Livro do roteiro de "O Agente Secreto" traz imagens inéditas e aprofunda o processo criativo do diretor
Prefácio é assinado por Kleber Mendonça Filho, enquanto o posfácio leva a assinatura de Wagner Moura, protagonista do premiado filme
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O premiado "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, ganhou uma edição em livro de seu roteiro, lançada pela Editora Amarcord. Os exemplares estão sendo vendidos por R$ 65.
Além das cenas escritas, a publicação de 336 páginas reúne imagens inéditas dos bastidores e do storyboard — uma espécie de roteiro visual, composto por desenhos. O prefácio é assinado pelo próprio diretor, enquanto o posfácio leva a assinatura de Wagner Moura, protagonista do filme.
Para quem acompanha Kleber desde os curtas-metragens ("Vinil Verde", "Eletrodoméstica" e "Recife Frio") ou para quem está conhecendo agora sua obra, a leitura do roteiro oferece um mergulho mais profundo em seu processo de criação.
Contexto da criação
No texto de abertura, Kleber Mendonça explica que "O Agente Secreto" nasceu, inicialmente, como um outro filme, que acabou não sendo concluído por conta de uma trava criativa.
Durante a pandemia, o diretor tentou adaptar um roteiro de "The Crew" (A Tripulação), do britânico Mark Peploe — considerado um dos grandes roteiros nunca filmados. O projeto, no entanto, acabou engavetado por questões burocráticas. Foi nesse momento que Kleber passou a desenvolver "O Agente Secreto", reaproveitando o título daquele projeto inicial.
Segundo ele, o clima autoritário instaurado por Jair Bolsonaro, tanto em discursos quanto em ações, teve forte influência na criação da obra.
"Foi escrevendo o roteiro que eu percebi como o conservadorismo do Brasil no século 21 era uma versão nostalgia-cor-de-rosa da ditadura civil-militar do século 20. Não só a ditadura retardou o desenvolvimento da sociedade brasileira em pelo menos 30 anos, como deixou milhões de brasileiros confusos sobre o que significa viver num país moral e democrático", escreve.
"Esse panorama de um Brasil contemporâneo e como vive esse momento pode ser interessante para entender O Agente Secreto, mas eu não teria escrito o filme se não existisse — no início de tudo — uma base motiva encontrada nas histórias pessoais. É o terreno sobre o qual construí a casa; francamente, vejo ali um enorme buraco de tatu no chão. Uma fenda para um poço de memória que continua numa caverna profunda", completa o diretor.
Roteiro
No roteiro original, somos conduzidos por uma história de espionagem e ação aos moldes brasileiros, guiados por um Recife ao mesmo tempo carnavalesco e sombrio.
Assim como "Bacurau" (2019) utilizava o faroeste para refletir sobre questões nacionais, o longa protagonizado por Wagner Moura aposta agora no thriller político como chave narrativa.
O filme se constrói como um grande mosaico de histórias, avançando até um desfecho que combina um clímax sangrento — com tiros e perseguições — a um anticlímax melancólico.
É nesse ponto que o longa se revela menos um suspense sobre agentes e caçadas e mais uma reflexão sobre como o passado pode ser apagado ou distorcido pela pressa do presente, pelas forças políticas e econômicas ou, simplesmente, pelas lacunas da própria memória.
"O Agente Secreto" estreou na Competição Oficial do Festival de Cannes, onde recebeu os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator (Wagner Moura). Agora, figura entre as grandes apostas ao Oscar, segundo a revista Variety e o site The Hollywood Reporter.
Vale lembra que o diretor também já lançou "Três roteiros: O som ao redor, Aquarius, Bacurau", pela Companhia das Letras.