Prefeitura do Recife quer retomar sala de cinema do Teatro Apolo, mas ainda não tem política municipal de programação
Inaugurada em 1996, sala teve atividades interrompidas em 2016, após problemas técnicos; Retomada está prevista em convênio com o Governo Federal
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No movimento recente de valorização das salas de cinema de rua — impulsionado pelo documentário "Retratos Fantasmas" (2022), de Kleber Mendonça Filho, e agora reforçado por "O Agente Secreto" (2025), do mesmo diretor — o Recife deve voltar a contar com mais um espaço dedicado ao audiovisual no Centro.
Trata-se da sala de cinema do Teatro Apolo, no Bairro do Recife, inaugurada em 1996 no contexto de revitalização da ilha e em funcionamento, com certa regularidade, até 2016. As atividades foram interrompidas após problemas técnicos.
Em junho, o Diário Oficial do Município publicou a inexigibilidade para contratação de um profissional especializado, responsável por elaborar o anteprojeto e o projeto executivo de implantação da nova sala de cinema no Apolo.
Convênio com recursos federais
Procurada pela reportagem, a Prefeitura do Recife informou que prevê um convênio para retomar o equipamento, a ser executado com recursos do Governo Federal por meio da Lei Paulo Gustavo — voltada ao audiovisual e financiada com verbas do Fundo Setorial do Audiovisual.
Segundo o município, o convênio contempla requalificação arquitetônica, aquisição de materiais e compra de maquinário. Pelo cronograma apresentado, a sala estaria apta a exibir filmes e receber festivais até o fim de 2026.
"Trata-se de uma articulação muito importante, porque os cinemas públicos de rua estão associados à preservação da memória, à dinamização e revitalização da vida urbana e dos territórios, além de cumprir um papel fundamental na difusão cultural e na democratização do acesso aos bens e serviços culturais", informou a Prefeitura, em nota.
E a programação?
Após a reabertura, como funcionaria essa nova sala de cinema?
A Prefeitura afirmou que a formatação da programação audiovisual, articulada com as demais linguagens, "avançará junto com as intervenções físicas".
Hoje, o município mantém apenas uma sala: o Cineteatro do Parque, cuja reforma, concluída em 2020, custou R$ 20 milhões. Desde a reabertura, no entanto, o equipamento ainda não retomou sessões regulares de cinema.
Embora o retorno tenha sido anunciado em maio de 2024, com exibições às terças-feiras, a agenda foi posteriormente descontinuada.
Por outro lado, as sessões de teatro e música seguem regulares no equipamento localizado na Rua do Hospício. Nos bastidores, comenta-se que há uma certa "disputa" entre as linguagens — o cinema, dizem, já ocuparia espaço suficiente por receber valores expressivos nos editais públicos.
Questionada sobre a retomada das sessões no Parque, a Prefeitura informou que "por ora, não há novidades a serem anunciadas".
"O audiovisual é pauta sistemática na programação do Parque, um dos últimos remanescentes da tradição de cinemas de rua da capital pernambucana. O cineteatro é palco e tela cativa de importantes festivais e ativações do audiovisual na cidade, a exemplo do MOV e Animage, Cine PE e Janela de Cinema, além de receber importantes pré-estreias, como as recentes sessões de 'O Último Azul' e 'O Agente Secreto'. Novas ações e programações regulares de audiovisual estão sempre em articulação", diz a nota.
Um histórico de programação municipal
Inaugurado em 1915, o Cineteatro Parque foi desapropriado pela Prefeitura na década de 1950 e transformado em espaço voltado ao cinema educativo.
Ao longo da segunda metade do século 20, tornou-se um centro de referência na difusão cinematográfica. Com programadores como Celso Marconi, chegou a oferecer sessões às segundas e terças-feiras.
Na gestão de Geraldo Pinho (1993–2002), as exibições passaram também às quartas-feiras. Pinho desempenhou um papel importante ao trazer para o Recife filmes relevantes que não chegavam ao circuito comercial.
Outros programadores, como Marco Henrique Lopes, Ernesto Barros e Sérgio Dantas, mantiveram mostras, festivais e exibições regulares. Ainda assim, o equipamento passou os últimos 14 anos sem uma programação estável de cinema.