ARTES VISUAIS | Notícia

Em Pernambuco, descaso mantém fechado um dos maiores acervos de arte moderna da América Latina

Museu de Arte Contemporânea, em Olinda, está em obras há quase 10 anos, impedindo acesso a obras de Portinari, Tarsila do Amaral e Gottlieb

Por Emannuel Bento Publicado em 02/04/2025 às 15:24 | Atualizado em 03/04/2025 às 8:13

Um dos principais acervos de arte moderna da América Latina, localizado no Sítio Histórico de Olinda, no Grande Recife, está há mais de 10 anos inacessível ao público.

O Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC-PE) teve atividades comprometidas desde 2014, com fechamentos parciais que se intensificaram em 2016, quando galerias e área externa foram interditadas.

Na época, o seu edifício histórico, construído em 1765, começou a apresentar rachaduras causadas pelo deslizamento progressivo do terreno, problema causado por grandes formigueiros. As obras nunca foram concluídas.

Sua ausência no circuito museológico tem enfraquecido o potencial artístico, turístico e histórico do Estado. Administrado pelo Governo de Pernambuco através da Fundarpe, o MAC-PE também apresentou problemas de segurança ao longo da década de 2010.

Acervo

VAL LIMA/FUNDARPE
Imagem interna do Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, localizado em Olinda, em 2010 - VAL LIMA/FUNDARPE

O MAC-PE guarda em suas reservas técnicas materiais que contam parte essencial da história da arte, totalizando 4 mil obras.

Entre os nomes consagrados que compõem seu acervo estão Cândido Portinari, Tarsila do Amaral, Cícero Dias, Di Cavalcanti, Eliseu Visconti, Djanira, Telles Junior, Wellington Virgolino, Alfredo Volpi, Guignard, Tereza Costa Rêgo, Francisco Brennand, além de artistas internacionais como Adolph Gottlieb, precursor da arte contemporânea.

Os trabalhos percorrem diferentes linguagens estéticas – do academicismo francês às vanguardas modernistas e à produção contemporânea. Só de Portinari, são sete obras. Em todo o acervo, apenas dois ou três quadros podem valer mais que todo o resto da coleção.

FUNDARPE/DIVULGAÇÃO
Imagem da recuperação estrutural do Museu de Arte Contemporânea - FUNDARPE/DIVULGAÇÃO
FUNDARPE/DIVULGAÇÃO
Imagem da recuperação estrutural do Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC), em Olinda, em 2022 - FUNDARPE/DIVULGAÇÃO
ISABELA VALLE/FUNDARPE
Imagem da área externa anterior do Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, localizado em Olinda - ISABELA VALLE/FUNDARPE

Parte valiosa desse acervo foi uma doação de Assis Chateaubriand (1892-1968), fundador dos Diários Associados. O prédio escolhido foi uma prisão eclesiástica, construída em 1765, e hoje tombado pelo Iphan.

Em 1947, "Chatô" fundou o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), em funcionamento na Avenida Paulista e prestes a ganhar um prédio anexo.

Em Pernambuco, a situação é outra. Apesar de alguns projetos anunciados ao longo dos anos, as duas gestões de Paulo Câmara (PSB) não devolveram o MAC à população. Quando fechou as portas, em 2016, o espaço já não recebia obras de reparo pelo menos desde 2009.

Governo fala em requalificação geral

Em nota, a atual gestão do Governo de Pernambuco informou que encontrou o MAC "fechado, com problemas estruturais e de segurança patrimonial". Apesar disso, obras - que já estavam em andamento - de reforço nas fundações e revisão das cobertas foram concluídas em outubro de 2024.

Em paralelo às obras, a Diretoria de Obras e Projetos Especiais da Fundarpe informou que já entregou o projeto de requalificação do MAC com foco na recuperação geral do museu. "O processo licitatório está sendo finalizado e as obras devem ser iniciadas ainda este ano", diz a nota, que pode ser lida na íntegra no final do texto.

Acervo pode valer até R$ 700 milhões, diz marchand

RICARDO MOURA/FUNDARPE
Imagem interna do Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, localizado em Olinda, em 2010 - RICARDO MOURA/FUNDARPE

O marchand Ricardo Bandeira de Melo, que é sobrinho-bisneto de Assis Chateaubriand, disse ao JC que os problemas estruturais do prédio "não podem servir como desculpa para o fechamento por mais de 10 anos".

"Como seu acervo está sendo mantido? Onde está mantido? Sob quais condições? No último levantamento que fiz, ele valia algo em torno de R$ 700 milhões Desagrada muito a nossa família, que o público não tenha acesso a este tão importante equipamento cultural, num momento em que a cultura está tão em baixa no país", diz Ricardo.

"Já tentamos falar com Cacau de Paula, Secretária de Cultura do Estado. Já tentamos fazer com que o Instituto Ricardo Brennand recebesse o acervo. Mas tudo sem sucesso. Esperamos que o MAC seja reaberto o quanto antes, com toda a sua glória", concluiu.

Problemas estruturais e de segurança

DIVULGAÇÃO
"Enterro" 1959, de Cândido Portinari, integra o acervo do Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco - DIVULGAÇÃO

A situação do MAC-PE despertou interesse da imprensa nacional em 2010, quando foi roubado um quadro de Cândido Portinari, intitulado "Enterro" (1959), avaliado em quase R$ 2 milhões. A obra foi recuperada após 15 dias, no Rio de Janeiro.

Em 2017, uma nova tentativa de roubo levou à implementação de estantes móveis de aço blindado, com travas eletrônicas controladas por sistema computadorizado.

Já a situação estrutural começou a ser exposta a partir de 2016, após reportagens da imprensa e de uma denúncia do artista plástico Renato Valle ao Ministério Público de Pernambuco. Na época, uma obra de Valle no acervo do MAC apareceu danificada várias vezes.

DIVULGAÇÃO
Imagem do mural "O velório" (1988), de Renato Valle, do acervo do Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco - DIVULGAÇÃO

"O mural 'O Velório', de 1988, saiu do MAC para exposições em outros museus, porém sempre com arranhões ou danificações. Ao tomar conhecimento – através da imprensa – que o acervo estava comprometido por infiltrações, formalizei uma denúncia. Afirmei que, caso o museu não pudesse garantir as condições adequadas para a obra, deveriam devolvê-la", relembra Renato, ao JC.

Hoje, "O Velório" segue no MAC. O artista considera o prédio, antiga cadeia do século 18, inadequado para abrigar um museu de arte contemporânea, que demanda intervenções arquitetônicas. "Por ser tombado, não é possível modificar sua estrutura, paredes ou espaços. A arte contemporânea requer instalações e inovações – o ideal seria um edifício contemporâneo", opina.

Após a denúncia, o MPPE abriu um inquérito civil e o Núcleo de Engenharia do Tribunal de Contas do Estado (TCE) produziu um relatório que expôs o estado de abandono, identificando uma série de problemas, incluindo rachaduras, ferragens expostas, vazamento e desprendimento do reboco, entre vários outros.

Em 2016, o JC divulgou um projeto de requalificação no valor de R$ 6 milhões, que incluía um novo anfiteatro e uma loja-galeria. No entanto, a iniciativa nunca saiu do papel.

FUNDARPE/DIVULGAÇÃO
Imagem do projeto de requalificação para o Museu de Arte Contemporânea, em Olinda, divulgado pela Fundarpe em 2016 - FUNDARPE/DIVULGAÇÃO

Cuidados foram paliativos, mostra Diário Oficial

A reportagem verificou no Diário Oficial que as licitações relacionadas ao Museu limitavam-se a ações paliativas, como manutenção predial preventiva e corretiva ou escoramento metálico para áreas interditadas, com valores entre R$ 13 mil e R$ 63 mil.

Em 2019, foi aberto o processo nº 1495, com um projeto de R$ 67 milhões para reformas na Casa da Cultura, no Cinema São Luiz e no MAC-PE. No entanto, a licitação não avançou nos anos seguintes.

A única obra efetivamente realizada foi uma recuperação estrutural de R$ 926 mil, incluída no Plano de Retomada dos Equipamentos (abril/2022), com previsão de conclusão para abril de 2023.

Reserva técnica em imóveis vizinhos

A partir de 2019, o Governo do Estado passou a utilizar imóveis vizinhos no bairro do Varadouro, por meio de cessão, para abrigar a reserva técnica do MAC-PE. Segundo a Fundarpe, as obras estão sob a guarda de um museólogo da Superintendência de Equipamentos Culturais da instituição.

Desde o início da gestão de Raquel Lyra (2023-atualidade), o museu teve três chefes de unidade em três anos: Sônia Maria Castro de Correia, Marcia Leandro dos Santos e Luciana Helena Barros Teixeira.

Em novembro de 2024, a presidente da Fundarpe, Renata Borba, assinou a rescisão amigável de um contrato com a Projetar Construções, que previa a execução de obras de recuperação estrutural no equipamento.

Confira a nota do Governo de Pernambuco na íntegra:

"Em 2023, ao assumir o Governo do Estado de Pernambuco, a atual gestão, por meio da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco - Fundarpe, recebeu o Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC-PE) fechado, com problemas estruturais e de segurança patrimonial. No primeiro momento, foi dada continuidade à obra já em andamento de consolidação com reforço nas fundações e revisão das cobertas, concluída em outubro de 2024.

Em paralelo às obras, a Diretoria de Obras e Projetos Especiais da Fundarpe entregou o projeto de requalificação do MAC-PE com foco na recuperação geral do museu. O processo licitatório está sendo finalizado e as obras devem ser iniciadas ainda este ano.

O projeto engloba a implantação do sistema de acessibilidade (instalação e elevador e rampas), prevenção de combate a incêndio, sistema de ar condicionado (até então inexistente), circuito fechado de TV para reforçar a segurança, além da restauração de cantarias, assoalho e da renovação das instalações elétricas.

Hoje o museu conta com um acervo de mais de 4 mil obras das mais variadas técnicas, épocas e estilos, indo desde o academicismo francês até a contemporaneidade. [...] As mesmas se encontram armazenadas e cuidadas por um museólogo que faz parte da equipe da Superintendência de Equipamentos Culturais da Fundarpe".

Compartilhe