, próximo a um armazém de combustíveis, quase provocou uma explosão com potencial de atingir um raio de até cinco quilômetros na capital. No mesmo período, o Porto de Suape entrou em operação, passando a concentrar cargas que antes eram movimentadas no Recife, especialmente as inflamáveis.

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