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Fim da MTV: emissora ajudou a colocar o Recife no mapa da cultura pop

Canal chegou na cidade em 1991, ampliando o acesso à cultura pop internacional e projetando a cena musical local, do mangue ao palco do VMB

Por Emannuel Bento Publicado em 09/01/2026 às 16:37 | Atualizado em 11/01/2026 às 12:35

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Muita gente não percebeu, mas o início de 2026 marcou o fim de uma era na música. A MTV encerrou, em todo o mundo, seus canais dedicados exclusivamente a videoclipes, mantendo apenas o canal original norte-americano, hoje focado em outros formatos de entretenimento. A mudança ocorre após a fusão da Paramount, dona da emissora, com a Skydance Media.

No Brasil, a MTV foi inaugurada em 1990, com transmissão via antenas UHF. Na TV aberta, encerrou as atividades em 2013, passando a ser exibida apenas na TV por assinatura, que agora saiu do ar.

No Recife, o sinal chegou em 1991 e representou um divisor de águas para uma geração que, até então, tinha muito mais dificuldade de acesso a conteúdos da cultura pop internacional.

Além disso, a emissora realizou uma cobertura expressiva da cena musical da capital pernambucana, especialmente no auge do movimento mangue. Artistas locais chegaram, inclusive, ao palco do Video Music Awards Brasil (VMB).

Inauguração

ARQUIVO JC
Notícia no JC ensina sintonizar na MTV, em 1991 - ARQUIVO JC

A MTV entrou no ar no Recife em 26 de novembro de 1991, com direito a show de Lulu Santos no Ginásio Geraldão, na Imbiribeira.

"Uma programação especial dirigida ao público das classes A e B, especialmente aos jovens. São clipes e noticiários jornalísticos dedicados basicamente aos sons do Brasil e do mundo, com uma vasta rede de informações alternativas”, noticiou o Jornal do Commercio à época.

O canal a ser sintonizado era o 27, mas era necessário adquirir uma antena UHF, conhecida pelo "arco tipo anjo" - o que só mudou em 2000, quando o emissora adotou a transmissão para o formato VHF, via canal 7.

Consumo

O músico Cannibal, da banda Devotos, relembra que, antes da MTV, o acesso à música alternativa internacional passava por fitas cassete e fanzines. "Sempre aparecia alguém com algum material. As rádios não tocavam as músicas que gostávamos, os LPs eram um pouco caros e os discos alternativos eram escassos."

Apesar da virada de chave, ele destaca que o sinal não chegava a todos. "Tinha que ter a UHF, mas, mesmo morando no Alto José do Pinho e tendo essa antena, a transmissão era horrível. De toda forma, a MTV foi a menina dos olhos. Nós sonhávamos tocar nas rádios, mas, naquele momento, queríamos também tocar na TV."

Cannibal lembra ainda que, durante o Abril Pro Rock, a equipe da emissora aproveitava para “garimpar” a cidade, passando por bairros como o próprio Alto José do Pinho e pelos cocos de Peixinhos, em Olinda.

"Anna Butler, diretora da MTV, era apaixonada pela cultura pernambucana. Eles aproveitavam para fazer essas pautas porque as coisas que rolavam aqui eram inéditas para o Brasil. Era um novo olhar para a própria cultura, regionalmente falando. A MTV pirou com o manguebeat, pois era um movimento voltado a várias linguagens da arte."

Autoestima

A relação entre MTV e Recife se intensificou em 1994, quando a emissora passou a cobrir o Abril Pro Rock, então em sua segunda edição. O produtor do festival, Paulo André Moraes Pires, que também era empresário de Chico Science e da Nação Zumbi naquele período, conheceu a equipe do canal durante uma entrevista com a banda.

"O festival virou um especial da MTV. Isso mexeu muito com a autoestima do jovem recifense. Não era só Rio, São Paulo ou Brasília. A gente também estava lá: um festival no Circo Maluco Beleza, nas Graças. Não havia relação de dinheiro. Nos cartazes, estava escrito 'MTV Apresenta Abril Pro Rock'. Era como uma permuta, pois também tínhamos interesse", diz Paulo André.

Além da música, a MTV também cobriu o Mercado Pop, que surgiu como um espaço de economia criativa dentro do festival e, depois, ocupou áreas degradadas do centro histórico. "Existiam também instalações artísticas, como as de Juliana Notari, com tudo pintado de prata. Uma coisa bem futurística", lembra o produtor.

Foi ainda a MTV quem gravou um clipe ao vivo de "A Praieira", no Circo Escola Picadeiro, em São Paulo.

Recife no VMB

As bandas do mangue também concorreram ao VMB, premiação criada em 1995. No entanto, os grupos da chamada geração inicial do movimento nunca levaram o troféu para casa.

Um episódio emblemático ocorreu em 1996, quando o clipe de "Manguetown", de Chico & Nação Zumbi, concorreu em cinco categorias. Naquele mesmo ano, Mestre Ambrósio e Devotos também estavam entre os indicados. Todos saíram sem prêmios.

"Após a cerimônia, existia uma festa, e Chico preferiu não ir. Ele disse: 'Não quero ouvir a galera todinha dizendo que não ganhamos’. Pegou um táxi e foi embora. Não sabíamos que aquele seria o último VMB dele", recorda Paulo André. A edição de 1997 contou com uma homenagem ao artista.

A primeira banda pernambucana a vencer o VMB foi Paulo Francis Vai Pro Céu, na categoria Demo-Clip, em 1999, com o clipe de "Perdidos No Espaço", gravado no lixão de Peixinhos. Mundo Livre S/A, Jorge Cabeleira e Otto também concorreram ainda nos anos 1990.

"Se não fosse a MTV nos anos 1990, talvez muitas bandas brasileiras não tivessem alcançado tanto destaque, e outros gêneros teriam dominado o cenário mais cedo, como ocorre agora nos tempos de algoritmo", avalia o produtor, que chegou a ser jurado do VMB.

O TikTok matou o videoclipe?

Nos Estados Unidos, o primeiro clipe exibido pela MTV foi "The Video Killed the Radio Star" ("O Vídeo Matou a Estrela do Rádio"), do The Buggles, em 1981 — curiosamente, o mesmo que encerrou a programação de videoclipes da MTV Music americana.

Diante do atual contexto de fruição de vídeos musicais, surge a pergunta: o digital matou o videoclipe? Para Thiago Soares, professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, que desenvolveu um doutorado sobre estética do videoclipe, a resposta é negativa.

"O videoclipe se reconfigurou. Existe uma crise da linguagem do clipe que conhecemos nos anos 1980, com a MTV, mas me parece que o TikTok incorporou uma sensibilidade do videoclipe que não está exatamente no formato", explica.

"É como se estivéssemos lidando com uma sensibilidade do clipe sem ter o formato tradicional, mas presente nas dancinhas e nos vídeos de cotidiano. Eu diria que o videoclipe está mais vivo do que nunca, pois deixou de ser um formato e passou a ser uma sensibilidade, uma estética, presente em vários ambientes. Precisamos pensar essa mudança não como uma morte, mas como um fenômeno de reconfiguração."

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