Djavan lança álbum e revela por que segurou a faixa feita para Michael Jackson
"O amor está sempre mudando, é sempre novo, inusitado", resume o cantor e compositor, que lança o álbum "Improviso", incluindo homenagem a Gal Costa
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O improviso que move o jazz também pode reger o amor, segundo Djavan. Amar, diz ele, exige adaptação, diálogo, escuta e a capacidade de criar no instante certo. "O amor está sempre mudando, é sempre novo, inusitado", resume o cantor e compositor, que lançou nesta terça-feira (11) o álbum "Improviso".
O título, ambíguo por natureza, também reflete o próprio processo de criação do artista, que define o disco como "um dos mais rápidos" que já produziu.
Djavan assina ainda a produção, direção e os arranjos das 12 faixas autorais — 11 inéditas e uma regravação de "O Vento", canção registrada por Gal Costa em 1987 e agora transformada em homenagem à amiga, falecida há três anos.
Entre os destaques, está "Pra Sempre", composta originalmente para Michael Jackson, a pedido do lendário produtor Quincy Jones. "Acabei demorando demais pra mandar. Fiquei achando que não ia dar em nada, e quando finalmente enviei, ele já estava mixando o disco”, contou o artista, em entrevista por videochamada ao JC.
No papo, Djavan falou ainda sobre o público jovem que redescobre sua obra, as misturas que mantêm viva a música brasileira e a decisão de se manter positivo e discreto, deixando que suas canções falem por ele: "Prefiro falar daquilo em que realmente acredito, do que acho que pode somar de alguma forma".
Em 2026, o músico celebrará meio século de carreira com uma turnê nacional. O show no Recife está marcado para o dia 31 de outubro.
Entrevista - Djavan, cantor
"Improviso" tem um título que sugere liberdade, algo mais solto. Você, que é conhecido por lapidar tanto suas canções, sentiu uma leveza diferente nesse processo de criação?
Djavan: Acho que sim. Eu o compus num tempo bastante rápido — talvez um dos mais rápidos que já fiz. O título também tem essa brincadeira, né? “Improviso” traz uma dubiedade interessante, porque é um disco que tem toda uma organização, um cuidado meu de sempre, mas ao mesmo tempo carrega essa ideia de espontaneidade. Essa contradição me atraiu muito.
O amor é um tema que aparece no álbum e também em boa parte da sua obra — e na música universal, de modo geral. Como é se reinventar dentro desse tema sem nunca se repetir?
Olha, não é algo simples, não. Mas a gente tem o auxílio do próprio amor, que é dinâmico. Ele nunca se repete, nem na mesma pessoa. O amor está sempre mudando, é sempre novo, inusitado. E as canções acabam ganhando essa força do inusitado também, dessa coisa nova, única. Porque o amor, no fim das contas, tem esse formato único — cada vez é diferente.
"O Vento" acaba funcionando como uma homenagem à Gal Costa. Como foi revisitar essa música agora, depois da partida dela?
Foi exatamente com esse propósito, de homenageá-la. A Gal foi a minha maior intérprete — gravou 13 músicas minhas — e eu queria trazê-la de volta à memória. Ela gravou "O Vento" lindamente em 1987, e eu nunca tinha feito a minha própria versão. Então achei que agora seria uma boa oportunidade de fazer isso, de deixar registrada essa lembrança dela.
"Pra Sempre" tem uma história curiosa, uma melodia feita para Michael Jackson. Como foi esse episódio com Quincy Jones, e por que você decidiu guardá-la por tanto tempo?
Pois é, o Quincy me pediu uma música pro Michael quando ele tava gravando Bad. Ele queria uma melodia, sem letra, pra o Michael colocar a letra depois. Mas eu acabei demorando demais pra mandar — fiquei achando que não ia dar em nada, e quando finalmente enviei, ele já tava mixando o disco. Meus filhos, que eram fãs dele, assim como eu, sempre me cobravam pra gravar essa música. E agora achei que era o momento certo. Fiz a letra, gravei e ela virou "Pra Sempre".
Recentemente, você lançou uma versão de "Um Brinde" sem letra e convidou o público a criar as próprias palavras. O que mais te surpreendeu nesse diálogo com os fãs?
O talento dos fãs me surpreendeu muito. Muita gente talentosa, homens e mulheres com vozes bonitas, com musicalidade mesmo. Isso me alegrou demais. Acho que o maior presente dessa iniciativa foi descobrir — ou reafirmar — que o Brasil continua sendo um país cheio de talentos.
A geração Z tem redescoberto sua música e comparecido shows. Como você enxerga essa conexão com um público tão jovem?
Ah, eu vejo isso com muita felicidade. A fila anda, né? E é lindo ver que a gente continua nutrindo as novas gerações, que a música segue encontrando caminhos e chegando a ouvidos tão jovens. Isso me dá uma alegria enorme.
Sua música sempre foi uma mistura rica — jazz, samba, pop. Você acha que a música brasileira ainda consegue preservar essa diversidade sonora hoje?
Consegue, sim. O Brasil é praticamente um continente, e dentro dele cabem todas as formas, todas as influências. Cada região tem uma maneira diferente de fazer música, com suas próprias referências. E além disso, ainda tem o que vem de fora — o flamenco, a música africana, a americana, o jazz, o R&B... tudo isso vai se misturando. Então, acho que essa diversidade não só vai continuar existindo, como tende a se acentuar cada vez mais.
Você vê com bons olhos a influência estrangeira?
Claro, vejo com ótimos olhos. Tudo que possa se misturar pra dar um caldo mais gostoso, mais rico, é bem-vindo. A música brasileira nem precisaria de influências externas. pois ela já é enorme, muito vasta por si só. Mas essas trocas acabam tornando tudo ainda mais excitante, mais interessante.
Uma das faixas do álbum, "Sonho", fala sobre o amor em tempos difíceis, de guerras e instabilidades. O que diria sobre esse processo?
Olha, eu acho que falar de amor, ou de uma vida mais amena, de um futuro de paz, vai ser sempre importante. Mesmo quando o mundo não está em guerra, e especialmente agora, que está, é fundamental lembrar disso. A vida não foi feita pra guerra, foi feita pro amor. Então, enquanto depender de mim, eu vou continuar trazendo essas questões, tentando, ao menos um pouco, suavizar essa atmosfera belicosa em que a gente vive.
Você sempre foi um artista respeitado, mas discreto, que evita polêmicas. Essa escolha pelo silêncio já te trouxe alguma incompreensão ou julgamento equivocado?
Olha, uma carreira traz situações muito inusitadas, e eu tenho vivido coisas diferentes em cada época. Mas é isso, eu tô no jogo, digamos assim, só que eu prefiro falar daquilo em que realmente acredito, do que eu acho que pode somar de alguma forma. O mundo já tem gente demais espalhando negatividade. Eu acho que precisa de mais pessoas positivas. E eu sou, naturalmente, uma delas.