Macuca lança coletânea de frevos inéditos com Lenine e outras vozes de peso da música pernambucana; ouça
Álbum 'Frevo Macuca' nasceu da parceria entre a agremiação e o músico Henrique Albino, que se dedica a pesquisar uma música instrumental inovadora
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No apagar das luzes de 2025, o frevo ganhou uma nova coletânea que reúne vozes reconhecidas da música pernambucana e um instrumental de rua que transita entre a tradição e a experimentação.
O álbum "Frevo Macuca" nasceu da parceria entre o Boi da Macuca, agremiação carnavalesca pernambucana, e o músico Henrique Albino, que se dedica à pesquisa da música instrumental experimental do Estado — vertente que ele próprio define como "música tronxa".
O disco reúne interpretações de nomes como Lenine, Jorge Du Peixe, Siba, Almério, Juliana Linhares, Flaira Ferro, Buhr, Isaar, Juba, Zé Manoel, Surama Ramos, Mãe Beth de Oxum, Tiné, Urêa, Jéssica Caitano, Isadora Melo e Silvério Pessoa.
Novos frevos
Um dos destaques do projeto é o fato de todas as faixas serem inéditas, ampliando o conjunto de novos frevos lançados nos últimos anos e contrariando a ideia de que o gênero teria se tornado um território “fixo” no tempo.
"Essa ideia de um frevo que não muda é muito recente, mas ele nunca foi isso. Ao analisar a sua história, vemos que ele sempre buscou novas sonoridades", afirma Henrique Albino, ao JC.
As composições — em sua maioria criadas especialmente para o álbum — são assinadas por Albino e por nomes que têm renovado a linguagem do frevo, como PC Silva, Flaira Ferro, Mavi Pugliese, Tiné, Chinaina, Zé Manoel, Mãe Beth de Oxum, Isadora Melo, José Demóstenes, Jéssica Caitano e Emerson Araújo.
Albino lembra que Rudá Rocha, conselheiro de arte e cultura do Boi da Macuca, vinha pedindo novos arranjos para os cortejos do bloco — como versões de "Melô do Meninão", da Academia da Berlinda, e algumas músicas de Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Foi desse diálogo que surgiu a ideia do disco. "Eu queria muito gravar, ele queria novos repertórios autorais. Colocamos no Funcultural e passou", lembra.
Sobre a curadoria de intérpretes, Rudá, filho de José Oliveira Rocha, o Zé da Macuca, destaca a busca por diversidade e pluralidade. “São artistas e cantores com trabalhos muito profundos dentro da cultura nordestina”, diz.
"Este é um trabalho feito por pessoas que são amigas, queridas e próximas da Macuca, que conhecem a Macuca. Essa atmosfera da linha artística, da identidade cultural e do posicionamento artístico e cultural da agremiação já era plenamente compreendida por todos que compuseram e por todos que interpretaram as músicas. Isso foi algo natural e espontâneo para todo mundo que participou do disco", afirma Rudá.
Ele também ressalta o caráter lúdico do projeto. "Existe essa característica da Macuca de brincar com o tradicional e o contemporâneo ao mesmo tempo, tudo junto. As composições vêm muito a partir dessa identidade da Macuca, especialmente no frevo", completa.
Frevo com "música tronxa"
Na sonoridade, o álbum preserva a formação clássica das orquestras de frevo de rua, sem instrumentos harmônicos. Segundo Albino, a inspiração da chamada “música tronxa” — com x mesmo — também orienta o trabalho.
A expressão se refere a uma mistura de jazz contemporâneo, música de concerto e world music, marcada pela complexidade, pelo desafio e pela busca de inovação. “Isso aparece no álbum nas harmonias, nos arranjos, nos ritmos, nas melodias que são desafiadoras, surpreendentes. Quando chegar na rua, todos vão se sentir surpreendidos”, explica o músico.
"O objetivo é bagunçar o que está no mundo para organizar o novo. Desorganizando para organizar", diz, evocando o clássico Da Lama ao Caos.
A formação musical reúne Henrique Albino (saxofones), Rudá Rocha (surdo, zabumba e triângulo), Fabinho Costa e Jorge Neto (trompetes), Thomas Barros e Neris Rodrigues (trombones), Alex Santana (tuba), André Ragall (caixa clara), além de Gilú Amaral e Mamão do Pandeiro (pandeiros e mineiro).
E-book
Gravado nos estúdios Carranca e Música Tronxa, o projeto inclui ainda o lançamento de um e-book gratuito com as partituras das faixas, disponível no site e nas redes sociais da Macuca.
O material será entregue pessoalmente aos maestros das principais orquestras de rua, incentivando que as obras circulem nos repertórios tradicionais.
“Na Macuca, o repertório do álbum será introduzido aos poucos, porque demora para pegar. Lançamos o livro justamente para que pessoas de qualquer lugar do mundo possam adaptar esses frevos para a rua ou para o palco, do jeito que quiserem”, finaliza Albino.