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Primeira edição do Diario de Pernambuco, guardada no Arquivo Público Jordão Emerenciano - JAILTON JR./JC IMAGEM
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Há exatos 200 anos, em 7 de novembro de 1825, alguns recifenses amanheciam recebendo embaixo de suas portas um modesto folheto de 24,5 por 19 cm, com quatro páginas, trazendo pequenos anúncios de natureza comercial. O Recife não chegava a ter 20 mil habitantes e sequer era a capital de Pernambuco, título que só ganharia em 1827.
Quem não recebesse o "Diario de Pernambuco" em casa poderia comprá-lo em três pontos espalhados por Santo Antônio e Boa Vista, em logradouros que já desapareceram após as reformas urbanas de modernização.
O periódico acompanhou todas essas transformações da cidade e do Estado, atravessando impérios, repúblicas e ditaduras. Do prelo de seu tipógrafo fundador, Antonino José de Miranda Falcão, chegou à desafiadora era da comunicação digital.
Surgimento em período turbulento
Na época de seu surgimento, a Independência do Brasil era recente, assim como a permissão para a existência da imprensa. Nesse contexto, muitos jornais apareciam e desapareciam com a mesma rapidez.
Mas o "Diario" sobreviveu. Talvez por ter nascido sem um viés opinativo tão acentuado, e sim com o propósito de prestar serviços: publicava anúncios de vendas, leilões, aluguéis, roubos e até buscas por pessoas escravizadas fugidas — registros que expunham as chagas da escravidão, ainda marcantes na sociedade. Por seu caráter de serviço, o jornal mostrou-se mais resistente às intempéries políticas.
"O Diario surge em um contexto politicamente muito acirrado. O Primeiro Reinado foi um período complicado, especialmente em Pernambuco. O jornal nasce na ressaca da Confederação do Equador e, no entanto, não surge vinculado a um debate político", explica George Cabral, presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP).
"Embora uma parcela muito significativa da população fosse analfabeta, era comum que os impressos fossem lidos por quem sabia ler em rodas de conversa, nas tabernas, nas quitandas, nas vendas e nas praças. Dessa forma, a mensagem do veículo circulava também entre aqueles que não sabiam ler".
Um grande jornal do Império
Uma das primeiras edições do Diario de Pernambuco a estampar o brasão imperial acima do cabeçalho - ACERVO DP
Dez anos após sua fundação, o "Diario" foi vendido a Manuel Figueroa de Faria, membro de uma família ligada à arte tipográfica. Ele soube aproveitar o caráter sóbrio do jornal e o transformou no órgão oficial dos governos da província, posição mantida até 1911, com alguns breves períodos de exceção.
Foi Figueroa quem transformou o pequeno folheto em um grande jornal do Império do Brasil. No cabeçalho, passaram a figurar as armas e bandeiras imperiais, que permaneceram ali até a Proclamação da República.
As páginas alcançaram o tamanho de 72 x 55 cm, e foram instituídas edições de domingo com seções literárias, onde surgiu "O Braseiro", o primeiro romance em folhetim, embrião das telenovelas brasileiras, publicado em Pernambuco. O "Diario" recebeu colaborações de Tobias Barreto, Castro Alves, Rui Barbosa, Pereira da Costa e Oliveira Lima.
Com agentes de distribuição atuando de Alagoas ao Pará, o veículo consolidou-se como um instrumento de integração regional. "Ao longo do século 19 e nas primeiras décadas do século 20, ele era uma referência para todas as províncias que viriam a formar o Nordeste", enfatiza George Cabral.
Prédio histórico aguarda reforma
Prédio histórico onde funcionou o Diario de Pernambuco, na Praça da Independência, área central do Recife - ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
Após três gerações da família Faria, vieram as primeiras crises. Chegou-se a acreditar que o jornal encerraria suas atividades junto com o século em que nasceu, até ser adquirido por Francisco de Assis Rosa e Silva, ex-senador, governador e vice-presidente da República.
Sua gestão, porém, durou pouco, em meio a acusações de uso político do periódico durante as eleições estaduais de 1911.
Foi Rosa e Silva quem construiu o prédio da Praça da Independência, ícone da arquitetura eclética e desapropriado pelo Governo em 2004, quando a empresa se mudou para Santo Amaro. Após décadas de abandono, a gestão estadual anunciou que o imóvel irá abrigar a Secretaria de Cultura de Pernambuco. A reforma, no entanto, ainda não saiu da fase da licitação.
O Diario e a "invenção" do Nordeste
Edição de 100 anos do Diario de Pernambuco - JAILTON JR./JC IMAGEM
Sob o comando de Carlos Lyra, o Diario celebrou seu centenário em 1925. Nessa época, este "Jornal do Commércio" já circulava em Pernambuco.
Com a passagem do paraibano Epitácio Pessoa pela Presidência da República, ganha força um novo recorte regional: o Nordeste. O Diario aproveitou seu centenário para defender essa ideia por meio do "Livro do Nordeste", organizado por Gilberto Freyre, de onde surgiu o poema "Evocação do Recife", de Manuel Bandeira.
"Foi ali que o Nordeste passou a ser apresentado como uma unidade cultural, social e econômica, e não apenas como o território da seca. O jornal deu voz às tradições, à arte e à modernidade nordestinas, ajudando a lapidar sua identidade internamente e diante do olhar do restante do país", observa o potiguar Octávio Santiago, autor de "Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste” (Autêntica Editora).
No centenário, também foi selada uma cápsula do tempo do Diario, guardada até hoje na sede do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, na Rua do Hospício. Trata-se de uma lata doada pelo sócio Nasson Figueiredo, que será aberta nesta sexta-feira (7), às 15h, durante as comemorações dos 200 anos.
Cápsula do tempo do Diario de Pernambuco - JAILTON JR./JC IMAGEM
Grandes colaboradores
Além de Freyre, que usou o jornal para difundir as ideias do Manifesto Regionalista, o século 20 também abrigou grandes articulistas como Mauro Mota, Mário Melo e Aníbal Fernandes.
Em 1931, passou a integrar o conglomerado Diários Associados, de Assis Chateaubriand, onde permaneceu até 2015. Depois, integrou os grupos Sistema Opinião e R2, chegando à atual fase sob o nome Grupo Diario de Pernambuco, presidido por Carlos Frederico Vital.
O colunista social João Alberto, hoje no Jornal do Commércio, acompanhou 55 anos dessa história. "Foi realmente uma experiência única. O momento mais marcante foi, ao assumir a coluna, ter sido convidado para a festa da Rainha Elizabeth II no Recife. Foi o primeiro evento que cobri e também o meu primeiro furo. Algo que me marcou muito", recorda.
Ao longo de meio século, as notas da coluna ajudaram a registrar a vida social e cultural de Pernambuco. "Em uma coluna, lidamos com uma média de 30 notícias por edição, então você cobre um tema por vários dias. Muita gente faz mestrado a partir dos arquivos da coluna. Tenho total consciência da importância disso."
Colunista social João Alberto recebe a medalha comemorativa dos 200 anos do Diario de Pernambuco das mãos do superintendente Diogo Vital e do presidente Carlos Vital - JAILTON JR./JC IMAGEM
Da linotipo às redes sociais
Após atravessar tecnologias da informação como o linotipo, o telégrafo e a informatização, o Diario presenciou também o crescimento das mídias digitais, ambiente onde hoje se constrói a esfera pública contemporânea. Em todo o mundo, é um período particularmente desafiador para o jornalismo local, em meio às mudanças nas formas de financiamento e consumo de notícias.
"No Diario, entendemos que as mudanças são naturais, decorrentes de processos históricos, então as encaramos com coragem e otimismo. Para isso, nos reinventamos diariamente, sem esquecer de quem somos", diz Diogo Vital, superintendente do Grupo Diario de Pernambuco.
"Compreendemos que as redes representam a oportunidade de alcançar novos leitores e levar informação de qualidade a diferentes públicos. Em vez de rivalizar com as transformações sociais, buscamos sempre nos adequar à melhor forma de servir à sociedade e aos leitores, novos ou antigos", complementa.
A desinformação, fenômeno antigo amplificado pelo digital, também é um desafio constante. “Em um momento em que a informação local muitas vezes é negligenciada, mantemos o compromisso de ampliar a voz da nossa gente e lançar luz sobre os problemas e as conquistas de Pernambuco e do Nordeste. O jornalismo regional é essencial para a democracia", conclui Vital.
Patrimônio material do Brasil
Primeira edição do Diario de Pernambuco - JAILTON JR./JC IMAGEM
Primeira edição do Diario de Pernambuco - JAILTON JR./JC IMAGEM
Edição de 100 anos do Diario de Pernambuco - JAILTON JR./JC IMAGEM
Atualmente, o vasto arquivo do "Diario" passa por um novo processo de digitalização com scanners de última geração, no Laboratório de Tecnologia do Conhecimento da UFPE.
Em 2024, o acervo foi reconhecido como patrimônio cultural material do Brasil, por lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um marco que trouxe novo fôlego à preservação do material, impulsionado por emendas parlamentares.
"Na década de 1980, a Biblioteca Nacional realizou um processo de microfilmagem que não permite leitura ótica dos documentos. Com a chegada dos 200 anos, iniciamos uma digitalização com scanners de grande formato, únicos no Estado", explica Marcos Galindo, assessor do projeto e coordenador da Rede Memorial de Pernambuco.
O maior desafio, segundo ele, foi realizar a leitura ótica, processo necessário para possibilitar a busca por palavras-chaves, respeitando a ortografia do século 19. "Desenvolvemos um software capaz de preservar essa linguagem da época. Conseguimos uma performance muito elevada no reconhecimento desses acervos antigos em larga escala."
O público terá acesso ao acervo em um repositório ligado ao próprio jornal. Atualmente, é possível realizar pesquisas, em qualidade reduzida, pela Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
"Todo esse conjunto de informações recolhidas e impressas no Diario se materializa em um acervo tão rico que uma vida inteira não basta para um pesquisador esgotá-lo. É, de fato, inesgotável. São páginas que influenciaram o posicionamento público diante das questões políticas e sociais de seu tempo. Trata-se, de fato, de um patrimônio histórico pernambucano", finaliza George Cabral.