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'Acho que a Raquel sempre foi preta', diz autora do remake de 'Vale Tudo'

'Ela era branca em 1988 por uma incapacidade da sociedade naquele momento de perceber e dar esse protagonismo para uma atriz preta', diz Manuela Dias

Por Emannuel Bento Publicado em 25/02/2025 às 17:50 | Atualizado em 26/02/2025 às 11:37

A representatividade negra em "Vale Tudo", remake do clássico de 1988, foi um dos destaques da primeira coletiva de imprensa da novela, realizada nesta terça-feira (25). O folhetim tem estreia prevista para 31 de março, na TV Globo.

"Acho que a Raquel sempre foi preta. Ela era branca [na versão de 1988] por uma incapacidade da sociedade naquele momento de perceber e dar esse protagonismo para uma atriz preta", afirmou a autora Manuela Dias sobre a grande protagonista da trama, agora interpretada por Taís Araújo – papel que foi de Regina Duarte na década de 1980.

A premissa central da novela permanece a mesma da versão criada por Gilberto Braga. Mãe e filha fazem uma aposta a partir de um questionamento: é possível ser bem-sucedido e, ao mesmo tempo, honesto no Brasil?

Na primeira versão, existiam apenas dois negros: Gildo (Fernando Almeida), um adolescente marginal que muda de postura ao longo da trama, e a empregada Zezé (Zeni Pereira).

Relação de Odete e Maria de Fátima

A autora também abordou um dos pontos mais discutidos pelos fãs na internet: como a vilã Odete Roitman (Déborah Bloch) aceitaria uma nora negra (Maria de Fátima, agora vivida por Bella Campos), se na versão original ela demonstrava traços racistas?

"A Odete é muito pragmática e focada em como tudo funciona para ela. Isso é maior do que qualquer outra coisa: serve quem está a serviço para executar a agenda dela. Então, a Maria de Fátima continua sendo perfeita para isso. Nas duas versões, elas compartilham uma forte identificação", explicou Dias.

'Parece escrito por uma mulher negra', diz Taís Araújo

Fabio Rocha/TVGlobo
Taís Araujo vive Raquel Accioly em 'Vale Tudo' - Fabio Rocha/TVGlobo
Fabio Rocha/TVGlobo
Taís Araujo vive Raquel Accioly em 'Vale Tudo' - Fabio Rocha/TVGlobo
MANOELLA MELLO/GLOBO
Antonio Pitanga, Bella Campos e Taís Araujo nos bastidores da gravação de 'Vale Tudo' - MANOELLA MELLO/GLOBO

Taís Araújo destacou como a mudança racial da protagonista transforma a narrativa da personagem.

"A experiência de uma mulher preta é muito diferente da de uma mulher branca no mundo. A partir daí, já temos uma outra história", afirmou.

"Quando leio os capítulos, meu Deus, parece mesmo escrito por uma mulher preta, que tá no corre, que tá na base da pirâmide, que decidiu tudo para criar essa menina [Maria de Fátima]. Tem algo muito familiar para os brasileiros, que cruzam com mulheres como ela no dia a dia", acrescentou.

"Mesmo sendo uma mulher preta com muitos privilégios, carrego uma consciência que está no meu sangue, na minha história, nas mulheres da minha família."

'Dramaturgicamente, é um papel perfeito'

Taís revelou que nos últimos tempos desejava interpretar uma vilã e achava que não havia um papel para ela no remake. No entanto, ao rever o primeiro capítulo da novela, mudou de ideia.

"Pensei: 'Não posso perder essa oportunidade'. A personagem é boa, tem conflitos, uma jornada do herói. Dramaturgicamente, é um papel perfeito", contou. "Claro que é uma responsabilidade imensa. Sou uma artista que faz muitas novelas, e essa é a novela das novelas. Existe uma honra muito grande que se sobrepõe a qualquer desafio."

Família de Consuelo

Fabio Rocha/TVGlobo
Vila Isabel, o refúgio de Raquel no Rio de Janeiro Jarbas (Leandro Firmino), André (Breno Ferreira), Consuêlo (Belize Pombal) e Daniela (Jessica Marques) - Fabio Rocha/TVGlobo

A representatividade negra também se reflete na família de Consuelo (Belize Pombal), secretária da empresa de aviação TCA. Ela será casada com Roitman Jarbas (Leandro Firmino) e mãe de dois filhos, André (Breno Ferreira) e Daniela (Jéssica Marques).

"Por muito tempo, foi difícil encontrar representações de afeto entre pessoas negras. Ver essa família construída com harmonia me emociona. O afeto é uma ferida para nós, então mostrar essa família de forma equilibrada é algo muito importante", destacou Belize.

Sardinha

Fabio Rocha/TVGlobo
Lucas Leto vive Sardinha em Vale Tudo - Fabio Rocha/TVGlobo

Outro personagem negro da nova versão é Sardinha, que foi interpretado por Otávio Müller e agora será vivido por Lucas Leto. No remake, ele continua sendo parceiro de Solange (Alice Weigmann), mas agora em uma agência de conteúdo chamada Tomorrow – que, na versão original, era uma revista.

"Ele é bem-humorado, um contraponto interessante para Solange. Muito trabalhador, meio workaholic, mas traz leveza para a relação dos dois", contou Lucas.
Na trama, Sardinha foi adotado por pais suíços, morou no exterior por muitos anos e conheceu Solange em um curso de fotografia em Paris.

"De alguma forma, posso entregar também quem eu sou; minha arte e minha profissão representam alguém que é jovem e, claro, negro", concluiu o ator.

O texto do remake de 'Vale Tudo’ tem colaboração de Aline Maia, Claudia Gomes, Márcio Haiduck, Pedro Barros e Sérgio Marques, baseado na obra de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. A direção artística é de Paulo Silvestrini, direção geral de Cristiano Marques.

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